Blog do Mouzar

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16 de março de 2018, 20h30

Candidatos ao sacrifício: será o Benedito?

Em novo artigo, Mouzar Benetido explica a origem da expressão "mas será o Benedito?". Leia

Benedito… Está aí um nome que quase ninguém mais põe em filhos. E muitos dos Beneditos que restam usam o apelido Benê, abandonaram o tradicional apelido Dito. Dito é apelido de roceiro, caipira. Na cidade, Benedito é, quase sempre, Benê.

Outros nomes sofreram a mesma adaptação aos tempos modernos, principalmente nas cidades, onde não aceitam bem os apelidos antigos, caipiras, para seus nomes. Vejo Francisco se autodenominar Fran, em vez de Chico; José virar Jô em vez do tradicional Zé…

E tem casos de rejeição do próprio nome, como muitos Beneditos que se autodenominam Benê. É o caso de Sebastião. Apesar de ser nome do padroeiro do Rio de Janeiro, virou nome em extinção. Sebastião “urbano”, entre os que restam, não é mais Tião nem Tiãozinho, é Sabá ou Sibá.

Volto ao Benedito.

Quando comecei a assinar matérias em jornais, editores costumavam sugerir que eu assinasse Mouzar Silva, apesar de Silva também não ser um nome de grife. Mas era preferível a Benedito, nome de caipiras pobres e pretos, vítima de preconceito.

Insisti no Benedito e assino assim até hoje. E digo sempre que não sou religioso, mas juro “de pés juntos” que acredito muito em um santo, justamente o Benedito.

É que São Benedito, de origem africana, era cozinheiro. Por isso é considerado protetor contra a fome.

Meus pais sempre tiveram um acordo tácito: o pai escolhia um nome, e a mãe escolhia como complemento o nome de um santo para ser o protetor do filho.

Os dez filhos têm nome composto, sempre com um santo protetor. No meu caso, Benedito foi escolhido para que eu nunca passasse fome, segundo minha mãe. E brinco: deu certo. Vivi momentos de muita pindaíba, mas nunca passei fome.

Por que estou falando disso?

É que vendo o bando de candidatos a governador me lembrei de uma história que tem a ver.

Antes de entrar nela, pergunto aos ouvintes: todo mundo diz que os estados estão numa situação de penúria que não tem jeito. O governador que assumir no futuro só vai ter dificuldades, será xingado por atrasar salários dos servidores, por não resolver problemas nas áreas de saúde, educação, segurança, moradia e em nenhuma outra…

Então, por que essa vontade louca de ser governador? Tem coisa mal explicada aí.

Mas entremos na história que quero contar.

Depois da Revolução de 1930, Getúlio Vargas ocupou a presidência na marra e acabou com eleições para governador. Foi destituindo governadores eleitos e nomeando interventores em seus lugares.

Só preservou Minas Gerais, governada por Olegário Maciel, aliado de Antônio Carlos de Andrada, que governou até 1930, e que teve função importante na Revolução. Getúlio deixou Maciel no cargo para não contrariar o aliado mineiro. O mandato de Olegário Maciel poderia ir até o fim, mas ele morreu em setembro de 1933. E aí, quem viria em seu lugar?

Não haveria eleição. Getúlio escolheria um interventor para ser seu substituto.

Havia alguns pretendentes ao cargo muito influentes. Os principais eram José Maria Alkmin, um político capaz e cheio de manhas, e Gustavo Capanema, um intelectual muito respeitado.

Uns dias antes da data prevista para o anúncio do interventor em Minas, os candidatos foram para o Rio de Janeiro, que era a capital do Brasil, levando um monte de adeptos para fazer lá o que hoje chamam de lobby.

Iriam tentar influenciar pessoas próximas a Getúlio Vargas.

Muitos desocupados de Belo Horizonte aproveitaram a chance de viajar para o Rio, como adeptos de uma dessas candidaturas.

Um dentista, boêmio manjado na capital mineira, foi um desses. Não pretendia fazer lobby para ninguém, só ia passear mesmo, conhecer a vida boêmia da Cidade Maravilhosa. O nome dele era Benedito Valadares. Fez um monte de amizades por lá, até mesmo com Getúlio.

Todo mundo contava que o interventor escolhido seria José Maria Alkmin ou Gustavo Capanema, e em Belo Horizonte havia torcidas ansiosas, esperando o anúncio, que Getúlio faria pela Rádio Nacional.

No dia e hora marcados, Belo Horizonte estava quase parada, com muita gente grudada no rádio, sintonizado na Rádio Nacional.

Mas naquela época, com mal tempo, o rádio tinha uma chiação danada. Picotava a transmissão. Chamavam de “estática” esses ruídos.

Assim, a fala do locutor chegava aos ouvintes de Belo Horizonte intercalada por chiados.

E chegou o grande momento, de que faço uma reprodução mais ou menos imaginando como foi…

Agora o ssshhhhh Vargas, vai anunciar ssshhhh interventor sssshhhh Gerais.

Alkmin! — apostava um.

Capanema! — apostava outro.

E entrou a voz de Getúlio:

O interventor ssshhhh Gerais sssshhhh Valadares.

Muitos ouvintes ficaram pasmos. Nem Alkmin nem Capanema, mas Valadares? Que Valadares? O boêmio manjado? E falavam abismados:

Valadares?…. Será o Benedito?

Era o Benedito. E assim nasceu exclamação “será o Benedito?”, para mostrar desagrado. Acredito que talvez nenhum dos próximos governadores eleitos em qualquer dos estados se chamará Benedito, mas a maioria merecerá o desabafo: “Será o Benedito?”.


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