Valerio Arcary

19 de junho de 2019, 07h33

Três táticas dividem a esquerda diante do governo Bolsonaro

Valerio Arcary: “São três os partidos com audiência de massas: PT, PSOL e PCdoB, se considerarmos como critério aqueles que conquistaram representação parlamentar, embora o PT seja, evidentemente, muito maior”

Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

Existem três táticas em disputa na esquerda brasileira. Vai ser necessário discutir, honestamente, para sairmos do “grau zero” de reflexão estratégica, agora que a conjuntura “esquentou” um pouco. Podemos denominá-las a tática quietista, a tática do desgaste e a tática da ofensiva permanente.

São três, também, os partidos com audiência de massas: PT, PSOL e PCdoB, se considerarmos como critério aqueles que conquistaram representação parlamentar, embora o PT seja, evidentemente, muito maior. Outros partidos têm legalidade e influência no movimento sindical, estudantil ou popular, e muitas organizações têm graus distintos de implantação social. Algumas são importantes, mesmo sem terem deputados. Dezenas de outros coletivos de diferentes tamanhos e grau de maturidade atuam nos sindicatos e movimentos sociais, embora a imensa maioria tenha somente dimensão local. Mas são somente três táticas.

Inscreva-se no nosso Canal do YouTube, ative o sininho e passe a assistir ao nosso conteúdo exclusivo

A tática quietista consiste em disputar o espaço de oposição, com maior ou menor retórica radical no Congresso, e aguardar as próximas eleições. Quietismo deriva de ficar quieto, na moita. O quietismo fundamenta-se na apreciação, que pode ser mais ou menos explícita, de que teria ocorrido uma derrota histórica. Aceita Bolsonaro como legítimo porque, sumariamente, venceu as eleições. O governo representa, portanto, uma alternância nos marcos do regime presidencial. A oposição deve aproveitar as posições institucionais que ocupa, nos governos estaduais, prefeituras e nas Câmaras Municipais, Assembleias Legislativas e no Congresso Nacional para a melhor redução de danos possível. A unidade de ação no Parlamento com os partidos do centrão, sob o mínimo denominador comum, deve ser priorizada. A esquerda não deve desafiar, frontalmente, o governo, porque pode provocar um endurecimento das tendências bonapartistas.

Veja também:  Bolsonaro nomeia delegado da PF ligado a ruralistas para presidência da Funai

A tática da ofensiva permanente defende que as mobilizações de 15 e 30 de maio e o dia de greve nacional de 14J colocaram na ordem do dia o “Fora Bolsonaro”. Considera que existem condições para iniciar um movimento para derrubar o governo. Avalia que prevalece no Brasil a tendência à polarização social e política. Polarização significa dizer que há, crescentemente, dois polos com posições, relativamente, equivalentes, que terão que medir forças diante da gravidade da crise econômica e o agravamento da crise social. Apesar da vitória eleitoral de Bolsonaro, não se abriu uma situação reacionária. As derrotas acumuladas desde o impeachment de 2016 não permitem concluir que se impôs uma relação social de forças desfavorável. As posições da classe trabalhadora estariam intactas.

A tática do desgaste consiste em procurar posições de vantagem relativa, enfrentar o governo em conflitos parciais, pela corrosão, fricção, erosão, atrito, ruína, e acumular forças com vitórias parciais, porque elas são possíveis, e criar as condições para sair da defensiva e passar à contraofensiva. A tática do desgaste reconhece que há uma situação reacionária e a política deve ser defensiva, ou seja, deve-se evitar aventuras, mas não considera que aconteceu uma derrota histórica. Admite que não há, por enquanto, condições de mobilizar para derrubar o governo. Porque o governo ainda tem apoio na maioria da população. Por isso, o Fora Moro, Lula Livre. Não o Fora Bolsonaro. Afirma que devemos agir para enfraquecer ao máximo o governo, até que haja condições de tentar derrubá-lo, e passar para a tática de ofensiva permanente. No vocabulário marxista clássico, de inspiração gramsciana, trata-se de defender posições nas trincheiras, ou guerra de posições. No vocabulário dos quatro primeiros Congressos da III Internacional, trata-se da tática da Frente Única, própria de situações defensivas.

Veja também:  Damares defende Eduardo Bolsonaro como embaixador: "É um menino culto e inteligente"

Os três maiores partidos não são homogêneos. Curiosamente, existem defensores de pelo menos duas, ou até das três táticas, em maior ou menor grau de clareza, nestes três partidos. O debate é, portanto, transversal. PT e PSOL admitem o direito de expressão de correntes internas organizadas que se manifestam, publicamente, em polêmicas permanentes. O PCdoB nunca foi, a rigor, monolítico e suas discussões internas deixaram de ser, estritamente, reservadas.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.