Cinegnose

por Wilson Ferreira

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08 de março de 2010, 08h25

Da Jornada do Herói de Vogler à Jornada do Herói do Filme Gnóstico

A mítica Jornada do Herói descrita por Vogler como a base universal de todo roteiro parece se assemelhar à jornada da narrativa do protagonista do filme gnóstico (Queda, Ascensão, Plenitude). Porém, há uma diferença essencial: a Teologia Negativa

Na semana passada, durante a aula da disciplina Estrutura de Roteiro ministrada por mim no curso de Comunicação (Publicidade e Propaganda) da Universidade Anhembi Morumbi (UAM), discutíamos o personagem mítico do Herói, tal qual descrito por Christopher Vogler no livro Jornada do Escritor. Baseado nas idéias do historiador e pesquisador em Mitologias Joseph Campbell, a Jornada do Herói com toda a galeria de personagens (o Pícaro, a Sombra, o Arauto, o Camaleão etc.) seria, para Voegler, a estrutura narrativa básica de todo ou qualquer roteiro cinema por se basear em um modelo de narrativa mítica presente em todas as culturas e épocas.
O que chama a atenção na descrição de Vogler é o motivo que impulsiona o herói a iniciar a jornada mítica:

“O estímulo para esta jornada é a mudança de algo em seu mundo comum, e ele parte para buscar a restauração deste mundo, ou ele está insatisfeito em seu mundo e parte para provocar uma mudança. Em ambos os casos o motivo da jornada é a falta de alguma coisa. O herói se sente incompleto e vai em busca de sua plenitude. O resultado é a transformação do próprio herói. Mesmo que o ambiente não se altere o herói não o enxerga mais da mesma forma.” VOGLER, Christofer. A Jornada do Escritor)

Para muitos leitores desse Blog ou que acompanham as discussões sobre o filme gnóstico, essa descrição feita por Vogler parece se assemelhar em muito com o protagonista do filme gnóstico. Os estados alterados de consciência dos protagonistas gnósticos (a suspensão do Viajante, a paranóia do Detetive e a melancolia do Estrangeiro) partem também de insatisfações e incompletudes. Todos buscam a plenitude.
Porém, com uma diferença fundamental: a Teologia Negativa. Ou, em termos fílmicos, a ruptura com a ordem ou totalidade. O protagonista gnóstico não só se transforma interiormente como essa renovação implica a ruptura, in totum, com uma percepção ontológica do real.

Uma pequena história da “quebra da ordem”

A história da “quebra da ordem” no cinema é interessante. No chamado “cinema slapstick” (os filmes mudos “de pastelão”), a trajetória do herói o conduz ao clássico happy end anárquico: os heróis vencem os desafios e limitações impostos pelo sistema (social, policial, econômico etc).

Como, por exemplo, no antológico final do filme de Harold Loyd O Homem Mosca (The Safety Last, 1923) onde, após escalar um prédio com as próprias mãos em busca de emprego e casamento, apesar de atrapalhado seguidamente por um policial, vence todos os percalços, chega ao topo e encontra sua noiva para o beijo final.

Aliás a figura do representante da ordem, o policial, é ridicularizada. Desde o grupo The Keystone Cops (um ajuntamento de policiais desajeitados que cada missão se reverte em catástrofes que pervertem a ordem), a figura do policial é ridicularizada e nunca consegue prender ninguém. Os personagens de Chaplin, o Gordo e o Magro, Harold Loyd e, mesmo na fase sonorizada, os Três Patetas, sempre escapam da polícia, denunciando a hipocrisia da Lei a inutilidade em aderir ao sistema.

Com a depressão econômica pós crash da Bolsa de Nova York em 1929 o proletário se retira do cinema para dar lugar às classes médias, exigindo um enquadramento moral e político na produção cinematográfica. Principalmente a partir dos filmes musicais, o esquema passa a ser quebra e retorno da ordem constante nas narrativas. Por exemplo, nos musicais todos começam a cantar e dançar e, de repente, retornam aos seus papéis sociais como se nada tivesse acontecido. Essa autêntica fantasia-clichê se desenvolve, varia e se atualiza ao longo das décadas e gêneros cinematográficos.

