sábado, 26 set 2020
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“O Mistério da Rua 7”: Quando a Religião Se Encontra Com O Pensamento Ecologicamente Correto

O filme “Mistério da Rua 7” (Vanishing on 7th Street, 2010) representa uma nova tendência hollywoodiana: a construção de um novo fundamentalismo moral baseado no pensamento ecologicamente correto. No caso desse filme, uma bizarra mistura de antiga lenda da época da  colonização norte-americana, demônios indígenas e o pensamento místico ecológico da Teoria Gaia.

Todo filme com temática apocalíptica guarda uma lição de moral: por que a humanidade chegou a esse ponto? Como exemplares da espécie humana, qual a culpa dos indivíduos sobreviventes para a catástrofe que ocorreu? E, principalmente, qual lição pode se tirar de tudo que ocorreu para que não cometamos os mesmo erros no futuro?

O filme “O Mistério da Rua 7” partilha dessa mesma premissa moral com uma novidade: a mescla do subgênero ficção científica pós-apocalipse com o terror. O resultado é um surpreendente encontro entre a religião e o pensamento ecologicamente correto que encobre a velha estrutura clichê moralista da narrativa hollywoodiana: quebra-da-ordem-e-retorno-a-ordem, isto é, a punição dos personagens que ousam quebrar a ordem moral, política, social e, no caso desse filme, o pensamento ecologicamente correto.

O filme inicia até com uma interessante sacada metalinguística. O projecionista Paul (John Leguizamo) exibe a comédia mais recente de Adam Sandler enquanto folheia um livro sobre demônios antigos. Entediado, critica o filme como previsível desde o início. De repente as luzes se apagam e todos no cinema desaparecem, deixando para trás suas roupas, com exceção de Paul que estava com uma lanterna.

Nas próximas sequências vemos outros três personagens (o repórter de TV Luke – Hayden Christensen – a fisioterapeuta Rosemary – Thandie Newton – e o quase órfão James – Jacob Latimore) que sobrevivem em refúgios de luz enquanto todos vão desaparecendo ao redor. Os dias estão ficando mais curtos e a escuridão mais longa. Logo percebem que há em meio à escuridão  vozes e vultos ameaçadores, seres de origem desconhecida à espera de que as luzem se apaguem para sumirem com as pessoas desse mundo.

Os sobreviventes irão se refugiar em um bar, cuja luz é mantida por um precário gerador que está à beira da pane total. Enquanto tentam encontrar uma explicação para o estranho fenômeno e traçar uma estratégia de fuga, na escuridão os vultos parecem esperar que as luzes finalmente se apaguem para também atacar o grupo.

O filme “Mistério da Rua 7” é inspirado em um incidente histórico do início da colonização norte-americana: o misterioso desaparecimento de 113 colonos na ilha de Roanoke (hoje parte da Carolina do Norte) em 1587. Nenhuma pista sobre o paradeiro dos colonos foi encontrada, a não ser a inscrição “Croatoan” em uma árvore. Stephen King também se inspirou nesse histórico episódio para escrever o livro “A Tempestade do Século” onde ficcionalmente sugere que todos os colonos foram levados por um demônio devido aos pecados. 

Segundo as lendas, a inscrição “Croatoan” seria a designação de uma entidade demoníaca indígena. E é nessa lenda que se baseia o filme “Mistério da Rua 7”: demônios surgem em plena Detroit do século XXI para punir a humanidade.

O maniqueísmo puritano, presente no início da colonização dos Estados Unidos, tem uma presença forte nesse filme. Tal como em “A Tempestade do Século” de Stephen King, cada personagem é punido em virtude dos seus pecados.

Paul, o projecionista, é punido por disseminar a ilusão dos clichês do cinema (ironia metalinguística do filme), Rosemary , carregada de culpa por suposta negligência com sua filha (para complicar ainda é fumante – ela acende o cigarro exatamente no momento em que todos começam a desaparecer!), o repórter de TV Luke sente-se culpado por ter largado sua namorada para se dedicar totalmente à profissão (ao lado da ilusão do cinema, a ilusão da TV). E todos ali, buscando proteção em um bar, lugar de vícios e pecados.

E no meio dos “pecadores”, o menino James que acredita que sua mãe está refugiada na Igreja. Se em Stephen King há ambiguidade e discussão em torna das noções de pecado e culpa, aqui nesse filme as coisas são bem claras e marcadas dentro de um maniqueísmo puritano: sombras versus luz; os adultos atormentados pelo pecado e culpa e as crianças inocentes que buscam a redenção na Igreja da Rua 7; as luzes produzidas por baterias químicas e geradores de óleo diesel (energias “sujas”) versus luzes produzidas por energias “limpas” (lanternas de bateria solar e as velas da Igreja para onde as crianças da narrativa vão se refugiar.

