Blog do George Marques

direto do Congresso Nacional

30 de março de 2019, 08h22

Falta de diálogo e criminalização da política: os motivos para crises na gestão Bolsonaro

Especialista cita falta de diálogo, problemas na comunicação e falta de habilidade política da equipe de Jair Bolsonaro (PSL) nesses três primeiros meses, o que têm levado governo a crises contínuas

Bolsonaro e Ernesto Araújo (Foto: Isac Nóbrega/PR)

Na Ciência Política, os cem primeiros dias são considerados a lua de mel de qualquer novo presidente da República em que ele enamora a opinião pública e setores do mercado simpáticos à nova gestão. Porém, esta semana para o governo de Jair Bolsonaro pode ser considerada uma das mais críticas, após repercutir mal na sociedade a tentativa do presidente de comemorar o golpe de 1964, além de atritos com o chefe de outro poder, o presidente da Câmara Rodrigo Maia.

“Se isso sobre os cem dias for verdade a lua de mel de Bolsonaro está acabando, e ele não começou a mostrar a que veio.” A avaliação é do cientista político Leonel Cupertino, que atua como analista legislativo junto ao Congresso Nacional.

Para o especialista há atores lucrando com a crise política atual. Ele observa que a escolha de um deputado do PSL para relatoria da reforma da Previdência mostra isolamento político do Planalto, que não conseguiu até o momento dialogar com outras forças políticas do Congresso.

Blog do George: o que achou da escolha de Marcelo Freitas como relator da Previdência?

Leonel Cupertino: o fato do relator ser do PSL é um sinal de pouco diálogo. No parlamento outros partidos têm afinidade ideológica com o presidente, PRB, DEM e PSC, partidos em que o presidente é muito bem visto. Porque não dialogar com esses partidos para montar uma base parlamentar?

O presidente ainda não tem base aliada.

Há uma diferença entre base para aliados. Aliados é o que o presidente tem, uma massa heterogênea que se aliam em certas matérias, sobretudo nos costumes. Uma base política é aquela que um grupo de políticos se reúne para aprovar propostas. Então Bolsonaro não possui necessariamente uma base, mas está construindo de uma forma mais lenta que os últimos governos.

Como avalia a criminalização da política?

Não é de hoje que esse processo existe no Brasil. Em 30 anos de democracia assistimos à queda de dois presidentes através de um processo traumático de impeachment, que deixa sequelas no longo prazo, (Collor e Dilma). Criou-se essa ideia de criminalização da política, de que todos os políticos são corruptos. Essa é uma visão totalmente equivocada. Quando nós falamos em articulação política nós falamos sobretudo em diálogo.

Quem sai ganhando com a criminalização da política?

Aqueles que não são tão afeitos ao jogo democrático do diálogo, do respeito às instituições e ferramentas da democracia. Estamos assistindo no Brasil e no mundo à ascensão de líderes autoritários que centralizam o poder em si e que de maneira lenta e gradual aparelham o sistema político com ideologias.

O que tem achado da “cara” do novo parlamento?

O parlamento é a espinha dorsal da democracia. É lá onde a pluralidade de ideias da sociedade brasileira tem assento e representatividade. Ou seja, ainda que o Poder Executivo tenha elaborado uma proposta que do sentido fiscal atenda à necessidade do governo, talvez o parlamento não concorde com isso.

Numa república como a nossa, a presidência da República é um poder forte e o parlamento tem protagonismo no processo político. Então no que consiste a articulação política? Justamente esses dois poderes importantes e fortes dialogando e entrando em um consenso quanto a projetos e políticas públicas.

A experiência de Bolsonaro no Congresso conta alguma coisa?

Embora Bolsonaro tenha uma experiência de parlamento grande, o seu partido, o PSL não era estruturado, não tinha representatividade até 2018. Faço um paralelo do PSL de 2018 com o PRN de Collor de 1989, ambos eram partidos muito pequenos que tiveram um acréscimo eleitoral grande que levou a conquistar muitas cadeiras no já diversificado Congresso.

Nesses três meses..?

O partido do presidente, o PSL, é formado por pessoas novas na política que não conhecem direito as ferramentas do parlamento brasileiro e das relações que têm que existir entre o legislativo e o executivo. Tudo isso nos leva a crer que há uma certa bateção de cabeça porque as pessoas não sabem muito bem o que fazer.


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