Blog do Mouzar

11 de março de 2014, 11h48

Um certo saudosismo

Conversando com um rapaz, recentemente, eu disse a ele o que digo sempre e outras pessoas também: ficar velho é uma porcaria.

Mas ao mesmo tempo, às vezes provoco dizendo que quem tem a minha idade pode ter feito coisas, e eu fiz, que os jovens de hoje nunca vão fazer.

Para começar, lembro as viagens de trem. Viajei neles o quanto pude. Eram na grande maioria trens vagarosos, e as viagens eram muito aproveitadas por mim, com tempo pra conversar com o povo, aprendendo muito com as populações locais, ouvindo suas histórias, seus problemas, suas piadas, suas brincadeiras e, como diz o samba, comendo a mesma comida e bebendo a mesma bebida.

Para se ter ideia da demora, de Belo Horizonte a Salvador, uma vez, a viagem durou quatro dias. Numa primeira etapa, saímos de Belo Horizonte no início da tarde, viajei a noite inteira e um dia inteiro até chegar em Monte Azul, em Minas, divisa com a Bahia. Foram quase trinta horas de viagem. Peguei um bailinho lá e dormi numa espelunca, depois as dormidas foram no trem mesmo, viajando.

De São Paulo a Uruguaiana foram sete dias. Aí, as etapas eram de um dia inteiro viajando, vendo as variações de paisagens, de tipos humanos, sotaques, arquitetura, tudo. E os pernoites era em cidades quase sempre pequenas, com tempo para um passeio, um jantar…

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De trem, atravessei o Pantanal, por exemplo. Foram muitas as viagens, e eu sempre levava uma garrafa de cachaça e duas xicrinhas esmaltadas num embornal: convidar velhos que pareciam ter histórias interessantes para tomar uma cachacinha era sempre um bom modo de puxar conversa.

Uma viagem em que aprendi uma coisa interessante foi de Fortaleza ao Crato, no Ceará. Um velhinho (isso no início dos anos 1970) conversador me parecia muito interessante e o chamei para tomar uma comigo. Contou que era aposentado e tinha trabalhado na construção daquela ferrovia. Os engenheiros, lembrava-se, eram todos ingleses. Orientando os operários, eles não conseguiam pronunciar a palavra bitola, falavam “baitôla”. Entre esses ingleses, havia vários homossexuais. Quando um operário dava algum trejeito que parecia desmunhecada, os outros, gozadores, o comparavam aos ingleses: “Olha o baitôla aí”. Daí surgiu, segundo ele, essa gíria nordestina para designar homossexuais.

Quem pode fazer viagens como essa, hoje? Estão recriando ferrovias, e tem o projeto do trem-bala, de São Paulo ao Rio. Se estiver vivo quando ele focar pronto, não pretendo viajar nele. Não vai ter graça. Deverá ser uma viagem apressada, chata, sem as conversas típicas dos trens apreciados por nós mineiros. Imagino que serão viagens de carrancudos de pouca conversa, gente que só quer rapidez. Nada de andar à toa pelos vagões.

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Outra coisa que os jovens atuais não vão fazer é a viagem de vapor pelo rio São Francisco. Fiz várias vezes. De Pirapora, no norte de Minas, até Juazeiro, na Bahia, divisa com Pernambuco, são 1371 quilômetros de rio, e a viagem calma passando entre ilhas, parando em cada cidade um tempo suficiente para a gente dar uma volta enquanto embarcavam e desembarcavam mercadorias, durava sete dias rio abaixo ou doze dias rio acima.

O preço era barato e na segunda classe sempre rolava um forró, pois invariavelmente havia sanfoneiros e outros músicos.

Na primeira vez que fiz essa viagem, um amigo levou O Capital para ler. Teria bastante tempo. Eu preferia ficar conversando com todo mundo, arrumei até uma namoradinha, mas era um mero namorico, por falta de privacidade, pois nem ela nem eu tínhamos camarote.

E arrumei um grande amigo, o Fontes, que ia até sua terra, Barra, cidade belíssima, antiga, com uma arquitetura maravilhosa. Ele e um conterrâneo bebiam numa mesa do bar e me viram procurando mesa vazia, o que não tinha, e me convidaram para sentar com eles.

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Nos apresentamos, não entendi bem o nome do amigo do Fontes e ele me contou uma história. Seu pai era fanático por um livrinho de bolso chamado “Gisele – a espiã nua que abalou Paris”, uma série escrita pelo jornalista Davi Nasser, com um pseudônimo que não me lembro. Aliás, Davi Nasser era um jornalista de direita que eu não gostava, mas era divertido nos livrinhos dessa Gisele e nas letras de tangos (é dele a letra do tango Carlos Gardel: “Tu cantavas a tragédia das perdidas / entendendo suas vidas / perdoava seu papel…). O homem queria ter uma filha, que se chamaria Gisele. Nasceu homem, seu nome fico sendo Gisélio.

E assim fomos, naquele ritmo vagaroso, num vapor com passageiros abertos para novas amizades, conversas, contação causos, namoros e compartilhamento de bebidas. No meu caso, namoricando a Ione e compartilhando as bebidas com o Fontes e o Gisélio. Numa certa altura, o Fontes ficou pensativo, olhando um afluente que desaguava no São Francisco.

Perguntei o que se passava e ele respondeu:

― Estou imaginando se este rio fosse de pinga e aquele afluente ali de limão…

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