Cinegnose

por Wilson Ferreira

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29 de janeiro de 2018, 22h24

Em ano eleitoral Globo aciona a “Máquina de Narciso”

Uma doutora e professora da Pós-graduação em Ciência Política da UFMG no BBB 2018. Enquanto isso, pacientemente repórteres da Globo ensinam telespectadores a gravarem vídeos com celulares para enviar depoimentos que respondam a pergunta: “Que Brasil você quer para o futuro?” em exíguos 15 segundos. São dois lados de um mesmo processo brasileiro detectado nos anos 1980, quando um jovem engraxate da favela da Rocinha respondeu à pergunta “O que você quer ver na TV?”. “EU!”, respondeu o jovem diante de um pesquisador perplexo. Nesse momento, a Globo coloca em funcionamento a chamada “máquina de Narciso”: no momento em que o ano eleitoral aponta para o acirramento da crise social e econômica, anomia e caos, a mínima forma de uma coesão social é através das imagens. O final do projeto midiático de substituir todas as formas políticas de mediação (a representação, o voto, o partido, o sindicato etc.) pelos próprios meios de comunicação – Berlusconi, Trump, Doria Jr. e o aspirante Luciano Huck seriam o aspecto mais visível disso. Sem esperanças na Política e na Economia, restaria a última boia salva-vidas oferecida pela mídia no mar da crise: a do ego mínimo promovido a Narciso.

No livro A Máquina de Narciso, o professor Muniz Sodré da Escola de Comunicação da UFRJ relata a surpresa de uma pesquisadora sobre o que moradores da Favela da Rocinha gostariam de ver na TV, partindo da premissa de que as respostas girariam em torno da preferência ou do conteúdo de programação estrangeira, ou de assuntos da comunidade, seus problemas etc.

Qual não foi a surpresa quando um jovem engraxate respondeu: “Quero ver EU!”. Sodré argumentava  que a TV era muito menos um veículo de comunicação  ou alguma janela aberta para o mundo e muito mais uma máquina desejante, um agenciador do imaginário – enquanto o jornal e o rádio se dirigem à mente, a TV cria uma outra realidade, fecha-se nela mesma onde o indivíduo imerge. 

Imerge numa máquina que estrutura de forma ilusória a subjetividade do espectador. Agora narcísica. A TV não se abre de dentro para fora, mas se fecha de fora para dentro. Tal como uma estrela esmagada pela própria gravidade, até virar um buraco negro.

Essa reposta do jovem engraxate foi nos anos 1980, década que terminaria imersa na hiperinflação, crise social e os primeiros arrastões registrados nas praias da Zona Sul do Rio de Janeiro.

 

“… um ano muito especial!”

A Globo entra em 2018 sabendo que é um ano decisivo para o seu futuro. Um ano eleitoral (e se tiver eleição!.. esse humilde blogueiro acha inacreditável que um golpe político tão milimetricamente planejado – que mobilizou Soft Power, Guerra Híbrida, Bombas Semióticas, Lawfare etc. – permita que eleições democráticas decidam seu futuro…) cujos resultados moldarão os destinos políticos e corporativos da rede de comunicações.

Não é por menos que a emissora exibe na sua programação uma vinheta que revela, como num ato falho: “Vem aí um ano muito especial”.

Depois de, por uma década, detonar bombas semióticas, utilizando-se de recursos linguísticos, retóricos e semiológicos para construir crises políticos e uma pesada atmosfera psíquica nacional (ódio e intolerância das quais a Globo nesse momento tenta se eximir), agora a emissora começa a colocar em funcionamento aquilo que Muniz Sodré chamou na época de “máquina de Narciso”.

Caso hajam eleições, será a pièce de résistance, na qual a Globo oferece-se a si própria como significante (ou “suporte”) do imaginário de uma população em pânico diante da construção midiática do caos: violência, epidemias (febre amarela, zika vírus ou a epidemia da vez), desemprego etc.

Como é recorrente nesses tempos, mais um caso de retrocesso: assim como no episódio do engraxate que desejava se ver na TV num cenário de ausência de saída num horizonte hiperinflacionário, de uma ditadura militar recalcitrante e dos primeiros fenômenos de violência urbana dos arrastões, hoje também experimentamos um crescente estado de anomia social. 

E, mais uma vez, num contexto de crise e ausência de perspectivas no plano individual, eis que a TV volta a explicitar a sua natureza de “máquina de Narciso”.

 

Intelectuais no BBB

O caso da pós-doutora pela Universidad Complutense de Madrid e professora do departamento de pós-graduação em ciência política da UFMG Mara Teles, que comemora nas redes sociais a participação no reality show Big Brother da Globo; e a convocação dos telespectadores para enviar vídeos de celulares respondendo a pergunta “Que Brasil você quer do futuro?” para serem exibidos em telejornais da emissora, são dois flagrantes do início do funcionamento desse maquinário psíquico à serviço da continuação da Guerra Híbrida.

Orgulhosa, a TV Globo ostenta mais uma acadêmica no meio da fauna humana da franquia holandesa do reality show. Sabendo-se que a Globo conta com uma divisão chamada Globo Universidades (área de relacionamento com o meio acadêmico e público jovem, certamente para dirimir a imagem negativa da emissora junto a esse público) é de se imaginar que desde Jean Wyllys (na época, professor universitário), a participação de acadêmicos como personagens no script do Big Brother tenha dois significados:

(a) Como a carreira e as titulações acadêmicas há muito deixaram de ser uma opção filosófica, política ou existencial, para se transformar em mais uma marca de grife, um “capital cultural” para ostentar no mercado de relacionamentos pessoais e profissionais;

(b) E como esse “capital social” ganha a máxima eficiência quando ganha visibilidade midiática. No caso, sob o patrocínio da Globo.

 

Ainda mais quando sabemos que a professora Mara Teles possui, digamos, o physic du role para desempenhar o papel: diz-se “louca por signos” (por “ser de áries” é uma “cientista capaz de se divertir”, confessa), já foi modelo e estudante de teatro na adolescência e, orgulhosa, colocou a seguinte informação no site oficial do programa: “o marido da tia de Mara é primo de segundo grau de Bruna Marquezine”… 

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