sexta-feira, 18 set 2020
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O “Gênesis” segundo o gnóstico cartunista Robert Crumb: “a Bíblia é totalmente Louca”

O que faz um cartunista underground com estilo corrosivo e pornográfico fazer uma versão dos 50 capítulos do livro bíblico do Gênesis de uma forma literal e fiel ao texto original? Para o cultuado Robert Crumb a Bíblia já é louca. Não precia ser satirizada. Admitindo a influência do Gnosticismo na sua obra, após intensa pesquisa de 5 anos Crumb prioriza na sua adpatação o aspecto mais importante da Bíblia: a mitologia.


Quem espera encontrar no “Livro do Gênesis Ilustrado por Robert Crumb” o estilo iconoclasta e underground que, desde os anos 60 desafia o mainstream moral e cultural, certamente vai se decepcionar. Crumb deixa o seu conhecido humor visual para criar uma obra fundamentada em intensa pesquisa sobre os atuais textos bíblicos, a iconografia clássica (da arte até Hollywood) e um imenso material fotográfico da Terra Santa. Ao criar uma adaptação deliberadamente literal do texto bíblico, Crumb conseguiu se situar num ponto equidistante entre o fanatismo religioso e a blasfêmia.

Como Crumb admitiu na sua conferência de imprensa quando do lançamento da obra, no ano passado em Paris, ele é um gnóstico (veja texto logo abaixo). Como tal, para ele “a Bíblia não é a palavra de Deus. É a palavra dos homens”. “A ideia de milhões de pessoas tomando a Bíblia tão seriamente é totalmente louca”. E acrescentou: “A Bíblia não precisa ser satirizada. Ela já é totalmente louca”.

Por isso, Crumb deixou seu estilo escrachado e pornográfico para tomar a Bíblia no seu sentido mais libertário: a mitologia como instrumento de libertação espiritual. O apuro da sua pesquisa durante cinco anos em torno da iconografia e mitologia sagradas denota um Robert Crumb na maturidade artística: não há nada mais devastador ao establishment moral e religioso do que representar Deus de uma forma tão antropomórfica, criando os elementos primais do Universo como se jogasse basquete. E, mais do que isso, representar graficamente Deus como um Demiurgo, raivoso, vingativo e manipulador.

Crumb disse que a ideia de representar Deus dessa forma gnóstica veio através de um “poderoso sonho” que teve no ano 2000 “no qual vi Deus e ele tinha essa aparência”.

A tradução do “O Livro do Gênesis Ilustrado por Robert Crumb” foi lançada no Brasil pela Editora Conrad.

O cartunista é um dos grandes heróis de contracultura e criador de clássicos como Mr. Natural, América, Blues e Fritz, The Cat (todos publicados no Brasil pela Conrad), Crumb nasceu na Filadélfia, em 30 de agosto de 1943. Começou sua carreira no início dos anos 60, na revista Help, dirigida por Harvey Kurtzman, o criador e editor do período mais anárquico e celebrado da revista Mad. Na Help, Crumb trabalhava ao lado de Terry Gillian que depois faria parte do grupo Monty Python e seria o diretor de filmes como Brazil e Fear and Loathing in Las Vegas.

Abaixo uma tradução do texto de Miguel Conner (escritor de ficção científica norte-americano e apresentador do programa Aeon Bytes Gnostic Radio, uma Internet Radio com entrevistas e debates semanais sobre a confluência do Gnosticismo com literatura e cultura pop) publicado no site Examiner.com National comentando a declaração de R. Crumb sobre a inspiração gnóstica em seu trabalho.
Cartunista Cult Robert Crumb Revela ser um Gnóstico
Miguel Conner

O cartunista underground Robert Crumb recentemente entrou para as fileiras dos mais conhecidos hereges gnósticos. De acordo com relatório da Agência France Press, Crumb admitiu ser gnóstico durante uma conferência para a imprensa no lançamento da sua última obra “O Livro do Gênesis Ilustrado por Robert Crumb. Esta declaração, junto com o seu novo livro, revela pela primeira vez as inclinações teológicas de uma figura tão importante e cultuada. Crumb é mais conhecido pelo seu personagem “Fritz the Cat” e histórias em quadrinhos na “American Splendor”.