É nesse ponto que o filme “Mistério da Rua 7” faz um surpreendente encontro entre o discurso religioso e o pensamento ecologicamente correto. Tudo está ocorrendo na cidade de Detroit  (cidade símbolo da indústria automobilística). As crianças sobreviventes ao final vão encontrar refúgio na Igreja, munidas de lanternas com células solares. E, por trás de tudo, a lenda de demônios indígenas, como se eles estivessem punindo uma civilização que, além de ter usurpado suas terras, impuseram uma sociedade baseada na ilusão (cinema e TV), pecados e tecnologias “sujas”.

Quebra-da-Ordem-e-Retorno-a-Ordem

Mistério da Rua 7 é mais uma variação do velho esquema narrativo e moralista hollywoodiano: quem transgride a ordem (moral, política social etc.) ou tem desejos ou sonhos potencialmente transgressores é punido. Desde que Hollywood viu o fim do anárquico cinema mudo (“slapstick”) onde os heróis como Chaplin, Harold Loyd e Buster Keaton desafiavam a ordem institucional americana, a produção cinematográfica sofreu um enquadramento político-moral.

Teoria Gaia: a “Mãe Terra” vinga-se da humanidade.
Eologia como base do novo fundamentalismo moral
Não importa o gênero, desde os filmes de terror (onde o monstro ou serial killer assassina primeiro jovens que fazem sexo, consomem drogas ou, simplesmente, desobedecem os pais), passando por road movies (como em Sem Destino  Easy Rider, 1969 – ou Thelma e Louise  Thelma e Louise, 1991 – onde os protagonistas morrem após romperem a ordem) até os filmes policiais ou de ação (onde o happy end, diferente dos filmes slapstick, é moralista com o herói restabelecendo a ordem política e social), temos diversas variantes dessa fantasia clichê única.

Mas em “Mistério da Rua 7” temos uma novidade: a entrada do discurso ecológico como uma nova base moderna para o fundamentalismo moral. O subgênero cinematográfico com temas apocalípticos parece adotar a temática ecológica para criar um novo tipo de moralismo onde todas as catástrofes do planeta (tsunamis, terremotos, nova era glacial etc.) seriam decorrentes dos pecados humanos. Tecnologias “sujas” (química-industrial) como decorrência direta da mentalidade suja e decadente da humanidade. O fundamentalismo ecológico encontra-se com o puritanismo moral.

O “Mistério da Rua 7” e a Teoria Gaia

Os demônios indígenas que se vingam da humanidade sugeridos pelo filme “Mistério da Rua 7” são uma encarnação da Hipótese de Gaia, teoria biogeoquímica de que o planeta Terra seria um complexo integrado (atmosfera, hidrosfera, critosfera e litosfera) que, ao criar um sistema interagente, cria condições para sua própria sobrevivência. Portanto, as  catástrofes ecológicas seriam respostas do planeta contra a ação desestabilizadora humana para criar novas formas de equilíbrio (homeostase). Em outras palavras, o planeta vinga-se do ser humano que pode ser eliminado por um sistema imunológico planetário!

A Teoria Gaia encontra simpatizantes principalmente entre grupos ecológicos e místicos. O resultado é a criação de um novo moralismo cujas bases religiosas ou puritanas tradicionais são renovadas pelo moderno e descolado discurso ecologicamente correto.

Hollywood vai abraçar essa nova tendência (visível em filmes apocalípticos como “O Dia Depois de Amanhã”(2004) ou “O Livro de Eli” (2010) – analisado neste Blog) que dá uma roupagem moderna e politicamente correta a uma velha fantasia-clichê.

Ficha Técnica
  • Título: Mistério da Rua 7 (Vanishing on 7th Street)
  • Diretor: Brad Anderson
  • Roteiro: Anthony Jaswinsky
  • Elenco: Hayden Christensen, Thandie Newton, John Leguizamo
  • Produção: Herrick Entertainment e Mandalay Vision
  • Distribuição: Latinamerican Theatrical Group
  • Ano: 2010
  • País: EUA




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Wilson Ferreira
Wilson Ferreirahttps://revistaforum.com.br/cinegnose
Mestre em Comunição Contemporânea (Análises em Imagem e Som). Jornalista e professor na Universidade Anhembi Morumbi nas áreas de Estudos da Semiótica e Linguagem Audiovisual. Pesquisador e escritor, co-autor do "Dicionário de Comunicação" pela editora Paulus, organizado pelo Prof. Dr. Ciro Marcondes Filho e autor dos livros "O Caos Semiótico" e "Cinegnose – a recorrência de elementos gnósticos na produção cinematográfica" pela Editora Livrus.