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21 de abril de 2018, 12h50

Zé Dirceu e suas contradições: a lucidez e dignidade de um combatente

Dirceu é um preso político. Está encarcerado por ser líder e construtor de um projeto de esquerda para o Brasil. Ao prendê-lo novamente, o golpe presta uma homenagem ao Zé. Confessa que tem medo dele e de sua capacidade de organizar, de liderar o PT e a esquerda

A entrevista de José Dirceu à Monica Bérgamo, publicada na última sexta-feira, 20 de abril, já é um documento histórico. Trata-se, provavelmente, do último pronunciamento público do dirigente petista antes de voltar a ser encarcerado em Curitiba e começar a cumprir uma pena extravagante de quase 31 anos, maior do que a atribuída a muitos homicidas.

Constatação preliminar: o ódio insano que a mídia golpista, as elites, o sistema judiciário e as classes médias neofascistas dedicam ao Zé Dirceu diz muito sobre seu papel gigantesco como construtor e dirigente do Partido dos Trabalhadores e das forças democrático-populares.

Zé Dirceu não é santo, nem personagem incontroverso, muito menos ícone popular. Não se pretende mito ou modelo de perfeição. Formado e seguidor da melhor tradição comunista (a qual nunca renegou) é quadro dirigente da classe trabalhadora e de sua vanguarda, o Partido. É racional ao extremo, inteligentíssimo, com enorme capacidade organizativa e apurada visão histórica-tático-estratégica.

Na entrevista à Folha, Zé revela algumas de suas principais características: a coragem, a capacidade de análise, a altivez. Avança ao esboçar uma autocrítica. Um dirigente de esquerda, perseguido pelo sistema judiciário e pela mídia nunca poderia ter se tornado consultor de empresas – “ela cria um campo nebuloso entre os meus interesses como consultor e o interesse público”, nas palavras do próprio Dirceu.

Desenha o cenário com precisão. Aponta o caminho para derrotar o golpe: desestabilizar o governo e colocar gente na rua. Sinaliza que a vitória pode não vir em outubro. Derrotar o bloco golpista pode levar dois, quatro ou seis anos. Mas, venceremos. ZD vaticina: “você não desmonta a estrutura de bem-estar social que o país tem sem consequências; as forças políticas e sociais vão ganhando consciência; vão surgindo novas lideranças, novos movimentos; o país vai ter um longo ciclo de lutas.”

O personagem e eu

Conheci o Zé pessoalmente em 1997, quando comecei a trabalhar como assessor político do Diretório Nacional do PT. Na época quase não usávamos e-mail, a internet dava seus primeiros passos no país. Zé Dirceu, como presidente do PT, disparava todos os dias inúmeros ofícios-bilhete para os dirigentes da sede nacional, se imiscuía em todo e qualquer assunto. Exercia o presidencialismo mesmo. E sabia, ou procurava saber, de tudo.

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Nunca foi uma personalidade expansiva, sem ser hermético, descortês ou gratuitamente arrogante. Cultivava manias e obsessões cotidianas – como algum grau de hipocondria. Nunca me esqueço de um episódio: subindo juntos pelo elevador da sede nacional do PT, pergunto como ele está e Zé responde: “Estou bem, mas sinto uma pontada aqui no peito, espero que não seja um infarto”. Exagero nítido – quase um drama!

Eu – que fiz movimento estudantil (secundarista e universitário) do fim dos anos 1980 ao fim dos 1990 tive Zé Dirceu, junto com Vladimir Palmeira, como figura paradigmática, inspiradora. A história do jovem mineiro que veio para São Paulo cursar Direito, virou líder estudantil, ajudou a organizar um Congresso clandestino da UNE, foi preso pela ditadura, exilado em Cuba (onde recebeu rigoroso treinamento militar), voltou clandestino para o Brasil, viu seus companheiros de organização dizimados, fez cirurgia plástica, se tornou outra pessoa e depois se reinventou ao mergulhar com tudo na construção do PT.

No PT, nunca militei no mesmo campo político do Zé. Na esquerda partidária desde 1994, participei do enfrentamento ao “giro de centro-esquerda” capitaneado por Dirceu e Lula. Desde o VIII Encontro do PT, em 1995, quando foi eleito presidente pela primeira vez, José Dirceu operou uma tática e uma política organizativa, que, na prática, rompiam com as resoluções do V Encontro, com o programa democrático-popular e com a estratégia rupturista de construção do socialismo no Brasil.

Entretanto, a política formulada e implementada pelo campo que se forjou majoritário do PT, dirigido por Zé Dirceu e Lula foi vitoriosa – no Partido e na sociedade. Nos permitiu ganhar o governo em 2002 e fazer todas as transformações que fizemos. Mas seus limites nos desarmaram sobremaneira.

