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por Wilson Ferreira

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28 de julho de 2010, 09h37

Fórmula 1: a Transparência do Mal transmitida ao Vivo

Para além das críticas moralistas contra Felipe Massa e o “jogo de Equipe” da Ferrari, o que assistimos ao vivo pela TV no último GP é a parte mais transparente na natureza do desenvolvimento tecnológico: a Hipertelia, o momento em que a tecnologia, de tão obesa pelo desenvolvimento hipertrofiado, volta-se contra si mesma. É o princípio gnóstico do Mal, da ironica inversão de cada ação humana.

“Sem Vergonha”. Essa foi a síntese da reação da mídia em relação às ordens implícitas enviadas por rádio dos boxes da Ferrari para que Felipe Massa deixasse o piloto espanhol e companheiro de equipe Fernando Alonso ultrapassá-lo na 48o volta do GP da Alemanha de Fórmula 1. As críticas limitam-se ao moralismo, ou condenando Felipe Massa por se curvar contratualmente a exigência de ser o piloto “número 2” da equipe (e muito bem remunerado para isso!) ou acusando a Ferrari de atitude anti-esportiva e manipulação de resultado (já multada pela FIA em US$ 100 mil após o último GP).

E já não é a primeira vez que manipulações de resultados ocorrem na categoria de elite do automobilismo. É ainda recente na lembrança o acidente propositalmente provocado por Nelsinho Piquet no GP de Cingapura em 2008 para favorecer o então companheiro de equipe da Renault, Fernando Alonso.

Uma das características da crítica moralista é culpar unicamente a ação individual, como resultante de um mau juízo ou de valores condenáveis. Essa crítica esquece das tendências estruturais ou conjunturais que envolvem os indivíduos e de onde partem as motivações das ações.

Há algo de mais profundo na categoria mais tecnologizada do automobilismo, algo que envolve o sentido de uma tecnologia que hipertrofiada volta-se contra si mesmo. Desde à época de Alain Prost, assistimos ao fim de uma era onde o resultado das corridas eram resolvidos pelo “braço” e perícia do piloto. Telemetria, suspensão ativa, câmbio automático etc, fizeram, em meados dos anos 90, a categoria entrar em crise. De tão cara, a alta tecnologia ficou concentrada em uma ou duas equipes, acabando a competitividade. Ironicamente, a F1 teve que regredir tecnologicamente para subsistir alguma competitividade, mas o cenário pouco mudou. Os caríssimos investimentos exigem um campeonato “dirigido” com manipulações pontuais, seja nas mudanças de regras ou em atitudes desesperadas como essa do GP da Alemanha.

Partindo de reflexões gnósticas sobre a essência do Mal, o pensador Jean Baudrillard conseguiu localizar na tecnologia o princípio da “reversibilidade simbólica”, a irônica presença do Mal que torna esse cosmos imperfeito. Baudrillard propôs uma hipótese perturbadora: e se os sistemas tecnológicos estiverem caminhando para um vanish point, um ponto de inversão e entropia, ou seja, se eles estiverem num estágio de inversão da finalidade inicial (a do valor de uso da tecnologia, sua utilidade e funcionalidade), tendendo a um ponto de inércia, a um ponto zero? Esta é a tese é igualmente partilhada por Ciro Marcondes Filho .

“Acredita se que todos os processos desenvolvam-se¬ até um certo ponto e que, sendo este ultrapassado, perdem sua eficácia e tomam¬-se absolutamente disfuncionais. O desenvolvimento da ciência, que até um certo momento foi impulsionado por toda a sociedade, recebeu fortes investimentos da indústria, dos governos e instituições sociais, esse mesmo desenvolvimento passou, a partir desse ponto de disfunção, a ser prejudicial à sociedade, na medida em que pôs em risco sua estabilidade e mesmo sua existência”. (MARCONDES FILHO, Ciro. Televisão. São Paulo, Scipione, 1995. p.58 9.)

Os sistemas tecnológicos tenderiam a um estado de obesidade, de excesso generalizado, até inviabilizar a finalidade original que os fez surgir. É aquilo que Baudrillard chama de hipertelia. A sofisticadíssima tecnologia automobilística da Fórmula 1 chega a um ponto que inviabiliza a competitividade e a sobrevivência da própria categoria esportiva. Poucas escuderias poderiam ter a tecnologia de ponta disponível para, no mínimo, serem competitivas. Resultado: foi obrigada a regredir sua tecnologia para os anos 70.

“Exxon: o governo americano pede à multinacional um informe global sobre todas as suas atividades no mundo. Resutado: doze volumes de mil páginas, cuja leitura, para não dizer a análise, ocuparia vários anos de trabalho. Onde está a informação? Aqui cão começa uma patafísica dos sistemas. Esta culminação lógica, esta escalada não se limita, por outro lado, a oferecer inconvenientes, ainda que seja uma catástrofe em câmera lenta” (BAUDRILLARD, Jean.Estrategias Fatales. Barcelona, Editorial Anagrama, 1984, p.11-2)

Esta reversibilidade irônica, patafísica (absurda) está por todos os setores cuja tecnologia se hipertrofia.

Na Guerra do Golfo em 1991, o mesmo pode se e dizer do avião invisível aos radares que, de tão sofisticado e caro aos cofres públicos dos EUA, poucas vezes levantou vôo. Ou os automóveis atuais, sofisticados, estáveis e velozes, vivem presos em congestionamentos. Resultado: os acessórios tomam conta das inovações tecnológicas, para que o motorista se sinta cada vez mais confortável nos engarrafamentos.

Ou ainda a infecção hospitalar que surge, ironicamente, no ambiente mais asséptico e controlado possível: a hipertrofia asséptica resulta no oposto, isto é, um ecossistema tão limpo que um vírus pode se propagar catastroficamente pela inexistência de barreira biológicas como, por exemplo, predadores.

O grau zero da informação televisiva: a expansão do número de canais em um aparelho de TV volta-se contra o próprio conteúdo. Diante de 300 canais, é impossível escolher qual assistir. Resultado: o efeito zapping, onde o divertido não assistir ao conteúdo, mas trocar compulsivamente de canais. A tecnologia televisiva volta-se contra o próprio valor de uso da informação.

A obsessão da tecnologia em expandir-se para alcançar funcionalidades e utilidades cada vez mais precisas, eficazes e de alto desempenho, resulta, ironicamente, na absoluta inutilidade. É a “transparência do Mal”. Tal como um acidente catastrófico de um trem-bala, a tecnologia bate de frente, em alta velocidade, com o princípio do Mal que governa o cosmos.

Voltando às críticas moralistas da mídia sobre a F1, não devemos esquecer que o sacrifício público de Felipe Massa é a parte mais visível da hipertelia de uma categoria que, de tão obesa tecnologicamente, aniquila qualquer possibilidade de jogo ou competição.

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