À Beira da Palavra

26 de outubro de 2015, 09h48

O ENEM – Sobre a macheza, Simone de Beauvoir e questões negras

“Domingo à noite, abandonávamos as amarras elegantes do ceticismo e nos esbaldávamos com a esplêndida animalidade dos negros da Rua Blomet!”

(Simone de Beauvoir, no deslumbramento dos anos 40 – Publicado em “A Força da Idade”, em 1960)

Grandeza o tema da redação do Enem. Questionando o miolo da covardia que predomina, as suas contradições e rumos espinhosos. Educação ensinando convívio supera a anestesia do controle remoto e o amém na hipnose das multidões.

Vasta fortaleza as frases de Gloria Evangelina Anzadúa na prova de inglês, domingo, e os versos pan-africanos de Agostinho Neto no sábado.

Ao tema da redação um brinde, um alívio, uma esperança diante do dia a dia de fuleiragem orquestrado pelo machismo que escalpela em todo canto, do Congresso Nacional aos becos, referendando assédio e estupro, mãos masculinas ditando leis e fivelas para as mulheres.

Trincam os machos das igrejas, dos banheiros, do vagão de trem e dos tribunais, mas imagino também a hipocrisia tirando nota alta, valentões desenrolando parágrafos e escrevendo o que desacreditam só pra passar na prova. (Ou será apenas por ‘falta de consciência” que se aperta o gatilho ou se comete assédio sexual?)

Veja também:  Quem tem medo de Marielle Franco?

Mas… sobre Beauvoir, da prova de sábado:

Considerando-se sua frase clássica e fundamental, a que não se nasce e sim torna-se mulher, e não esquecendo suas contribuições e instigas, pelo prisma de Madame Beauvoir @s pret@s da “animalidade” sequer tinham nascido gente?

Ah, imagino as grandes que já se foram mas ajardinaram nossa horta regada a sangue… as reflexões de Thereza Santos, Lélia Gonzaléz, Beatriz Nascimento, Sarah Rute Barbosa e Azoilda Trindade nos currículos e movimentos escolares, os cultivados nos temas e jeitos da educação popular.

Hora virá.

Enquanto ainda rola esta furada de prova-teste pra vestibular… pena que é isso, que é prova. Funil farpado de acesso. Mas isso é treta de estrutura. Não se deixa de comemorar golaços porque há marquetagem e politicagem nas patranhas do futebol.


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