Ativismo de Sofá

por Flávia Simas, Kel Campos e Thaís Campolina  

26 de outubro de 2017, 17h15

A cilada da instrumentalização das mulheres na política

Por Francine Malessa, colaboradora especial

As mulheres têm protagonizado as propagandas partidárias veiculadas no horário nobre da rede de televisão brasileira. Quer dizer, não são tão protagonistas assim. A maioria delas é apresentada por um líder masculino, que exalta as suas qualidades e incentiva a participação feminina em um cenário que agora precisa delas para dar um ar de seriedade e limpar a sujeira que os homens fizeram (resumindo algumas falas).

Estes programas têm tantos erros que se formos descrever um por um, poderíamos fazer uma lista imensa. No entanto, o que mais incomoda a quem acompanha a história política e a inserção feminina é o fato de declararem que precisam delas. Por que só agora? A mulher só serve quando os homens com o seu modelo masculino de governar já conseguiram sujar tudo e agora precisam de um “fato novo” para poder continuar sobrevivendo na vida política?

O sufrágio feminino marcou a primeira onda do movimento de mulheres, entre o século XIX e XX. Influenciadas pela luta de outras mulheres, as brasileiras também reivindicaram o seu direito. Se pegarmos como símbolo a peça “O voto feminino” de Josefina Álvares, encenada no Teatro do Recreio, no Rio de Janeiro em 1878, até o decreto de 24 de fevereiro de 1932, pouco menos de um século foi o tempo que levou para as brasileiras terem seu direito reconhecido pelo Código Eleitoral, o que se consolidou, de fato em 1946.

O resgate histórico é necessário, pois, até 85 anos atrás, as mulheres não eram nem reconhecidas como cidadãs perante a sociedade. Vejam bem, não faz nem um século que as brasileiras são vistas (e será que são?) com os mesmos direitos dos homens de exercer seu papel político.

A inserção no cenário político, como representantes da população então, foi sempre trilhado em segundo plano, isso quando não eram (e ainda são) utilizadas como laranjas para cumprir a cota. Nem mesmo elegendo a primeira presidenta da história brasileira, este cenário conseguiu mudar. Inclusive, não se podem negar os sentidos machistas e misóginos que circularam durante o período do golpe em 2016.

Por falar em golpe, as mulheres também foram utilizadas pelo lado mais conservador do cenário político, para mobilizar as marchas pela família que sustentaram o golpe de 1964. E é este tom que se vê repetido nestes programas partidários atualmente. Deturpando a luta feminista, muitas siglas têm colocado as mulheres para garantir os “direitos femininos” de forma a fazer retroceder ou dificultar ainda mais certos debates, principalmente com relação aos direitos sexuais e reprodutivos.

 É claro que a democracia abre espaço para todos os olhares e opiniões, antes que me acusem de querer instaurar uma “ditadura feminista”. No entanto, a forma como estão se apropriando de uma luta histórica que se mostra cada vez mais necessária, principalmente em tempos de intolerância e extremismos, coloca em risco tudo que já foi possível construir até agora e o que poderia ser alcançado.

Ainda sob a perspectiva democrática, sabe-se também que nenhuma mulher é obrigada a ser feminista, assim como não é obrigada a nada! Portanto, mesmo não concordando com as visões contrárias às minhas e às correntes às quais me filio, defendo uma ampla participação das mulheres na política brasileira. O que me preocupa é que enquanto os conversadores utilizam esta bandeira, a oposição segue calada neste debate, insistindo em erros e impossibilitando o empoderamento de suas líderes.


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