Cinegnose

por Wilson Ferreira

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02 de Maio de 2010, 10h33

Conspirações, Esquizofrenia, Sincromisticismo … Algumas Hipóteses para Explicar o Filme Gnóstico

Em qualquer lugar quando vou expor as minhas pesquisas sobre o filme gnóstico surge uma questão insistente: Hollywood está se convertendo ao gnosticismo? Roteiristas, diretores e produtores gnósticos estão invadindo a indústria cinematográfica norte-americana? Então, tudo poderia ser uma grande conspiração? As respostas não são assim tão simplistas. Ainda mais que sabemos que o “revival” atual é apenas mais um ao longo da história (os alquimistas na Idade Média, o Neo-platonismo no Renascimento, a literatura Romântica e Gótica no século XVIII etc.).

Para ajudar a responder essas questões, vamos tentar fazer um mapeamento das principais hipóteses sobre o porquê da convergência atual entre Cinema e Gnosticismo:

1 – Teoria Conspiratória: essa hipótese se prolifera principalmente na Internet. O Gnosticismo é associado a um movimento intitulado “Satanismo” ou “Luciferianismo” que estaria por trás da Globalização ou da “Nova Ordem Mundial” (NWO). A principal meta da Globalização não é política e nem econômica. Tudo isso seria apenas um meio para alcançar a meta maior: a proliferação do neo-paganismo com a destruição das três grandes religiões monoteístas: cristianismo, judaísmo e islamismo. Pelo fato de o Gnosticsmo encarar o Deus monoteísta como um Demiurgo e opor a gnose às formas de revelação religiosas (ao contrário da fé em Deus, o Gnosticismo propõe a fé em si mesmo) seriam evidências dos seus propósitos satanistas. Nessa luta por corações e mentes Hollywood estaria na vanguarda nessa gigantesca conspiração ao apresentar nas telas de cinema do mundo inteiro protagonistas que buscam a fé mais em si mesmos do que em Deus. Roteiristas, Diretores e Produtores fariam parte dessa conspiração que visaria construir a estrada filosófica e mística dentro da qual percorreria a Nova Ordem Mundial. Essa hipótese parte principalmente de grupos fundamentalistas cristãos e evangélicos nos EUA, os mesmos grupos que defendem o armamento civil como forma das pessoas organizarem milícias para fazer frente à NWO.

Se por um lado essa hipótese parte de uma compreensão equivocada do Gnosticismo (sociedades secretas, neo-paganismo, cosmos sem Deus, niilismo, ateísmo etc), por outro, parece que os filmes gnósticos tiram alguma vantagem dessas delirantes conspirações: inserem em suas narrativas referências dessas verdadeiras lendas urbanas como em Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembrança quando o Joel (Jim Carey) tem um impulso para pegar o trem para Montauk e faltar ao trabalho. Por que Montauk? É uma sutil referência à célebre teoria conspiratória do Projeto Montauk, cujo conteúdo tem a ver com a própria temática do filme. O Projeto Montauk seria um projeto secreto empreendido pela inteligência militar dos EUA com experiência de intervenção psíquica por meio de drogas e equipamentos eletrônicos para fins de espionagem e interrogatórios.

2 – Sincromisticismo: hipótese proposta por Jason Horsley (filósofo e crítico de cinema norte-americano) principalmente em seu livro “Secret Life of Movies: Schizophrenic and Shamanic Journeys in American Cinema. London: McFarland, 2009”. Para ele, o cinema é a outra maneira das pessoas vivenciarem três áreas da experiência que a sociedade nos aliena: a religiosa busca por propósitos ou “sinais”; a xamânica ou animista forma de se relacionar com a natureza e a esquizofrênica inabilidade de distinguir entre realidade e fantasia. Tanto a experiência de produzir um filme ou assisti-lo já é esquizofrênica, partindo do pressuposto que a própria estrutura social já é esquizóide, embora assim não admita. Os temas recorrentes dos filmes gnósticos (perda da memória, identidade, dos limites entre realidade e fantasia, delírio e sanidade, paranóia etc) seriam sintomas de uma condição que a sociedade encoberta e os filmes seriam uma das formas de vivenciá-los. Ao oferecer uma “realidade xamânica” (estar em dois lugares ao mesmo tempo), o cinema se converteria na mais esquizóide mídia de todas. Em outras palavras: para se comunicar com uma sociedade esquizofrênica, roteiristas e diretores necessitam lançar mão de uma linguagem igualmente esquizóide. O que poderíamos pensar, então, da experiência do cinema em 3D?

