Sophia e a Gnose são derrotados pelo Clichê no filme “Sonhando Acordado”

Tom de falso documentário, sonhos como uma realidade paralela, frases com filosofias gnósticas e a personagem mítica de Sophia interpretada por Penélope Cruz nos fazem pensar estarmos diante de um novo Vanilla Sky, ou seja, um filme gnóstico e crítico. Engano! Todos esses elementos de fantasia presentes nesta comédia romântica servem para, além de sintonizar […]

Tom de falso documentário, sonhos como uma realidade paralela, frases com filosofias gnósticas e a personagem mítica de Sophia interpretada por Penélope Cruz nos fazem pensar estarmos diante de um novo Vanilla Sky, ou seja, um filme gnóstico e crítico. Engano! Todos esses elementos de fantasia presentes nesta comédia romântica servem para, além de sintonizar o filme com a agenda tecnognóstica vigente em Hollywood, aprisionar os potenciais elementos transcendentes e críticos no velho clichê da “quebra-da-ordem-e-retorno-à-ordem”.

Gary (Martin Freeman) é um músico talentoso, porém frustrado por fazer jingles para campanhas publicitárias. No passado foi músico de rock pop, até a banda acabar e ver seu parceiro de composições de sucesso (Paul – Simon Pegg) se tornar bem sucedido financeiramente no campo da Publicidade, enquanto ele se deprime numa atividade profissional frustrante e sua vida conjugal cada vez pior, vítima da sua melancolia e depressão crescentes.
Sua rotina é cinzenta e monótona numa fria Nova York, ao lado da sua esposa Dora (Gwyneth Paltrow), que cada vez mais o critica pela sua incapacidade de reagir e procurar um trabalho mais rentável. “Eu te amo”… “Eu também te amo”. É o “boa noite” protocolar do casal antes de dormir, cada um virado de um lado na cama. Tédio e nada de sexo. De repente Gary começa a ter sonhos recorrentes com uma atraente e misteriosa mulher: Anna (Penélope Cruz). Ao contrário de Dora, Anna é compreensiva, apoia seu talento musical e… quer fazer sexo com ele. Ela é, literalmente, a mulher dos seus sonhos.

Gary procura um especialista em sonhos chamado Mel (Danny De Vito, uma espécie de “guru” que ministra cursos sobre “sonhos lúcidos” enquanto sobrevive trabalhando como lixeiro e garçom) que lhe dá técnicas para entender, prolongar e controlar esses sonhos. Gary só quer dormir, para encontrar com Anna. Seu desinteresse pela vida torna-se cada vez maior, chegando a forrar o apartamento com isolantes acústicos para não ser despertado.

Até que, um dia, encontra o rosto de Anna estampado em busdoors em vários pontos de Nova York. Na verdade Anna na vida real era uma modelo publicitária chamada Melodia. Agressiva e superficial , era exatamente o oposto da Anna dos sonhos.

O tema do filme “Sonhando Acordado” (The Good Night, 2007) interessou esse blog por ser mais uma evidência da agenda tecnognóstica na atual produção cinematográfica norte-americana, tendência de roteiros que abordam a mente, percepção, memória, sonhos e subconsciente sob um enfoque neurocientífico (veja postagens anteriores nos links abaixo). A presença de Penélope Cruz como personagem de um sonho e as técnicas de “sonhos lúcidos” de Mel nos fazem lembrar do gnóstico filme Vanilla Sky (talvez o primeiro filme a inaugurar essa agenda tecnognóstica em Hollywood), porém de forma invertida: enquanto Gary quer fugir da realidade para os sonhos porque sua vida é miserável, em Vanilla Sky o protagonista não sabia que vivia em um sonho lúcido.

No início do filme, tudo parece fazer crer que estamos diante de um filme gnóstico crítico. A narrativa começa em tom de falso documentário (experimentalismos narrativos como em Show de Truman?); o protagonista começa a ter uma vida paralela nos sonhos que passam a fazer um diálogo crítico com a vida real; as linhas de diálogo de Anna têm diversas máximas gnósticas (“tudo que precisa para ter sucesso já está dentro de você”, fala para Gary, numa alusão ao princípio gnóstico da fé não em Deus, mas em si mesmo).

Como em Vanilla Sky, mais uma vez Penélope Cruz parece encarnar o personagem mítico de Sophia, o aeon que vai despertar no homem a fagulha da Luz interior (gnose) para conectá-lo de volta à Plenitude (o Pleroma).

Uauuu! Um filme gnóstico crítico tal como o homônimo “Sonhando Acordado” (La Science des Rêves, 2006) para fazer contra-ponto à agenda tecnognóstica? Os sonhos vencendo a realidade? Puro engano. Como estreia do diretor Jake Paltrow em filmes longa metragem (foi diretor de séries televisivas como “The Others” e “NYPD Blue”), segue à risca a fórmula de narrativa clichê das comédias românticas (talvez o gênero mais conformista).

Quebra-da-ordem-e-retorno-à-ordem

“Sonhando Acordado” é uma comédia romântica sobre casamentos falidos e traições com elementos gnósticos de fantasia. Esses elementos gnósticos criam a tensão por transcendência no protagonista: achar sentido no mundo cinzento e tedioso, onde, profissionalmente é obrigado a reprimir seu talento artístico para fazer músicas ruins para jingles publicitários. Os diálogos gnósticos de Gary nos sonhos apontam para a transcendência. Mas, a narrativa clichê reduz todos esses elementos ao mero escapismo.