Desde os filmes de terror (onde o monstro ou serial killer assassina primeiro jovens que fazem sexo, consomem drogas ou, simplesmente, desobedecem os pais), passando por road movies (como em Sem DestinoEasy Rider, 1969 – ou Thelma e LouiseThelma e Louise, 1991 – onde os protagonistas morrem após romperem a ordem) até os filmes policiais ou de ação (onde o happy end, diferente dos filmes slapstick, é moralista com o herói restabelecendo a ordem política e social), temos diversas variantes dessa fantasia clichê.

Já os filmes gnósticos apresentam uma peculiar forma de ruptura com a “ordem”: a gnose. Mas essa ruptura não é apenas uma ruptura com a ordem política ou social, mas a ruptura com a própria noção ontológica de realidade. A ruptura com a Totalidade e com racionalizações confortantes que abrigam o indivíduo dentro de um “sentido” ou “propósito”.

Vejamos dois filmes que trabalham com um tema potencialmente gnóstico: o simbolismo do controle remoto como um aparelho que altera ou interfere não apenas na TV mas na própria realidade presentes em A Vida em Preto e Branco (Pleasantville, 1998) e Click (Click, 2006).
Em Click um arquiteto workholic ganha um estranho controle remoto universal que lhe permitirá acelerar ou retroceder as situações de diferentes partes da sua vida. O que poderia dar margens a questionamentos ou, no mínimo, ao medo ou êxtase metafísico ou filosófico, ao contrário, reverte-se num imediato interesse instrumental: acelerar as partes “chatas” da vida (jantar com a família, levar o cão para passear, carícias preliminares com a esposa antes do sexo etc.) para que ele possa se concentrar no trabalho.

A narrativa se desloca do potencial interesse metafísico ou gnóstico (a realidade como um constructu, uma artificial sucessão de imagens holográficas) para um viés moralista, onde o protagonista será punido por romper com os valores familiares.
Ao contrário, em A Vida em Preto e Branco, outro estranho controle remoto ganho de um não menos estranho técnico de TV, fará dois jovens serem tragados para o interior de uma série televisiva dos anos 50. Essa jornada fará os jovens heróis questionar não só os valores do mundo em preto e branco da década de 50, como os valores da atualidade deles (os anos 90). Os seus questionamentos serão marcados por uma forte simbologia e iconografia de origem bíblica do Velho Testamento (Paraíso, maçã, dilúvio, arbustos incandescentes etc.).

É a partir desse estado alterado de consciência iniciado pelo controle remoto, que os heróis vislumbram uma outra realidade que transcende aquela da tela de TV ou da realidade dos jovens da década de 90 dominado pelas imagens da MTV.

Assim como a mítica jornada do herói descrita por Voegler, os protagonistas realizam uma transformação íntima. Porém, isso implica em ruptura e transcendência (ou “quebrada ordem”, em termos fílmicos). A totalidade seja social ou divina/cósmica é negada: nem a ilusão e muito menos a ilusão de realidade, mas a busca de um terceiro elemento para além das oposições ou dualidades que esse cosmos nos impõe.

Tal qual a Teologia Negativa que revela a existência de Deus a partir da sua negação (ou da impossibilidade da linguagem expressar a sua existência) e, como pretende Theodor Adorno com a sua dialética negativa (“Dialética Negativa é Teologia Negativa”, afirmava), revelar a falsidade do Todo buscando a transcendência no particular ou individual, o filme gnóstico busca a partir da negação (ás vezes niilista) da ordem de uma totalidade (social, divina, religiosa) a plenitude última que seria a superação dos termos do cosmos material presente.

A “transformação” do herói ao final da jornada mítica como descrita por Vogler é ainda marcada pela positividade: é muito menos uma transformação e muito mais uma adaptação íntima a uma totalidade que o envolve. A penalidade seria a da morte trágica, como ao final do filme Thelma e Louise.

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