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17 de março de 2020, 19h38

O Ensaio sobre a Cegueira, o Coronavírus e nós

Mas fico imaginando aqui, essa garotada que está crescendo em meio a esta pandemia. Eles serão a Geração Coronavírus. A vida deles será impactada pelas perdas e restrições deste período, mas não só....

(Foto: Divulgação)

Um dos livros mais impactantes do escritor José Saramago é O Ensaio sobre a Cegueira. É uma obra doída, que nos maltrata a cada página e que ao mesmo tempo se faz ler numa velocidade alucinante. Foi escrito em 1995 e parece ter sido fundamental para que o autor levasse o Nobel de Literatura em 1998.

Saramago constrói uma narrativa para discutir o mundo vivido no final do século XX a partir de uma doença que cega as pessoas. Começa com o Primeiro Cego (os personagens são identificados assim, pelo seu lugar na história) que está com o carro parado no semáforo e de repente não consegue mais enxergar porque uma nuvem branca lhe cobre a visão.

Este Primeiro Cego procura um oftalmologista, que no livro terá o nome de O Doutor. Ele não entende o que se passa, porque os olhos do Primeiro Cego estão saudáveis. E aí começa o livro e as reflexões que me parecem necessárias neste momento.

O Doutor diz ao Primeiro Cego: “Penso que não cegamos, penso que estamos cegos, Cegos que vêem, Cegos que, vendo, não vêem.”

Sim, O Ensaio sobre a Cegueira é um livro para se ler neste momento de reclusão e confinamento do Coronavírus. Mas não para pensar sobre como uma doença que se espalha sem controle pode mudar nossa vida, mas como nossa vida talvez estivesse completamente equivocada antes que essa doença chegasse.

O mundo que está parando em função do Coronavírus não é aquele que garante às pessoas alegria, felicidade, condições básicas de saúde, educação, um bom lugar para morar. O mundo que está parando é aquele que enxergamos como único e que se movimenta pura e simplesmente na lógica do lucro.

Como cegos, mesmo vendo, não percebíamos que ele poderia parar. Mas cumprindo a profecia de Raul Seixas a terra vai parando aos poucos. Os hospitais vão ficando cheios e os shoppings completamente vazios. As avenidas das grandes cidades não têm mais congestionamentos, algo que sempre foi tratado como inevitável. As empresas estão funcionando num ritmo diferente e sem amontar empregados em espaços fechados e inóspitos.

Em poucos dias, tudo que era tabu no mundo está mudando como se sempre pudesse ter sido assim.

Não é provável que o Coronavírus nos leve a ser mais solidários e fraternais. Não foi assim em O Ensaio sobre a Cegueira de Saramago (não vou dar spoiler). Até porque vai faltar comida, água, leitos hospitalares e até esperança para muitos. E quando falta algo, as pessoas em geral não se juntam pra resolver o problema. Mas tomam o que podem pra se garantir.

Mas fico imaginando aqui, essa garotada que está crescendo em meio a esta pandemia. Eles serão a Geração Coronavírus. A vida deles será impactada pelas perdas e restrições deste período que tem tudo para durar bem mais do que as autoridades estão divulgando por agora.

Elas vão ver um mundo diferente, um jeito de fazer as coisas que não estavam formuladas, uma forma de viver que parecia impossível.

Será que isso não vai construir novos caminhos na política e na dimensão social desta geração? Será que não teremos um novo ativismo e uma nova reflexão do uso do ambiente? Não é possível que apenas o egoísmo prevaleça. Há muitas coisas em jogo nesses dias em que passeamos pelo ano 20 do século 21 que começa com 20.

Estamos apenas no começo. Mas já dá pra tirar uns dias para ler O Ensaio sobre a Cegueira e com a ajuda de Saramago buscar entender nosso lugar nesta sociedade. E também neste momento histórico.


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