O filme aplica a velha narrativa clichê da “quebra-da-ordem-e-retorno-a-ordem”: sonhos e fantasias do protagonista (e do próprio espectador) são levados a um ponto de tensão limite para, depois, serem abatidos e retornarem ao trilho da ordem que deu início ao filme. Como na maioria dos filmes dentro do gênero comédia romântica explora as mazelas do cotidiano conjugal, amoroso e profissional. Rotina e tédio de um lado e fantasias escapistas do outro (amantes secretas, pets que nos ensinam “lições de vida” etc.) criam uma tensão que sugerem a possibilidade da ordem (familiar, social, política etc) ser questionada e quebrada.

(SPOILERS A PARTIR DESSE PONTO) Gary tem um casamento e emprego que são fontes de desilusão e sofrimento. Os sonhos com sacadas gnósticas criam a possibilidade de transcendência e gnose. Mas, no final, após Gary sofrer um grave acidente é obrigado a fazer uma escolha decisiva dentro do sonho entre sua esposa Dora e Anna, em um casaco de visón, parada diante do mar. Gary escolhe voltar com Dora. Corte seco e vemos, depois, Gary numa cama de hospital dormindo sendo observado pelo olhar costumeiramente entediado de Dora.

O grave atropelamento do protagonista próximo ao final (quando tenta fazer uma “mea culpa” com Dora) parece ser a punição por tentar quebrar a ordem ao longo do filme. Todas as frases e sacadas gnósticas são resumidas a meras fantasias escapistas. O guru Mel (que no início parece ser um ex-beatnik, um herético que ensina técnicas para os sonhos vencerem a realidade) transforma-se num bem sucedido autor de livro de auto-ajuda. Tudo retorna à ordem, as luzes do cinema podem ser acesas e o espectador voltar à sua vida como se nada tivesse acontecido.

Como vimos em postagem anteriora, esse esquema tem sua origem a partir da ascensão das classes médias ao cinema na década de 30 do século XX. Os filmes musicais o seu “lócus” inicial. Ao contrário dos anárquicos filmes mudos ou “slapsticks” onde nada retorna à ordem, os musicais foram filmes feitos para as classes médias que chegavam ao cinema, essencialmente conservadoras e que forçaram um enquadramento moral e ideológico de Hollywood.

A quebra e retorno da ordem atende a um princípio secreto e paradoxal do público: excesso de felicidade incomoda o público. As fantasias devem ser liberadas nos meios de comunicação até um limite socialmente condicionado para, em seguida, serem abatidas pelo princípio de realidade.

Segundo estudo sobre o público, realizado nos anos 70 na Alemanha (veja em MARCONDES FILHO, Ciro. Dieter Prokop, Coleção Grandes Cientistas Sociais, São Paulo: Ática), a integração dos sistemas de trabalho desencadeia nos setores médios da população o medo de desequilíbrio e de perda do senso. Na atualidade, essa tendência se radicaliza com as constantes mudanças gerenciais e administrativas nas empresas em decorrência da instabilidade dos cenários globalizados.

Por um lado, os receptores querem sentir se renovados, enriquecidos, transformados e, ao mesmo tempo, mais seguros de si em cada forma de lazer que participam. Por outro lado, o controle do princípio de realidade exige a necessidade da preservação da identidade, do rigoroso cumprimento dos deveres e obrigações. As pessoas gostariam de ser arrancadas das atividades enfadonhas do trabalho, porém, sabem que precisam delas para sobreviver e garantir a segurança material e a tranqüilidade psíquica.

A solução é esse clichê de “quebra-da-ordem-e-retorno-à-ordem”: sair do cinema com a sensação de ter tido uma experiência enriquecedora culural e espiritualmente (pelos elementos gnósticos de fantasia) e, ao mesmo tempo, conformado e psiquicamente equilibrado por ter presenciado, mais uma vez, a lição de que sempre quem quebra a ordem será punido e que num mundo justo devemos substituir o desejável pelo possível.

É como, ao final, declara em tom conformista o ex-integrante da banda de Gary: “É preciso ter um sonho. É como a ponta do arco-íris com o pote de ouro. Não existe… mas é bom acreditar porque te dá uma direção.” Da natureza onírica e transcendente, o sonho é reduzido à dimensão motivacional para você ser bem sucedido na vida.

Ficha Técnica

  • Título: Sonhando Acordado (The Good Night)
  • Diretor: Jake Paltrow
  • Roteiro: Jake Paltrow
  • Elenco: Martin Freeman, Gwyneth Paltrow, Danny DeVito, Simon Pegg, Penélope Cruz.
  • Produção: Good Night Productions, Destination Films.
  • Distribuição: Inferno Distribution (cinema), Sonny Pictures (DVD).
  • País: EUA/Reino Unido
  • Ano: 2007



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Wilson Ferreira

Mestre em Comunição Contemporânea (Análises em Imagem e Som). Jornalista e professor na Universidade Anhembi Morumbi nas áreas de Estudos da Semiótica e Linguagem Audiovisual. Pesquisador e escritor, co-autor do "Dicionário de Comunicação" pela editora Paulus, organizado pelo Prof. Dr. Ciro Marcondes Filho e autor dos livros "O Caos Semiótico" e "Cinegnose – a recorrência de elementos gnósticos na produção cinematográfica" pela Editora Livrus.

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