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12 de abril de 2014, 20h40

Aterro de Jardim Gramacho: sobras e restos me interessam

Tive uma visão. Experiência distante das transcendências. Nada a ver com sensações místicas. Algo me tocou fundo como se eu tivesse voltado no tempo.
O Brasil nasceu de ressaca. Libertos da colonização portuguesa, nativos e povos africanos segregados aqui receberam a “liberdade” a seco. Sem pedidos de perdão. Sequer houve o processo de ressarcimento pelos danos. Desterro da África. Com a abolição da escravidão na nossa “pátria mãe gentil” parecia que o favor das elites estava no seu nível máximo.
A triste nota é que oprimidos podem construir suas identidades a partir dos opressores. Dores de parto. Traumas uterinos. Pátria mãe que a contragosto suporta seus filhos e filhas bastardos.
Sábado eu conheci Jardim Gramacho. Não vi flores. Cenário cinza. Porcos pastando solenes pelo Jardim. Cães vira-latas desinibidos competiam um restinho de comida na escassa área verde. Voos preguiçosos de urubus esnobes. No lixão quem tem uma asa só é rei.
A vocação do município de Duque de Caxias em nada faz lembrar os latifúndios produtores de monoculturas para o mercado externo. O polo industrial e comercial em questão, suponho, permite considerável arrecadação de ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias) e ISS (Imposto Sobre Serviços).
Portanto, Jardim Gramacho cumpre o tradicional papel de reduto da população excedente sem: educação, saneamento, emprego e os “favores” do Estado. O bairro foi confundido com o lixão. O lixo industrial revela dupla face: ostentação de riqueza e ridicularização do humano.
O aterro sanitário de Jardim Gramacho foi fechado em 3 de junho de 2012. Alforria para os catadores? Segundo o negro Maneco, algo em torno de 30 dos seus 60 anos foram vividos ali. Construiu sua identidade À espera do que lhe poderia oferecer uma nova caçamba de lixo. A carta de libertação dos escravos modernos teve a incrível contrapartida de R$ 14 mil por família.
Parece que melhoramos muito do período colonial para a Nova República. Proibimos o tráfico negreiro e liberamos o tráfico de drogas. Segundo testemunhas, ao que se sabe, ao menos três catadores morreram de overdose, ainda na primeira semana, após receberem o ressarcimento do Estado que os desalojou.
Maneco não conseguiu sair de perto. Funciona como um tipo de empresário de ferro velho. Passa o dia com moedas nas mãos para recompensar os jovens desbravadores que conseguem trazer lixo de algum lugar. Maneco não pesa as sacas e muito menos vasculha a qualidade dos produtos. Rapazes com olhares apagados sequer notam a minha presença. Negões mariados. Tão somente fazem rodar o ciclo: trazem lixo, recebem moedas, compram drogas…
Pretos. Quase todos pretos. Na parte boa do bairro tem jovens com autoestima alta. Pretos. Jovens. Armados. Longe do lixo comercializam drogas. Ruas com barricadas para conter a pressa da polícia.
Déficits sociais crônicos. Escravos libertos tropeçam na alforria. Não nascem flores em Jardim Gramacho. Poeira e pó.
Acho que finalmente entendi que as injustiças originais da nação brasileira deitaram fundas raízes e continuam a produzir muitos frutos. Visão dos infernos!
Afeiçoei-me ao seu Luís. Conversarmos umas duas horas. Na ausência do lixo especializou-se na captura de guaiamuns e caranguejos no mangue de Jardim Gramacho. Negro que artesanalmente desmonta sacas fio a fio para tecer sua “rede de pesca”. Poesia nos desterros. Firmeza meiga zeen.
Acho que finalmente entendi a tentação de transformar pedras em pães. O diabo jogou sujo. Diante da vulnerabilidade de tantos pobres sem voz e vez, a vontade dos misericordiosos é transformar tudo num passe de mágica. Os processos históricos transformadores parecem tão longos quanto lentos. Difícil esperar pelo milagre que transforma pó em pão!
Foto: D’Arcy Norman/Wikimedia Commons


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