quarta-feira, 23 set 2020
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O Coringa e o Sincromisticismo

“Eu o avisei” disse Jack Nicholson após a morte de Heath Ledger, o intérprete do Coringa em “Batman: o Cavaleiro das Trevas”. O que quis dizer Nicholson com esse aviso? Como o psicopata arquetípico, o Coringa sintetizaria não apenas como as Formas-Pensamento tornam-se autônomas e poderosas na cultura pop atual mas, também, como Hollywood torna-se a principal indústria catalizadora dessas energias psíquicas.

Traduzimos abaixo postagem de Jason Horsley do seu blog Aeolus Inc. Nessa postagem, temos um exemplo prático de análise do que ele chama de “Sincromisticismo”: uma proposta de análise não apenas do produto fílmico, mas da produção cinematográfica e das audiências pelo referencial da Esquizofrenia, Xamanismo, a elaboração dos arquétipos (Jung) e de conceitos Teosóficos como as das “Formas-Pensamento” de Blavatsky e Leadbeater. Essa postagem é a primeira parte da sua análise em torno da morte do ator Heath Ledger e o último personagem que performou, o Coringa da série de filmes Batman. Para Horsley, o Coringa é o psicopata arquetípico, uma Forma-Pensamento contemporânea capaz de possuir atores e audiências, mais uma das entidades autônomas instrumentalizadas pela indústria hollywoodiana. Horsley perigosamente transita entre as teorias conspiratórias e o referencial do misticismo como ferramenta para entender fenômenos comunicacionais da atualidade.
Porém, vale a pena seguir seus raciocínios de forma crítica. No mínimo, pode ser divertido. Logo mais publicaremos a segunda parte traduzida da análise de Horsley sobre Heath Ledger e o Coringa.

A Entidade Hollywood Smorgasbord
Após a morte de Heath Ledger, Jack Nicholson fez uma críptica observação: “Eu o avisei”.
O que exatamente Nicholson avisou para Ledger? Dado o contexto, parece que Nicholson estava se referindo aos perigosamente potenciais efeitos de estar atuando como um psicopata com extremas qualidades como o Coringa. O Coringa não é meramente um psicopata mas um arquetípico psicopata: no ranking das mais populares formas-pensamento do século XX, ele é praticamente um deus. (Pesquisa feita para o primeiro filme do Batman afirmou que a bat insignia estava em segundo lugar em reconhecimento para as crianças, depois do sorridente rosto do Coringa)

Se estou certo em afirmar que as criações ficcionais tornam-se semiautônomas, mesmo que semi-conscientes, entidades dentro de um reino imaginário, através das energias psíquicas que damos a elas (uma idéia que Neil Gaiman trabalhou em Sandman, e Alan Moore com Promothea), presumivelmente quanto mais popular um personagem se torna – e mais narrativas são feitas em torno dele – mais poderoso e autônomo pode se tornar? Pense em Papai-Noel e Jesus Cristo. A mistura ímpar do mito, lenda e fatos históricos que estão por trás desses personagens, torna-os profundamente reais em seus efeitos e não apenas em nosso psiquismo mas por meio das nossas ações. Os pais fingem ser Papai-Noel para manter a ilusão.

Em The Manson Secret, Peter Levenda faz um paralelo entre o método de representação teatral (o método Stanislavsky) e a criação de “alters” através do programado controle da mente – em outras palavras, entre a assunção das funções como intérprete, e a fragmentação da psique como visto nas desordens de múltiplas personalidades etc. Em outros tempos, contudo – e ainda hoje nas culturas mais xamânicas – o termo esquizofrenia e “MPD podia ser entendido como uma espécie de possessão por uma entidade. Quando o trauma – induzido por abuso ou outras formas de “manipulação” ou auto-induzidos através de drogas, rituais mágicos, ou técnicas de encenação, cria uma abertura ou fratura na psique, forças externas podem entrar e assumir o controle de que o psiquismo. Poderíamos também dizer que, ao atingir a mente inconsciente, reprimida e que repudiou os aspectos da psique, aspectos tanto daimônicos como demoníacos podem surgir e assumir a consciência. Enquanto a visão xamânica os vê como as forças externas e demoníacas, o ponto de vista psicológico vê-los como internos relacionados com a psique. Mas a descrição básica é a mesma, com o mesmo resultado final: perda do controle, loucura, desespero, ou, em raros casos, iniciação e iluminação, e talvez um Oscar de melhor ator!

Já descrevi como atores podem ser escolhidos como condutores – “atratores estranhos” – pelo qual energias psíquicas podem ser liberadas e redirecionadas para a criação de formas-pensamento. Essas formas-pensamento podem não permanecer sob o controle do ator, muito menos da audiência (constituída por essas energias psíquicas), mas existe um terceiro elemento, não observável: um poder, por assim dizer, oculto. Assim, estas formas-pensamento parecem ser autônomas, uma vez que estão sendo dirigidos por uma inteligência exterior, independentemente da sua fonte aparente. Algo semelhante pode ocorrer nos casos de MPD e de fato, dos atores de submergir-se em um papel. Isso quase indubitavelmente ocorre no caso das vítimas de controle mental.

Quando um “alter” – um fragmentado aspecto da psique que foi compartimentalizado e tornou-se independente – é criado, ele efetivamente torna-se independente de qualquer controle da inteligência do psiquismo. Como a natureza odeia o vácuo, algo é inevitavelmente direcionado para preencher o espaço vazio, para tomar posse do fragmento renegado, para orientá-lo e dirigi-lo, e talvez até para habitá-lo.
Assim, em tal modificação comportamental, um fragmento “alter” é programado e treinado como um espião, assassino ou escravo sexual, tornando-se toda a sua identidade e função. Essencialmente, começa a agir como fosse a encarnação de algum agente externo. O mesmo pode ser dito, em termos religiosos, quando os demônios possuem um corpo e “derrubam” a sua alma: a pessoa fica dividida em duas ou mais personalidades, uma das quais permanece inconsciente da outra, e assim começam a agir fora de suas “Sombras” de maneiras aberrantes. Nós dizemos que uma pessoa que está “possuída”, ou “não é ela própria”, ou simplesmente que “saiu para o almoço”. Xamanicamente falando, as entidades (que poderão ser formas-pensamento criada pela pessoa, ou por outros ligados a eles, como “fantasmas”, “ancestrais”, e afins) aguardam essa oportunidade para assumir o controle da psique de uma pessoa e habitam seu corpo. Isso pode ocorrer em formas dramáticas de crimes de paixão, colapso mental, etc. ou em formas mais sutis, mas muito mais prevalentes, tais como comportamento compulsivo, toxicomania, abuso sexual, e afins.

De todas as fontes de alimentação para essas entidades que podemos imaginar, é difícil conceber um lugar mais rico, mais abundante e variado do que Hollywood – onde comportamentos compulsivos e extremos são a norma, e onde a concepção de personalidades alternadas e produção de falsas narrativas – com deliberada dissociação da realidade – é a natureza do negócio.

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Wilson Ferreira
Wilson Ferreirahttps://revistaforum.com.br/cinegnose
Mestre em Comunição Contemporânea (Análises em Imagem e Som). Jornalista e professor na Universidade Anhembi Morumbi nas áreas de Estudos da Semiótica e Linguagem Audiovisual. Pesquisador e escritor, co-autor do "Dicionário de Comunicação" pela editora Paulus, organizado pelo Prof. Dr. Ciro Marcondes Filho e autor dos livros "O Caos Semiótico" e "Cinegnose – a recorrência de elementos gnósticos na produção cinematográfica" pela Editora Livrus.