sábado, 26 set 2020
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“Bezerra de Menezes” surpreende ao romper com o Ciclo Vicioso do Sagrado e do Religioso na Mídia

“Bezerra de Menezes – Diário de um Espírito” (2008), produção cearense de Glauber Filho e Joe Pimentel, surpreende por ter sido um sucesso de público, mesmo distoando do chamado “padrão Globo Filmes”. Em consequência o filme conseguiu romper com o ciclo vicioso onde, em nome do chamado “grande público”, traduz-se temas do espiritismo e da religiosidade dentro dos clichês do ecumenismo da Auto-ajuda.  

Depois de assistir ao filme “Bezerra de Menezes – Diário de um Espírito” é impossível não ser tentado a fazer uma comparação com o filme “Chico Xavier” (2010). Primeiro vejamos as semelhanças: ambos os filmes tratam o tema Espiritismo e acabaram de tornando sucesso de público. E as semelhanças param por aí.

São dois filmes com o tema Espiritismo, mas com estéticas, condições de produção e, acima de tudo, diferenças brutais no tratamento do tema da religiosidade, sagrado e transcendência.


Para começar, o filme “Bezerra de Menezes” foi muito mal recebido pela crítica. A produção cearense de Glauber Filho e José Pimentel foi criticada por ter um “roteiro tosco”, narrativa “verborrágica”, de possuir uma estética que lembrava “as novelas da TV Bandeirantes nos anos 80”, de não “cativar” ou produzir “identificação” com o espectador e de simplesmente ignorar as recentes técnicas cinematográficas de edição, decupagem e montagem dos últimos 40 anos etc.

Ao contrário, “Chico Xavier” se vale plenamente desse apuro técnico, com uma narrativa “esperta”, clipada, com movimentos de grua, travellings e narrativa de criar suspense e identificação. Como discutimos em postagem anterior, a opção estética por um “padrão Globo de qualidade” (produção, atores e estética) determinou uma abordagem do fenômeno espírita de forma genérica e abstrata para atingir um grande público (fossem espíritas, ateus ou católicos). O resultado foi a redução da religiosidade e do sagrado ao mínimo denominador comum da religiosidade midiática: o ecumenismo pós-moderno, ou seja, uma religiosidade traçada pelo ideário da auto-ajuda e do autoconhecimento, aplicável a qualquer credo ou público.

Muito diferente disso, “Bezerra de Menezes” mantém a dignidade da doutrina espírita. Aborda os temas da reforma íntima e do afinco de Bezerra de Menezes na luta interior pela conversão ao Espiritismo sem despencar nos clichês do otimismo empreendedor da auto-ajuda. Pelo contrário, aborda conceitos mais especializados à doutrina como Lei de Ação e Reação, Animismo, concepção teológica do Kardecismo etc., particularizando a religiosidade Espírita, evitando cair no ecumenismo pós-moderno e generalizante de “Chico Xavier”. E, apesar dessa particularização, marcando as diferenças teológicas e doutrinárias do Espiritismo diante de outras formas de religiosidade, mesmo assim o filme foi um sucesso de público (Sim, há salvação fora do “padrão Globo de qualidade”!).

Quanto a elaboração dos protagonistas, as diferença também são gritantes: em “Bezerra de Menezes” a conversão do protagonista é mostrada na dor, indecisão, desgaste e, muitas vezes, perplexidade das reações das pessoas ao seu redor diante das declarações sobre a sua nova fé. Ao contrário, em “Chico Xavier” o protagonista é construído de maneira formal, isto é, como que dotado de um otimismo empreendedor. Desde criança aceita a missão espiritual, sem dor, perplexidade ou indecisão. Parece imbuído daquele espírito (desculpe o trocadilho) otimista preconizado pelos gurus da auto-ajuda. Parece, desde sempre, aerodinamizado para o sucesso.

Realismo Espiritual

Discutíamos em postagem anterior a existência, dentro do campo do filme religioso , de dois tipos de enfoques fílmico: o “realismo espiritual” e o “formalismo espiritual”. No primeiro, a experiência religiosa é elaborada por meio de um viés realista que imprime banalidade e sensualidade bruta aos objetos e rotinas para revelar, através deles, inesperadas experiências de transcendência.

