Notas sobre vidas e mortes – Por Pati Cornils

Como transformar expressões de indignação em possibilidades de outro futuro.

Em dezembro do ano passado comecei a reunir notas diárias em um caderninho, para depois conseguir lembrar dos dias terríveis que vivemos. Em 17 de dezembro, anotei: “Mil mortes hoje. Só não foi ontem porque não chegaram os números de SP”. A perspectiva de voltar ao patamar de mil mortes diárias, então, era terrível. Sim, a maior parte de minhas notas são tristes. Nem todas.

Meu primeiro texto para Alarido vai em tom pessoal, por dois motivos: há mais de um ano procuro maneiras de transformar nossas expressões individuais de tristeza e luto em algo deliberadamente coletivo. Não o coletivo mediado pelas redes em que tentamos nos comunicar, aquele que se transforma em político. É muito difícil organizar o luto, porque o respeito pelos que morrem – e pelos que ficam – está no mundo da dor e da necessidade de silêncio. Essas mortes, no entanto, não podem ser caladas. Passei meses me havendo com isso. Dia 1° de abril, para dizer #DitaduraNuncaMais, alguém publicou um poema na rede:

Nossos ofícios sobre a terra são muitos. Viver e lutar pela vida é um deles. Por uma vida que valha a pena ser vivida – emendam minhas companheiras da Marcha Mundial das Mulheres, e ampliam o sentido da vida. As notas que vou fazer no blog são como as de meu caderno. Vão falar do genocídio, das mortes. Vão apontar a cara dos responsáveis. Vão falar de uma vida que milhões de pessoas, em movimentos coletivos, queremos tornar possível.

Em Matadouro 5, Kurt Vonnegut escreve sobre os silêncios opressivos que acontecem depois de massacres. Tudo se cala e se ouvem somente passarinhos. O que dizem os passarinhos? Piu, piu, piu… Então, o segundo motivo: o que vou registrar aqui é, como as mil mortes por dia de dezembro e as 3 mil de março de 2021, uma forma de observar, na mídia e nas redes, onde estão as expressões do massacre. E onde estão as notícias da vida. Uma versão brasileira para o motivo dos pássaros é esta: “tem gente que pira e berra. Eu já canto, pio e silvo. Se fosse minha essa rua, o pé de ipê estava vivo” (“Canto em Qualquer Lugar”, letra de Itamar Assumpção e Ná Ozetti).

**Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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Patrícia Cornils

jornalista e ativista da comunicação

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