A paranóia e a esquizofrenia, matéria-prima não só dos filmes gnósticos (como, por exemplo, “Clube da Luta”, “Amnésia” e o recente “Ilha do Medo”), mas do próprio Gnosticismo (a representação da condição humana como a de um exilado em um cosmos hostil) seria a própria forma de se comunicar com uma sociedade também esquizóide. Horsley não aborda a esquizofrenia como doença que precisa ser tratada, no sentido psiquiátrico. O Sincromisticismo afirma que a própria busca religiosa pela revelação é esquizóide e que a sociedade, ao negar essa sua própria natureza e confinar a experiência esquizofrênica no campo psiquiátrico, nega às pessoas a experiência “xamânica” do sagrado. Portanto, os filmes não seriam meios pelos quais as pessoas querem escapar da realidade através do mito, mas de vivenciar aquilo mesmo que a sociedade nega.

3 – O filme gnóstico como reflexo de um momento histórico – essa hipótese parte das idéias do historiador francês Marc Ferro. Para ele todo filme é um documento porque representaria o imaginário de uma determinada sociedade ou período histórico:

“o imaginário é tanto história quanto História, mas o cinema, especialmente o cinema de ficção, abre um excelente caminho em direção aos campos da história psicossocial nunca atingidos pela análise dos documentos” (FERRO, Marc. Cinema e História.São Paulo: Paz e Terra, 1992, p.12).

Não importa se o filme refere-se a um passado remoto ou imediato, pois sempre vai além do seu conteúdo. Portanto, se há uma conexão entre cinema e sociedade, ou seja, se o filme pode ser considerado um repositório do imaginário social contemporâneo e se sabemos que este imaginário atual é fortemente marcado por um desenvolvimento tecnológico impulsionado por tecno-utopias de natureza gnóstica, talvez possamos entender o porquê da recorrência de elementos do gnosticismo no cinema. Fortemente conectado com o imaginário social deste final e início de novo século, a produção cinematográfica atual, em particular a norte-americana, refletiria não apenas o imaginário tecnológico transcendentalista (Tecnognosticismo) como, também, questões existenciais, éticas e espirituais decorrentes de tal imaginário.

4 – Gnosticismo como atitude e “ambiência psicológica”. Essa hipótese pode ser sintetizada na frase de Stephan Hoeller (escritor, pesquisador acadêmico e líder religioso): “Todo bom artista já é meio gnóstico”. Para ele, os constantes renascimentos do gnosticismo ao longo da história moderna (literatura romântica e gótica nos séculos XVIII e XIX, vanguardas artísticas modernas e, na atualidade, no cinema hollywoodiano) decorre menos da sistematização ou transmissão da filosofia gnóstica. Ao contrário, o Gnosticismo historicamente se caracterizou pelo sincretismo, origens obscuras e transmissão dificuldade pelo desaparecimento de textos e documentos fundamentais. Para Hoeller, a força do gnosticismo refere-se:

“a uma certa atitude da mente, uma ambiência psicológica (…) um certo tipo de alma é, por sua própria natureza, gnóstica. Qualquer que seja o seu ambiente geográfico, cultural ou espiritual esta gravita inevitavelmente para uma visão de mundo gnóstica. Quando aquela predisposição ideológica encontra o estímulo de algum elemento de transmissão gnóstica, está fadado a surgir um renascimento.” (HOELLER, Stephen. O Gnosticismo: tradição oculta. RJ: Nova Era, 2005, p. 155-156).

Seja escritor, artista ou pesquisador, a própria atitude crítica em relação à sociedade já produziria uma “ambiência psicológica” propicia para o ressurgimento de temas ou arquétipos do Gnosticismo. Por esse ponto de vista, escritores como Philip K. Dick ou Cornac McCarthy (cujas obras atraem o interesse de roteirista e produtores no recente cinema americano ) são gnósticos, embora não tenham consciência disso. A atitude crítica em relação ao mundo ao descrever sombrios aspectos da sociedade e da política, inserindo-os em conspirações cósmicas vai muito além da tradicional crítica materialista histórica: expõe uma crítica de cunho metafísico. Essa “ambiência psicológica” seria dada por Crenças conspiratórias sobre sociedades secretas que dominam o mundo originada na mentalidade de uma sociedade atomizada, passiva diante de uma complexidade tecnológica incompreensível que domina o cotidiano. Esse seria o ambiente que de tempos em tempos se configura para criar condições para a recorrência de elementos do Gnosticismo.

Essas são as quatro principais linhas de hipóteses que permeiam as pesquisas atuais sobre Cinema e Gnosticismo. Excluindo a primeira hipótese (com evidente marca do direitismo político e fundamentalismo religioso), as restantes talvez sejam diferentes aspectos de uma mesma realidade. Parecem que não se excluem, mas se completam.


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