Cinegnose

por Wilson Ferreira

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25 de junho de 2010, 15h24

O Cadáver da Teologia e o Resumo Recusado pelo Encontro Científico

Nessa semana, voltando de bicicleta após mais uma manhã de aulas na Universidade Anhembi Morumbi (vou de bicicleta dar aulas na Universidade todas as manhãs) e pensando na próxima pauta para esse humilde Blog (sim! Meus melhores insights e idéias ocorrem entre as pedaladas), veio à lembrança um resumo expandido de um artigo recusado que fora submetido a um encontro científico.

Esse resumo expandido foi enviado por mim no ano passado para o Terceiro Encontro ESPM de Comunicação e Marketing, realizado na Escola Superior de Propaganda e Marketing aqui de São Paulo. O tema geral era “Comunicação e Consumo na Sociedade de Acesso”. O resumo submetido ao Encontro intitulava-se “Cinegnose: Imaginário Cinematográfico e a desmaterialização econômica e tecnológica global” (logo abaixo o leitor poderá ler esse resumo)

Entre alguns argumentos de ordem metodológica que justificavam a recusa, um chamou-me a atenção: o texto submetido ao Encontro era muito “místico”! Logo pensei: É! … O tema “gnosticismo e cultura” é místico demais para um evento “científico”.

É curioso o destino que a Teologia e o “misticismo” tiveram na história do pensamento ocidental. A Teologia, a primeira das ciências, que possuía o maior estatuto, o pai poderoso das origens da Universidade, com o processo de desenvolvimento do racionalismo foi sistematicamente atacada, desacreditada e marginalizada. Sendo a universidade laica, as ciência humanas tornaram-se também laicas e a Teologia, religiosa.

Mas, por meio da Metafísica moderna, a Teologia secretamente secularizou-se. Sem saber, ainda as ciências humanas nutrem-se dos pedaços do cadáver esquartejado da Teologia. Ainda mais nesse campo da Publicidade e do Marketing, ciências sociais aplicadas, onde se busca desesperadamente racionalizar ou dar bases “científicas” a processos puramente místicos, carismáticos ou espirituais: vender sonhos, explorar motivações, narrar temas arquetípicos. Desde há muito tempo quando o consumo se desprendeu do valor de uso, o consumo é basicamente feitiço e fantasia.

Tentando dar um estatuto de ciência, erradicam-se temas “místicos” que partam de categorias do próprio campo teológico ou metafísico. O “místico” das ciências humanas (principalmente as aplicadas) deve ser denegado para, mais tarde ressurgir como sintoma: a obsessão pela cientifização para justificar o status laico e racional de uma área que, certamente, é constituída pelos novos padres, monges e sacerdotes da nova Teologia pós-moderna, criadores de liturgias paras os novos templos chamados de “Shopping Centers”. A homilia dessa nova liturgia é o texto publicitário.

Abaixo, o texto “místico” recusado:

CINEGNOSE
Imaginário cinematográfico e a desmaterialização
econômica e tecnológica global

Wilson Roberto Vieira Ferreira

RESUMO EXPANDIDO
Nos últimos vinte e cinco anos, uma série de filmes do mainstream hollywoodiano vem extraindo imagens e idéias de antigas correntes filosóficas, religiosas e culturais conhecidas como gnósticas: Vanilla Sky (2001), eXistenZ (1999), Matrix (1999), Cidade das Sombras (Dark City, 1998), Show de Truman (Truman Show (1998), A Vida em Preto e Branco (Pleasantville, 1998), Veludo Azul (Blue Velvet, 1986), Coração Satânico (Angel Heart, 1987), Dead Man (1995), Amnésia (Memento,2000) , O Jogo (The Game, 1997).

Neste pequeno grupo de filmes citados há preocupações básicas que os unem: (a) o tema do colapso da distinção entre aparência e realidade provocado tanto pelas recentes tecnologias quanto pela condição humana; (b) instabilidades naquilo que conhecemos como realidade e o seu multifacetamento em instâncias supra e para-reais; (c) experiências da perda da memória e a sua reminiscência como fator de recuperação da identidade.

Este texto procurará discutir exatamente esta conexão entre gnosticismo e cinema, mas num aspecto particular, a saber: como os filmes que abordam temas e símbolos gnósticos vêm na última década insistindo no tema do artificialismo da realidade. Não a realidade ideológica, política ou econômica, mas no seu aspecto último, metafísico ou ontológico: a realidade tal como a entendemos existe? Por que essa espécie de guinada metafísica na temática da produção hollywoodiana recente? A forma como esses temas são abordados nos aspectos de narrativa, iconografia e construção de personagens parecem apontar para a influência dos temas e narrativas do gnosticismo histórico e dos seus ressurgimentos no campo da literatura e no imaginário das novas tecnologias (gnosticismo tecnológico).