O segundo enfoque se inspira na possibilidade da exploração das potencialidades formais do cinema tais como a abstração e simbolismo da montagem, do surrealismo e do camp.

Bezerra de Menezes se enquadraria certamente nesse enfoque do “realismo espiritual”. O drama do protagonista é sempre mostrado em “retardamento épico” levando a um trabalho analítico dos objetos nos planos. É o retorno à própria essência do close-up, desde o cineasta norte-americano D.W. Griffith: retardar o gesto ou a reação dos personagens para que o público possa ter uma relação mais intensiva com o plano cinematográfico. Quando, por exemplo, na sequência da sessão do centro espírita quando a fala do líder (Lúcio Mauro) é interrompida por um médico materialista que, zombeteiramente, desafia Bezerra de Menezes a um debate público sobre a fraude do fenômeno espírita. A câmera para em plano fechado no interpelado. Percebemos a leveza e, ao mesmo tempo, segurança com que as mãos do ator Carlos Vereza pousam no livro diante de si sobre a mesa. Acompanhamos cada movimento dos músculos faciais do ator, à espera da sua reação.

Lembrando um típico fime de “realismo espiritual” como “Diário de um Padre” (Journal d’um Cure de Campagne, 1951) de Robert Bresson, onde o percurso da transcendência espiritual do protagonista é acompanhado por uma câmera que acompanha a rudeza (texturas e sons dos objetos) do cotidiano nos detalhes, em “Bezerra de Menezes” os planos permitem que percebamos o excelente figurino de época (texturas, tecidos, consistência), a rudeza dos objetos de época (frascos da farmácia de manipulação, a aspereza do papel timbrado de aviamento das receitas), o “peso” da cenografia com os móveis escuros e fortes contrastes da iluminação evidenciando, ainda mais, a crueza do ambiente cotidiano.

E dentro desse ambiente cru, rude e pesado um personagem que busca a transcendência. A transcendência na imanência!

Ao contrário, em “Chico Xavier” a edição e planos de câmera passam a ideia de fluidez, extensividade, como se o protagonista, desde o início, já soubesse do sucesso final. Não há jornada, conflito, drama. Tudo já está dado desde o início. Não há transcendência, mas uma ideia de dinamismo, “esportividade”, como se o protagonista já estivesse confortavelmente em seu papel.

Talvez o filme “Bezerra de Menezes” não partilhe dos clichês da religiosidade da indústria do entretenimento exatamente pelos seus aspectos de produção, considerados “mambembes” por críticas como a da revista Veja. O filme nasceu de uma encomenda feita aos diretores pela Associação Estação da Luz, do Ceará. A ideia inicial era fazer um documentário para distribuição em DVD, com custo aproximado de R$ 100 mil, tendo o projeto crescido, principalmente, depois de ser testado junto aos participantes de um congresso de espiritismo na Colômbia.

Em “Bezerra de Menezes” o que foi o seu principal problema (produção “mambembe” e roteiro “tosco” e narrativa conservadora) certamente foi a sua principal virtude: romper o ciclo vicioso da mídia que, em nome do chamado “grande público”, confina o sagrado e o religioso no ideário do ecumenismo pós-moderno da Auto-ajuda e do autoconhecimento.

Ficha Técnica:
  • Diretor: Glauber Filho e Joe Pimentel
  • Elenco: Carlos Vereza, Lúcio Mauro, Caio Blat, Paulo Goulart Filho e outros.
  • Duração: 75 min.
  • Distribuidora: Fox Filmes do Brasil
  • Produtores: Trio Filmes, ONG Estação da Luz
  • Ano: 2008


Wilson Ferreira
Wilson Ferreirahttps://revistaforum.com.br/cinegnose
Mestre em Comunição Contemporânea (Análises em Imagem e Som). Jornalista e professor na Universidade Anhembi Morumbi nas áreas de Estudos da Semiótica e Linguagem Audiovisual. Pesquisador e escritor, co-autor do "Dicionário de Comunicação" pela editora Paulus, organizado pelo Prof. Dr. Ciro Marcondes Filho e autor dos livros "O Caos Semiótico" e "Cinegnose – a recorrência de elementos gnósticos na produção cinematográfica" pela Editora Livrus.