Cinegnose

por Wilson Ferreira

11 de julho de 2019, 06h10

Vaza Jato, Fausto Silva e morte de Teori Zavascki: conspiração ou dúvida justificada?

As mensagens vazadas revelam de forma clara que nos bastidores havia uma queda de braço entre o ministro do STF Teori Zavascki e o Juiz Moro. Na época, Teori repudiou publicamente as ações de Moro duas vezes

Fotos: Reprodução

Em Política não existem coincidências. Existem sincronismos. É o que revelam as últimas informações trazidas à opinião pública pela Vaza Jato. Primeiro, dando um novo significado às especulações de 2017 sobre o acidente aéreo que vitimou o então relator da Operação Lava Jato no STF, ministro Teori Zavascki. A exaltação “Uha, Uhu!” do procurador Dellagnol, eufórico em confirmar que o ministro substituto, Edson Fachin, era “nosso” explicitou como o “trágico” teve “timing” e “oportunismo”. Demonstrando que as “teorias conspiratórias” eram muito mais do que isso: eram “desconfianças justificadas”, tendo em vista as coincidências e anomalias que cercaram a tragédia. E segundo, a naturalidade como a mídia (e o próprio apresentador) encarou as dicas de “Media Training” dadas por Fausto Silva a Sérgio Moro, então juiz num processo em discussão por diferentes lados do espectro político – o “Faustão” acredita ter uma procuração do “povão”, uma missão manifesta, dentro da atual atmosfera de democracia plebiscitária ou direta.

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Na Política não existem coincidências, mas sincronismos. Disso decorre que, no cálculo dos ganhos políticos e financeiros em eventos sincrônicos, tal timing no encadeamento de eventos deveria gerar, no mínimo, uma desconfiança justificada.

E por que não há “coincidências”?  Porque em política sempre alguém vai perder e muitos outros ganharão tempo, vantagem ou mesmo a vitória definitiva em alguma questão que sempre está próxima de um evento “trágico”. “Timing” e “oportunismo” são as noções centrais em eventos sincrônicos, capazes de criar uma constelação de “coincidências significativas” que vão muito além das “trapaças da sorte”.

As últimas revelações de mensagens trocadas entre o juiz federal Sérgio Moro e procuradores da Força Tarefa da Lava Jato pela Vaza Jato (dessa vez, com a colaboração da revista Veja) revelam não só mais evidências da parcialidade e promiscuidade nas relações entre juiz e procuradores. Mas também como no Brasil as anomalias se normalizam, se trivializam. A ponto de desaparecerem toda e qualquer “desconfiança justificada”.

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De um lado, como as mensagens vazadas revelam de forma clara que nos bastidores havia uma queda de braço entre o ministro do STF Teori Zavascki e o Juiz Moro. Na época, Teori repudiou publicamente as ações de Moro duas vezes – críticas à divulgação do grampo da conversa entre a presidenta Dilma e Lula; e o comportamento inadequado de juízes que procuram holofotes.

E em meio a esse contexto, num “golpe do destino”, Teori morre num acidente aéreo em Paraty, com uma série de anomalias descartadas de pronto pela grande mídia. Assim como a declaração do próprio filho do ministro, Francisco: “Acho que se justificam as ilações de que também possa ter havido homicídio, já que eram tantas as coincidências e já que o momento era tão propício”, disse.

E do outro, as trocas de mensagens vazadas apontam que o apresentador da Globo Fausto Silva procurou o juiz Moro para não só cumprimentá-lo pelo trabalho, mas também para dar dicas de media training – como nas coletivas e entrevistas Moro deveria usar uma linguagem mais simples, “povão”, para “todos entenderem”.  Um apresentador de TV de uma concessão pública dando conselhos a um juiz, numa evidente intervenção tomando parte de um lado do processo em andamento?

Muito mais sintomática, a resposta do apresentador ao ver, de repente, seu nome citado na Vaza Jato. Não só confirmou a conversa no chat, como justificou-se dizendo que sempre foi “um defensor do combate à corrupção, como sempre demonstrou em comentários no seu programa”. E tudo ficou assim, numa atmosfera de normalidade, em mais um flagrante de promiscuidade entre mídia e judiciário.

