Cinegnose

por Wilson Ferreira

Entrevista exclusiva com Lula
15 de setembro de 2015, 10h21

Toda mulher é uma diva, e todo homem é “diva-gar”

Se Freud estiver correto de que o chiste, o humor e o riso são formas de lidar com o mal estar, como interpretar as queixas contra o novo filme publicitário da Bombril por causa do trocadilho sobre “divas” e “vagarosidade” na criação da campanha”? Se toda peça audiovisual é sintoma de uma época, o que nos dizem as garotas-propaganda Ivete Sangalo, Dani Calabresa e Monica Iozzi? A piada sobre uma suposta “vagarosidade” masculina é mais uma tática para combater o irônico destino do feminismo: a descoberta do “impoder” masculino. O homem não só deixou de ser o vilão da interdição do gozo e da liberdade feminina como também transformou-se no próprio destino das mulheres livres: ser tão frágil e impotente como o homem sempre foi.

“Todo riso está muito próximo do horror que o prepara”, disse uma vez o filósofo alemão Theodor Adorno sobre as secretas conexões entre o humor e a tragédia. E se ainda vemos o humor combinado com uma peça audiovisual de criação publicitária, então estamos diante de um verdadeiro documento histórico sobre a sensibilidade de uma época.

No caso da nova propaganda da Bombril investigada pelo órgão de autorregulamentação publicitária (o Conar), o comercial veiculado pela TV transformou-se em um verdadeiro sintoma das relações atuais entre os gêneros feminino e masculino.

A campanha está sendo investigada pelo Conar a partir de queixas de que o mote da criação é uma “discriminação de gênero” e “uma ofensa à figura masculina”.

No comercial as garotas-propaganda da marca (a cantora Ivete Sangalo, a humorista Dani Calabresa e a apresentadora Monica Iozzi) dizem que “toda mulher é uma diva. A gente arrasa no trabalho, faz sucesso o dia todo e ainda deixa a casa brilhando”, afirma Ivete. Na sequência, Dani Calabresa arremata: “Toda mulher é uma diva, e todo homem é diva-gar [devagar]”.

E para complicar, a campanha da Bombril conseguiu ainda arrancar críticas das próprias mulheres, classificando-a como “machista” por supostamente reforçar a imagem de que a mulher é quem cuida da casa.

 Certamente, o aforismo supracitado de Adorno baseou-se na visão freudiana das relações entre o chiste, o humor e o riso como formas efetivas de se lidar com o mal-estar. Se isso for verdade, poderíamos perguntar: de qual mal estar esse trocadilho (“diva” e “diva-gar”) é sintoma? Essa peça audiovisual é um documento histórico que expressa qual sensibilidade da nossa época?

Em primeiro lugar, o trocadilho é inspirado nas piadas femininas sobre uma suposta limitação cognitiva masculina – somos incapazes de fazer mais de uma coisa ao mesmo tempo, usamos apenas o lado direito do cérebro é funcional e, de quebra, ainda somos acomodados e preguiçosos em uma relação etc.

O “impoder” masculino

Mas essa “decepção” feminina em relação aos homens é um sintoma de um movimento cultural ainda mais profundo: o paradoxal êxito dos movimentos de emancipação feminina ao longo do século XX resultou na descoberta da fragilidade do masculino.

Não mais protestos contra o poder do homem e o falocentrismo de uma sociedade baseada na figura masculina poderosa, mas agora um ressentimento das mulheres contra uma espécie de “impoder” masculino.

Se no passado o feminismo tradicional mirava o masculino triunfante e seus ícones de poder (o voto, a calça comprida, o cigarro, o charuto, o carro, o poder político etc.), agora é alimentado pelo ódio e ressentimento diante da descoberta que, no final, o homem é frágil e tão vítima quanto ela.

Se as mulheres eram despojadas das prerrogativas e privilégios do masculino (e toda a luta épica do feminismo foi pela reversão disso), posteriormente descobriram que tornaram-se igualmente exploradas pelo mercado de trabalho e pelas corporações. No final, descobriram que toda luta foi pelo “privilégio” de serem igualmente valorizadas como alvo da exploração – como consumidoras, como eleitoras, como mão de obra barata no mercado.

A mulher não é mais alienada pelo homem, mas repentinamente foi despojada da figura do masculino. De repente, o inimigo desapareceu na descoberta da sua fragilidade e de que, assim como o homem, as mulheres fracassam na busca de transformação ou mudança de uma sociedade.

A função simbólica do assédio

Esse ressentimento diante da figura fracassada do masculino se exprime contraditoriamente no fantasma do assédio sexual.

O surgimento do fantasma do assédio e do estupro (que vira pauta midiática e campanhas de conscientização e denúncias) assume uma função simbólica de criar uma nova interdição sexual, uma tentativa de reerguer a figura do masculino, mesmo que seja no campo da brutalidade, animalidade e selvageria.

Transformar novamente o homem em um oponente forte, poderoso e ameaçador como fosse ainda um personagem que dá as cartas do jogo, contra quem as mulheres ainda podem se rebelar.

É claro que o assédio sexual é muito mas do que um fantasma, mas uma realidade cotidiana e incômoda para muitas mulheres por questões sócio-culturais ou urbanas – talvez uma formação reativa da própria fragilidade da qual os homens se ressentem. Mas também sabemos que quando a mídia agenda determinado tema, é porque este se reveste de uma oportunidade ideológica para reforçar outras agendas e pautas – como a do ressentimento feminino e da fragilidade do masculino, atual mote de muitas táticas de propaganda como a da campanha da Bombril em questão.

O “impoder” dos pais

O mal estar do feminismo diante da descoberta do “impoder” do masculino somente se equipara ao ressentimento dos filhos contra os pais que não querem mais assumir o papel de pais.

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