“A Bíblia não é a palavra de Deus. É a palavra dos homens”, disse ele na conferência de imprensa em Paris. “Eu levo tudo isso como um mito do começo ao fim.” Esta atitude foi ecoada pelos gnósticos antigos, que viram a Sagrada Escritura como uma ferramenta de dominação opressiva de instituições religiosas e abraçaram a mitologia como um veículo para a libertação espiritual.

“O livro do Gênesis ilustrado por Robert Crumb” não é uma crítica gnóstica tradicional ou reinterpretação do primeiro livro da Torá. É um fiel representação em um gênero de quadrinhos. No entanto, elementos do gnosticismo brilham através de seu arte por causa do tom sombrio, estilisticamente exagerado e um retrato agudamente preciso. Crumb revela a visão gnóstica de um deus tirano, um universo brutal e um elenco de personagens questionáveis, apesar de serem convencionalmente aceitos como heróis ou modelos de conduta.

Crumb conseguiu, da mesma forma que muitos gnósticos ao longo da história, fazer contracultura respeitável, sem comprometer os princípios não-ortodoxos. O gnóstico Valentino quase se tornou Papa, no século II, enquanto mantinha as crenças teológicas blasfemas do cristianismo romano. William Blake usou a arte gnóstica visionário e poesia como uma denúncia contra o racionalismo do período Iluminista. Carl Jung é considerado o principal fundador da Psicologia Profunda, uma ciência controversa, mas atualmente aceita. Jung baseia muitas de suas teorias sobre as ideologias gnósticas. A obra de Philip K. Dick , inicialmente considerada uma “pulp science fiction” com temas gnósticos há 30 anos atrás, é agora publicada pela Biblioteca da América.

É muito cedo para avaliar o impacto social da auto-exposição gnóstica e sua adaptação do livro de Gênesis. Mas Crumb já tem longo e documentado histórico de desafios contra a consciência dominante da sociedade. Desta vez, ele vem como um herege, com todos os riscos e benefícios associados. Ele está em boa companhia.
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Trecho de entrevista concedida por Robert Crumb a Fernando Eichenberg em Paris e publicada pela revista “+ Soma” (disponível em http://www.maissoma.com/2010/2/26/robert-crumb).

Você se define como gnóstico

Gnóstico é alguém que busca o conhecimento de Deus. Sou alguém em busca desse conhecimento. Não tenho a pretensão de dizer que possuo algum conhecimento, mas o procuro. Quando você medita, tenta compreender a natureza da realidade, da nossa existência, da vida. Tenta unificar o todo da vida. Isso é muito gnóstico. Existe um texto gnóstico descoberto nos anos 1940, chamado “Nag Hammadi”, que é muito interessante. Fui bastante reprimido. A Igreja cristã e outras não gostavam de gnósticos – é algo muito vago, solto, sem doutrina suficiente. Os primeiros católicos se doutrinaram muito rapidamente. Queriam verdades absolutas, e todos que não concordavam com essas verdades eram excomungados. Por volta de 300 d.C., um bispo decidiu que todos que não reconhecessem Jesus como a encarnação de Deus não eram cristãos. Foi aí que começou o conflito em torno da heresia e dos hereges, de quem discordava da Igreja, milhões de pessoas perseguidas ao longo dos séculos. Ser gnóstico é não se limitar e não ter doutrinas. É diferente de ser agnóstico. Agnósticos duvidam da existência de Deus. Não são exatamente ateus, mas é um jeito de dizer “isso não é comigo”. Mas os gnósticos são interessados e praticam essa busca, na forma de meditação.

Você medita?

Sim, tento meditar todos os dias. Às vezes estou muito ocupado e não consigo, mas tento meditar todos os dias. É algo muito benéfico e útil.
Wilson Ferreira
Wilson Ferreirahttps://revistaforum.com.br/cinegnose
Mestre em Comunição Contemporânea (Análises em Imagem e Som). Jornalista e professor na Universidade Anhembi Morumbi nas áreas de Estudos da Semiótica e Linguagem Audiovisual. Pesquisador e escritor, co-autor do "Dicionário de Comunicação" pela editora Paulus, organizado pelo Prof. Dr. Ciro Marcondes Filho e autor dos livros "O Caos Semiótico" e "Cinegnose – a recorrência de elementos gnósticos na produção cinematográfica" pela Editora Livrus.