A unidade da esquerda e a pré-candidatura de Haddad

Não é inteligente da parte do PT desprezar as críticas que foram feitas pelo PCdoB e o PSOL em relação ao lançamento de Haddad

O anúncio feito por Fernando Haddad de “colocar o bloco na rua” após conversa com o ex-presidente Lula agitou os setores progressistas nos últimos dias.

De um lado, alguns petistas reclamaram que essa antecipação transforma Haddad em plano A e Lula em plano B. E que, fazendo este movimento, o PT estaria abandonando a luta pelos direitos políticos de Lula, que deveria ser a estratégica central do partido nos próximos tempos.

Por outro lado, aliados do PT como PSOL e PCdoB consideraram que essa antecipação do nome de Haddad impede o debate mais amplo de um projeto para o país. Interdita pontes para a construção de uma frente de esquerda e centro-esquerda que deveria privilegiar um programa antes de começar a discutir nomes. Boulos e Flávio Dino, por exemplo, fizeram críticas neste sentido.

Mas será que esse movimento de Haddad é tão arriscado assim para a construção de uma frente ou mesmo para permitir que Lula volte a ter seus direitos políticos e possa ele disputar a presidência?

Não necessariamente.

Em primeiro lugar, o fato de Haddad passar a percorrer o país não influencia em nada a luta pela volta de direitos de Lula. Pelo contrário, pode até ajudar nas mobilizações neste sentido.

O fato concreto é que o PT não tem capacidade de influenciar nessa decisão dos direitos políticos de Lula. Não conseguiu realizar grandes manifestações ou movimentos quando Lula estava preso, não será agora que fará algo que mude a visão dos ministros do STF. E, ao que tudo indica, farão com Lula o que foi feito com Evo Morales na Bolívia e Rafael Correia no Equador.

Em relação à crítica que o PCdoB e o PSOL fazem há mais consistência. De fato, quando um partido como o PT, que mesmo enfraquecido ainda mantém a hegemonia na esquerda, coloca seu nome na mesa para a disputa, cria-se uma grande dificuldade para se construir um projeto mais coletivo.

O PT e Haddad terão de ser habilidosos para lidar com isso, porque não se pode pensar numa estratégia exclusivista.

O correto é que a partir de agora os partidos de esquerda criem uma mesa para debater ações de oposição pela esquerda ao governo Bolsonaro e que além dos presidentes dos partidos, estejam presentes Haddad, Dino, Boulos, Ciro e mesmo Marina Silva pela Rede.

Essa mesa teria por objetivo ir costurando ações pontuais com essas lideranças, que estariam juntas no mesmo palanque nesses momentos e ao mesmo tempo cada uma delas iria fazendo seus movimentos com vistas a 2022.

Isso já aconteceu em outros momentos do país, como quando FHC era presidente da República. E foi uma iniciativa bem sucedida. Deveria acontecer de novo. E poderia se tornar a chave para a construção de uma frente mais ampla para derrotar Bolsonaro.

A construção de uma frente de esquerda e centro-esquerda é de fato muito importante para garantir a este campo uma vaga no 2º turno da eleição presidencial.

Não é inteligente da parte do PT desprezar as críticas que foram feitas pelo PCdoB e o PSOL em relação ao lançamento de Haddad. Por outro lado, será que o maior partido da oposição não tem o direito e o dever de mexer suas peças no tabuleiro da sucessão com vistas a construir uma alternativa eleitoral ?

Haddad foi para a chuva. Ele pode estar mais forte daqui a um ano, quando de fato o jogo de 2022 estará quente ou pode vir a topar com umas pedras pelo caminho.

Dino e Boulos também deveria ser mais assertivos com suas pré-candidaturas, como Ciro já vem sendo.

E aí, depois desses primeiros movimentos iniciais, todos deveriam ter o desprendimento pra entender qual é o melhor caminho para o país. Mas isso lá na frente, daqui a aproximadamente 1 ano.

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Renato Rovai

Jornalista, mestre em Comunicação pela ECA/USP e doutor pela UFABC. Mantém o Blog do Rovai. É editor da Fórum.

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