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29 de maio de 2018, 15h31

Vagner Marques: Pegar carona com os caminhoneiros para resistir ao golpe

"Diferentemente dos oportunistas que utilizam as redes sociais para o tom apocalíptico, precisamos de representação, de encontrar no debate partidário, político e no amadurecimento dos movimentos sociais os caminhos para a estrada que reposiciona o país para as trilhas do crescimento, da inclusão e da justiça social"

Paralisação dos caminhoneiros na Rodovia Presidente Dutra, no Rio de Janeiro. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
Por Vagner Aparecido Marques* Nos últimos dias a greve e a resistência dos caminhoneiros mobilizou o país. A força e a criatividade da categoria foram fundamentais para dar um xeque-mate, desesperar o governo golpista de Michel Temer e alcançar parte dos objetivos que os motivaram no início da paralisação. As propostas dos caminhoneiros, embora amplas, traduzem uma pauta econômica. Uma vez atendidas as solicitações, os problemas do transporte, da política de preço da Petrobras, do valor do frete e as questões diversas da categoria não somem, apenas são minimizados. Mas é admirável a força de mobilização, organização e luta. Devemos...

Por Vagner Aparecido Marques*

Nos últimos dias a greve e a resistência dos caminhoneiros mobilizou o país. A força e a criatividade da categoria foram fundamentais para dar um xeque-mate, desesperar o governo golpista de Michel Temer e alcançar parte dos objetivos que os motivaram no início da paralisação.

As propostas dos caminhoneiros, embora amplas, traduzem uma pauta econômica. Uma vez atendidas as solicitações, os problemas do transporte, da política de preço da Petrobras, do valor do frete e as questões diversas da categoria não somem, apenas são minimizados. Mas é admirável a força de mobilização, organização e luta.

Devemos pegar carona com os caminhoneiros e ampliar a pauta para que ela não se restrinja às questões econômicas, aproveitar o momento e colocar as diversas inquietações no centro da mesa, na boleia da discussão, dar um passo adiante, pensar contextos, analisar as situações em jogo e ampliar as discussões com a opinião pública sobre os retrocessos que estamos vivendo no cotidiano.

É necessário colocar no baú do debate as questões fundamentais que escapam à pauta dos caminhoneiros; saúde e educação são imprescindíveis, assim como escancarar cada vez mais o golpe que a democracia sofreu no tempo presente. Devemos abastecer as discussões sobre o projeto de sociedade que queremos construir e a oportunidade esta batendo à nossa porta. Resta-nos aproveitar e procurar as chaves para abrir os caminhos de reposicionar o Brasil nos interesses dos brasileiros e não mais nos de uma minoria que estende o golpe com ações diárias. Cabe-nos pensar estratégias e não deixar com que a conscientização que está tomando conta de cada um de nós suma quando a pauta dos caminhoneiros for atendida.

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O que ocorrerá quando se concretizar o acordo entre caminhoneiros e governo? A paralisação e toda a mobilização que tomou conta das discussões vão cessar?

Os problemas do país não são apenas os problemas dos caminhoneiros, daí a necessidade de uma carona em sua coragem e organização para traduzir nas ruas as inquietações que tomam conta de nossa sociedade desde o golpe e se alarga a cada dia em retrocessos e retirada de direitos.

Os problemas não sumirão com o fim da paralisação dos caminhoneiros; nem os deles, tampouco os dos demais brasileiros. E aqui há uma grande vantagem, pois os caminhoneiros lançaram uma estrondosa buzina em nossos ouvidos e nos provocaram a olhar no espelho a fim de encontrar em nós mesmo e na soma coletiva com nossos iguais as forças necessárias para resistir a um projeto de retrocessos que se fortalece a cada dia.

Diferentemente dos oportunistas que utilizam as redes sociais para o tom apocalíptico, precisamos de representação, de encontrar no debate partidário, político e no amadurecimento dos movimentos sociais os caminhos para a estrada que reposiciona o país para as trilhas do crescimento, da inclusão e da justiça social.

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Os caminhoneiros estão nos ensinando a tomar as ruas e a resistir, nos permitiram a oportunidade de seguir adiante e colocar todas as inquietações nas ruas, a nossa crítica ao projeto de privatização da saúde, a perversidade da reforma trabalhista, as tentativas de aprovação de uma reforma da Previdência sem o apoio da sociedade, a perversidade da PEC do Fim do Mundo com o congelamento dos gastos públicos por vinte anos, a inconsistência da reforma do ensino médio e desmandos da Educação pública, os cortes insistentes e profundos no Ensino Superior que estão deixando as Universidades Públicas sem investimento, sem condições de pesquisa, os absurdos privilégios do STF com auxílio aluguel para juízes que recebem salários incomparáveis com a maioria da população.

Os caminhoneiros nos permitiram a carona de escancarar o país que sofreu um golpe do Temer, de um Congresso Nacional e Senado que em sua esmagadora maioria não representam os interesses da nação. É hora de descarregar a seletividade de uma justiça que tirou da presidência a primeira mulher a assumir o comando do país e prendeu, sem materialidade de provas, mas com a “convicção” de um procurador da Operação Lava Jato, o maior presidente da história. É hora de escancarar os interesses políticos do judiciário, traduzidos no juiz que posa em fotos e inocenta Aécio Neves, o conluio do golpe, e continua a proteger o golpista de um presidente mesmo após as provas, os incriminatórios áudios do Joesley Batista e as malas com 51 milhões do Geddel Vieira.

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A paralisação deve se manter e ser ampliada, mas somada às outras pautas, as pautas da sociedade. Com representação e ampliação das exigências devemos buzinar, gritar, tomar as ruas e dizer Fora Temer, fora golpistas.

*Vagner Aparecido Marque é historiador e professor. Autor do livro “Fé & Crime: Evangélicos e PCC nas periferias de SP”

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