O golpe das elites e os retrocessos gigantescos que vivemos não encontraram oposição significativa. Desmoronamo-nos e fomos aplastados – com baixa capacidade de reação. Encontramos um partido hiper-burocratizado e institucionalizado, com movimentos sociais enfraquecidos. Pior: boa parte dos dirigentes e militantes estavam iludidos com a ideia de que vivíamos em uma democracia real e que havia certo compromisso “republicano” na alta burocracia do Estado (delegados a PF, promotores, juízes, STF) e na classes dominantes.

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Zé vai preso de novo. Ficou nos devendo pelo menos alguns fundamentos para um balanço da estratégia e das políticas que ele mesmo protagonizou.

O débito se estende porque faltou também um olhar sobre os erros que cometemos no Governo Federal. A começar por sua própria passagem pela Casa Civil. Zé Dirceu seria o sucessor óbvio de Lula. Mas foi o primeiro grande dirigente a cair. Vanity is my favorite sin, nos ensinou – em monólogo já clássico – o demônio de Al Pacino (Devil´s Advocate, 1997).

Talvez o mineiro José tenha acreditado em alguns momentos que era mais esperto que os velhos oligarcas, que os brazucas donos do dinheiro, que os investidores da bolsa norte-americana e até mesmo que a sempre golpista – a ardilosa-superpoderosa Globo. Só que ele, e Lula, não eram.

Um quadro singular

Como o próprio Zé constata, o respeito e admiração que nutre da grande maioria do PT não são sinônimos nem de concordância com o conjunto de suas posições políticas, muito menos com sua opção por se tornar consultor de empresários.

Ocorre que Zé Dirceu tem lado. Tem coragem, tem compromisso com a esquerda, com um projeto popular para o Brasil. Diferentemente de um trânsfuga como Pallocci, típico social-climber, sujeito inteligente e oportunista: um cara do lado de lá infiltrado (e também instrumentalizado e útil em alguns momentos) no e pelo PT – José Dirceu nunca enriqueceu, mudou de lado ou fez política para se tornar rico (a despeito do pragmatismo cru ou da forma no mínimo descuidada com que lidou com a burguesia e com o dinheiro dela).

Não condenaram José Dirceu a esses anos imensos de prisão porque ele teria recebido propinas ou feito imensos esquemas para receber milhões. Nada disso. Condenaram Zé porque ele representa a nós, ao PT. Um PT vitorioso. E porque não pede desculpas, não se dobra, fica sempre do mesmo lado, não trai e não trairá. Zé não delata e não tergiversa. E que não lhe peçam genuflexões.

O querido José Genoíno (um homem inquebrantável, incorruptível), por exemplo, nutriu e propagou por anos ilusões acerca da mídia e das elites brasileiras – acreditava em pactos robustos e no caráter democrático dos inimigos. Converteu-se ideológica, teórica e politicamente ao liberalismo democrático e a um vago social-liberalismo. Achava, à la Habermas, que a Folha de São Paulo, por exemplo, seria parte de uma esfera pública dotada de racionalidade comunicativa.

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Dirceu, ao contrário, sempre foi pragmático na sua relação com o andar de cima. E nunca abandonou os pressupostos marxistas ao formular análises e políticas. Defendia explicitamente um bloco democrático-popular-empresarial, um programa nacional-desenvolvimentista em aliança não só com a pequena e média burguesia, mas com setores não rentistas do grande empresariado. Cultivava, contudo, relações muito práticas e objetivas com esses mesmos setores. Nunca se candidatou a queridinho da mídia (como Genoíno) ou a petista préféré dos bancos (como Pallocci).

Com nostalgia, lembro-me das reuniões do Diretório Nacional do PT quando o Zé era presidente. Chegava antes de quase todo mundo, se sentava à mesa com a folhinha da pauta e instigava o início dos trabalhos. Aos poucos, as e os dirigentes iam chegando, atrasados, conversando, meio displicentes. Logo Dirceu disparava: “se estivéssemos na ditadura, vocês cairiam todos, não chegam na hora nem têm um mínimo de disciplina”.

José Dirceu teria sido preso se não tivesse cometidos tantos erros nos últimos anos?

Sim, teria. Prender o Zé sempre foi parte fundamental do plano golpista para destruir o PT. Porque Zé Dirceu é o único líder partidário (além de Lula) ouvido e respeitado por todas e todos. Nos grupos, correntes, tendências, entre dirigentes, à esquerda ou à direita do espectro petista, Zé era (e é) reconhecido e respeitado. Uma referência maior: interlocutor, formulador, operador, organizador.

José Dirceu volta ao cárcere da Lava-Jato. É preso político. Está encarcerado por ser líder e construtor de um projeto de esquerda para o Brasil. Ao prendê-lo novamente, o golpe presta uma homenagem ao Zé. Confessa que tem medo dele e de sua capacidade de organizar, de liderar o PT e a esquerda.

Querem que ele morra na prisão.

Não deixaremos.

O golpe será derrotado, mais cedo ou mais tarde. Logo, logo tiraremos Lula e o Zé da prisão. Porque Moro é só um cisco – mero lacaio do imperialismo e das grandes corporações.