Blog da Cidinha

CIDINHA DA SILVA é prosadora e dramaturga. Tem nove livros de literatura publicados. No campo da dramaturgia escreveu Engravidei, pari cavalos e aprendi a voar sem asas (encenada por Os Crespos, 2013 a 2015) e Os coloridos (espetáculo infantil encenado por Os Crespos em 2015 e 2016). Como ensaísta organizou:Africanidades e relações raciais: insumos para políticas públicas na área do livro, leitura, literatura e bibliotecas no Brasil (FCP, 2014). Anteriormente foi organizadora de Ações afirmativas em educação: experiências brasileiras (Summus, 2003), um dos 10 primeiros livros sobre o tema publicados no Brasil.

05 de junho de 2017, 17h05

Sturm e Richthofen

As personagens dessa crônica são Sturm (André), ainda secretário da cultura da gestão Doria, em São Paulo, e Richthofen (Andreas), um jovem doutorado em Química, surtado sob efeito do crack. Homens cuja ascendência européia pode ser notada pela sonoridade consonantal dos sobrenomes.

Em comum o fato de serem dois homens brancos na cidade de São Paulo que gozam das benesses da branquitude. O primeiro, Sturm, para agredir, humilhar e manter-se impune no exercício de cargo público. O outro, Richtofen, beneficiário do direito de existir, explicar-se numa situação suspeita, manter-se vivo e livre, com direito à comoção humana que todos os seres humanos em situação de fragilidade e desequilíbrio deveriam merecer.

Sturm é acusado por ativistas culturais de práticas coronelistas, tais como: interferência nos resultados finais do Programa de Valorização de Iniciativas Culturais (Vai); no carnaval da cidade e na revogação e alteração do edital de Fomento à Dança, que já tinha os projetos pré-selecionados. O secretário também é responsável pelo congelamento de 47% da verba municipal da cultura para 2017 e pelo desmonte de políticas culturais construídas ao longo da última década.

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Há poucos dias, durante reunião com ativistas culturais da região de Ermelino Matarazzo, zona leste de São Paulo, confrontado por um deles, o jovem negro Gustavo Soares, que reivindicava não trabalhar de graça para a prefeitura na gestão de um equipamento cultural, foi chamado de babaca e chato por Sturm. Descontente e alterado diante da argumentação continuada do jovem, ameaçou quebrar-lhe a cara. Gustavo Soares perguntou então se o secretário o estava constrangindo e chamou-o para concretizar a ameaça. Sturm, no melhor estilo Telequete, disse então que não o faria para não sujar as mãos.

O prefeito Doria, como esperado, minimizou o fato, chamou-o de bobagem. Os movimentos culturais periféricos da cidade trataram de pressionar pela queda de Sturm, por serem inaceitáveis suas práticas coronelistas. Procuraram o prefeito com abaixo-assinado de seis mil assinaturas, ocuparam a secretaria de cultura, foram alvo de nota mentirosa da secretaria acusando-os de agressividade na ocupação, intimidação de funcionários e tentativa de invasão do gabinete do secretário. Tudo desmentido em vídeo pelo secretário de relações governamentais, Julio Semeghini, designado pelo prefeito para mediar o conflito. Este, aliás, parece ter sido posto ali para atender às reivindicações dos ativistas, menos a deposição de Sturm. Afinal, se alcançado o intento, a turma pode achar que tem força e isso não será bom para o prefeito e sua gestão que apaga obras de arte dos muros e as substitui por corações vermelhos, feitos por ele mesmo.

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A mensagem final é a seguinte: qualquer conjunto probatório que supere as convicções dos acusadores não faz sentido a depender do acusado, de seu sobrenome, de seu pertencimento racial, do lugar político ocupado e à gestão de quem se filie. Em outras gestões, uma nota mentirosa, assinada por uma secretaria e desmascarada por outra, seria o suficiente para a queda de Sturm.

Não foi. Mas, imagine se por um motivo qualquer, em situação pública, com testemunhas e gravação veiculada na internet à larga, o descontrolado Sturm, gestor público, tivesse ameaçado quebrar a cara de um dos cineastas signatários da carta do SIAESP – Sindicato da Indústria do Audiovisual de São Paulo que o apóia? Imagine que Sturm, em surto, intimidasse Cao Hamburger, Cacá Diegues ou Fernando Meirelles com um possível soco?

Caía, mano. Caía no dia seguinte. Não seria mais secretário. Mas, a ameaça foi feita a um pobre coitado, na opinião dessa gestão, e com esses, contra esses, está tudo liberado.

Andreas Richthofen, por sua vez, teve a vida destruída por uma tragédia familiar. A irmã mais velha arquitetou a morte dos pais de ambos e coordenou a execução dos assassinatos. Andreas teve a vida destruída, compreensivelmente. Não se sabe o que viveu, mas havia refeito a vida, era considerado um estudante competente de uma das melhores universidades da América Latina, a Universidade de São Paulo. Graduou-se, doutorou-se.

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Foi encontrado em delírio, ferido, semi-desmaiado na porta de uma casa, cujo muro havia escalado. Por sorte, é branco, “não tem cara de bandido”, como disse o dono da casa invadida, que o socorreu e chamou a polícia, que, por sua vez, tratou o moço como gente.

Que maravilha. Um rapaz de sorte. Sorte por não ser um dos inúmeros pretos em delírio causado pelo crack ou pela lucidez de serem o que são e de saber como são tratados e de, por isso, serem mortos como ratos.


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