Triângulo das Bermudas da política

“Uha, ahu, o Fachin é nosso”, comemorou Dallagnol nos chats vazados após conversa de 45 minutos com o ministro no momento de troca do relator, depois da morte de Teori. Além de imaginarmos o procurador fazendo um gesto “hang loose” com a mão, exultante com a “saída” de cena de um opositor que se tornava perigoso, essas revelações nos fazem relembrar as anomalias e sincronismos daquele momento.

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Como discutimos em postagem anterior do Cinegnose, Paraty parecia ter se transformado numa espécie de “Triângulo das Bermudas” brasileiro: as incríveis coincidências nos cenários políticos do desaparecimento de Ulysses Guimarães em 1992 em acidente de helicóptero e a morte de Teori Zavascki em 2017 apontaram para uma indagação: a região transformou-se numa região maldita na qual os impasses políticos brasileiros são resolvidos tragicamente? – clique aqui.

Para começar, pega de surpresa, a grande mídia rapidamente articulou um discurso repleto de contradições – testemunhas viram rastros de fumaça; testemunhos de pilotos de embarcações turísticas que navegavam no local: como? Turistas nas águas em meio a chuva e visibilidade zero? Claro que foi dado o devido destaque a esses últimos testemunhos, com muitas informantes de pautas especialistas diante de infográficos estilizando nuvens e chuvas.

Mas, em linhas gerais, cravou ao distinto público, antes da conclusão de qualquer investigação oficial, o veredito definitivo de que visibilidade zero, chuva e ausência de torre de controle criaram a “tempestade perfeita” que fez um avião vulnerável cair. Não obstante ser o cotidiano comum para pilotos experientes no Litoral Norte e os relatos (convenientemente perdidos na edição dos telejornais) de fumaça saindo do avião.

Em ato falho, simultaneamente a Globo colou na ministra Cármen Lúcia chegando em Brasília, mal contendo a ansiedade sobre apostas das indicações do ministro substituto. “Veja lá o que vão dizer para o País!” era a chantagem que a grande mídia dizia sempre nas entrelinhas.

Sem falar nas inúmeras anomalias de um episódio cujas últimas informações da Vaza Jato parecem dar um novo sentido. Entre elas, podemos destacar:

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(a)Stalkers do avião de Teori

Duas semanas antes do fatídico acidente, a ficha técnica do avião Beechcraft teve um estranho pico de visualizações: repentinamente no dia 03/01 pulou para 1.885 acessos, voltando nos dias posteriores a zero até o dia do acidente. Um pico de 3,7 vezes mais do que todas as visualizações anteriores. Pessoas repentinamente interessadas na compra da aeronave? Estranho para um aparelho transferido para o empresário Carlos Alberto em outubro de 2016.

(b)Hangar movimentado

Segunda a Folha de São Paulo, logo após o acidente houve uma inesperada movimentação no hangar, em Campo de Marte/SP, onde era guardado o bimotor que levou Teori. Uma pessoa chegou no hangar da empresa TAG dizendo-se responsável pelas câmeras de segurança e começou a recolher computadores do local. Poucos minutos antes da chegada de membros da Aeronáutica e Polícia Federal, também em busca de imagens do circuito interno.

(c)Ameças

Desde 2016, o filho da Teori, Francisco Zavascki, alertava em seu perfil do Facebook sobre ameaças que a família vinha sofrendo. Confirmado pelo jornal Folha, em que ele relatava que a família estava seriamente preocupadas pelas ameaças telefônicas – clique aqui.

(d)Estranha tentativa de resgate

Segundo relatos de barqueiros locais, pescadores tentaram erguer os destroços duas vezes. Havia uma vítima ainda viva batendo no vidro, desesperada, gritando que não aguentava mais. As tentativas foram interrompidas por intervenção da Aeronáutica, alegando a necessidade de preservar o local para a perícia.

Porém, a FAB desistiu de retirar o avião de fundo do mar alegando dificuldades e passou a responsabilidade para o proprietário do avião. Enquanto isso, o local passou um grande tempo sem nenhuma vigilância das autoridades, apesar da preocupação inicial dos militares em “preservar o local para perícias”. Conforme confirmado por jornalistas do jornal Estado de São Paulo.

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*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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