Se há uma conexão entre cinema e sociedade, ou seja, se o filme pode ser considerado um repositório do imaginário social contemporâneo e se sabemos que este imaginário atual é fortemente marcado pelo desenvolvimento tecnológico computacional e a crescente liquidez da financeirização global, é a partir daí que devemos analisar essa produção fílmica. Esta crescente recorrência de elementos gnósticos no cinema hollywoodiano corre paralelo à euforia da globalização e o fortalecimento de seus dois pilares: de um lado, o desenvolvimento da microinformática e, a partir do bombástico lançamento do Windows 95, o crescimento especulativo das potencialidades da Internet e das tecnologias computacionais; e, do outro, a extraordinária aceleração da expansão do capital por meio da financeirização do sistema econômico global.

Esses dois processos são interdependentes, pois o desenvolvimento da microinformática e da nanotecnologia surge na hora certa quando a globalização do capitalismo passou a exigir uma pilotagem mais complexa: dominar a complexidade das interconexões simultâneas, o cálculo probabilístico das transações financeiras e da equalização das caóticas tendências nas jogadas em bolsas de valores e na análise dos tensos cenários econômicos. As tecnologias da informação permitem a integração complexa das praças financeiras de todo o mundo em tempo real.

Em ambos os movimentos que fortalecem a ordem mundial da Globalização encontramos o caráter constitutivo da desmaterialização, isto é, o primado do imaterial sobre o físico, do virtual sobre o real e assim por diante. No plano da ciência e tecnologia, diversos autores detectaram e mapearam a semente do misticismo nas comunidades científicas, sejam acadêmicos ou tecnófilos: a princípio entre físicos, cosmólogos e biólogos para, em seguida, alastrar-se por outras áreas, principalmente através da Cibernética e Teoria da Informação. Diversos pesquisadores vão caracterizar este imaginário ciberutópico com o conceito de “gnosticismo tecnológico”.

O gnosticismo histórico (conjunto de seitas sincréticas combinando idéias cristãs, neoplatonismo e as religiões de mistérios pagãs que florescem nos primeiros tempos da difusão do Cristianismo) caracteriza-se pelo horror ao orgânico e a uma aversão ao natural. Tais elementos seriam inimigos do espírito na sua busca por iluminação. A tecnociência atual se aproximaria de tal filosofia ao propor a superação dos parâmetros básicos da condição humana: finitude, contingência, mortalidade, corporalidade, animalidade e limitação existencial.

Essas tecnologias rompem com o antigo paradigma moderno, ao criar uma ambiência tecnológica computacional onde o sujeito humano é desnaturalizado: da tecnologia como extensões do homem ao momento atual de ruptura onde a tecnologia virtualiza o humano. O resultante é um mundo viscoso, menos estruturado, flutuante que pode ser sintetizado em três palavras-chave: destemporalização, destotalização e desreferencialização. Ao mesmo tempo, no plano econômico, temos a interconexão de economias por um novo modo comandado pelas novíssimas tecnologias integradoras como a microinformática, mídia, marketing e publicidade transnacional. Estas tecnologias vão sustentar o chamado “turbo-capitalismo”: a extraordinária aceleração da expansão do capital por meio da financeirização do sistema econômico global.

Esta “desmaterialização” da economia corresponde ao fato de, cada vez menos, a fonte do lucro ou da riqueza ter sua origem no circuito da produção. Deixa de ser visivelmente localizável, para encontrar formas flexíveis de acumulação: a princípio em novos vínculos trabalhistas, como a terceirização, porém, quanto mais o capital migra da produção para a esfera da circulação (financeira, midiática, etc.), mais se impõe uma nova forma de riqueza “fora do chão”. É a base da constituição de um novo imaginário: redes descentralizadas, como a Internet, criando ciber-identidades pulsantes e variadas, assim como a moda efêmera e superficial traria a liberdade a um indivíduo que não mais se prenderia a certezas eternas.

Um indivíduo pós-moderno radiante, desenvolto, integrado à tecnologia (que, afinal, é a promotora desta verdadeira emancipação das identidades fixas), identidade móvel, sedutor, assumindo múltiplas personas em blogs e chats, sentindo as novas pulsações e tendências. Uma identidade tão líquida quanto os fluxos financeiros globais. Mas um imaginário paradoxal, mesclado com elementos místicos ou gnósticos, tal como representado pelo imaginário cinematográfico hollywoodiano recente. Este imaginário refletiria a própria imaterialidade da percepção do real e da identidade originada pelos processos que constituíram a Globalização?


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