quarta-feira, 23 set 2020
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“Tron: O Legado”: simbologias alquímicas e gnósticas esvaziadas pelos Estúdios Disney

“Tron: O Legado” (Tron: Legacy, 2010) é mais um exemplo do conservadorismo dos Estúdios Disney. Se em “Tron” de 1982, uma das primeiras representações cinematográficas do mundo digital, tinhamos uma abordagem heróica e contestadora de uma ciberutopia que desafiava as grandes corporações computacionais, nessa continuação temos um enfraquecimento desse ímpeto. Todos os elementos místicos e gnósticos que motivavam essa ciberutopia esboçados há 28 anos com “Tron”, são até ressaltados e mais desenvolvidos nessa continuação atual. Porém, são representados de forma esvaziada e submetidos à ideologia que o primeiro “Tron” tanto combatia.

Ao assistirmos a essa continuação do clássico filme de ficção científica “Tron: Uma Odisséia Eletrônica” (1982) temos a sensação de uma atmosfera de final de festa. Comparado com o primeiro Tron de 28 anos atrás (expressão de uma cibercultura emergente em tons épicos e heroicos), “Tron, O Legado” parece ser um réquiem para toda uma ciberutopia. Se na década de 80 o protagonista Flynn lutava pela liberdade do servidor da empresa ENCOM contra a tirania do PCM (Master Control Program – que expressava a luta pela liberdade dos primeiros PCs feitos em garagens contra os gigantescos main frames corporativos), aqui nessa continuação Flynn se confronta contra seu próprio avatar, numa jornada sem mais tons épicos, mas, agora, numa narrativa solipsista e introspectiva.

Para começar, como os próprios produtores adiantaram, o plot principal da estória é o reencontro de um pai com o seu filho após duas décadas.


Após sobreviver ao PCM no filme de 1982 e libertar os servidores da ENCOM, o engenheiro de vídeo games Kevin Flynn (Jeff Bridges nas duas versões) torna a companhia milionária. Mas, secretamente, num laboratório subterrâneo em seu fliperama, continua fazendo experiências de teletransporte quântico para o mundo digital, até ficar preso dentro dele em 1989.

Flynn era movido por uma ciberutopia tecnognóstica, isto é, por uma visão ao mesmo tempo messiânica e mística da tecnologia: “Uma fronteira digital que irá reformular a condição humana. Lá dentro [do computador] está o novo mundo, o nosso futuro!”. Flynn pesquisava o que hoje seria a pedra filosofal da história da tecnologia: a interface final entre o reino eletrônico e o biológico, a conexão física ou neuronal entre o usuário e as redes eletrônicas, de tal sorte que os próprios avatares ou programas se tornem entidades vivas, sencientes, autônomas.

Em busca dessa perfeição, o programador Fynn cria CLU, seu avatar para auxiliá-lo no projeto de construir uma rede perfeita. Mas, na melhor tradição das histórias clássicas sobre Criador/Criatura, Flynn sofre um “golpe de estado”: CLU reprograma Tron e o transforma numa máquina de guerra com o propósito de roubar o disco de luz de Flynn, a verdadeira chave-mestra com informações que possibilitaria a CLU se materializar junto com seus semelhantes e ter acesso à Terra. O objetivo claro é mais poder e dominação. Flynn, o Criador, acaba prisioneiro em um mundo subjugado pelo seu próprio avatar.

Ainda comparando com a versão de Tron de 1982, se lá Kevin Flynn é um rebelde com causa (a luta pela liberdade das informações, sem controles ou hierarquias), aqui na continuação seu filho, Sam Flynn, é um órfão rebelde sem causa que se limita a hackear a própria empresa herdada do pai desaparecido. Ele se recusa a assumir o legado da ENCOM, fugindo de moto a 140 km/h.

Sam acaba indo ao fliperama abandonado do pai e descobrindo, atrás do arcade Tron, o laboratório secreto de Kevin Flynn. Sem querer é também digitalizado e transposto para o interior do mundo digital, onde reencontrará seu pai e, com a ajuda de Quorra (Olivia Wilde), vão combater os desígnios tirânicos de CLU.

Alquimia no mundo digital

Como uma produção da Walt Disney Studios, ou seja, um típico produto do mainstream da indústria do entretenimento, é de esperar o conservadorismo da abordagem de muitos temas potencialmente críticos. Basta tomarmos o recente exemplo de “Alice no País das Maravilhas” de Tim Burton produzido pelos Estúdios Disney, numa releitura conservadora do destino de Alice (de crítica à moralidade vitoriana em Carroll à empresária empreendedora na versão Disney – veja links abaixo).

O que estava apenas esboçado na primeira versão, aqui em “Tron, O Legado” os elementos do gnosticismo alquímico estão explícitos. Mas, nessa continuação dos estúdios Disney, esses elementos alquímicos críticos e transcendentes são reprimidos.

Muitos autores como Victoria Nelson (“The Secret Life of Puppets”) e Erick Davis (“Techgnosis – Myth, Magic and Mysticism in the Age of Information”) veem na busca atual das pesquisas em torno da última interface tecnológica biológica/eletrônica (avatares, Inteligência Artificial, nanotecnologia etc.) a motivação alquímica da chamada “Teurgia”.

O que é Teurgia? Platão falava em um ser chamado Demiurgo, criador do mundo visível, personagem largamente usado na antiguidade para explicar a origem da alma humana a partir de uma forma Divina e Original: Anthropos. Do Mundo das Formas Anthropos desceu ao mundo material, originando o homem.

Apesar de ser uma forma inferior, o ser humano teria dentro de si fagulhas divinas da sua origem (Anthropos). Portanto, objetivo da sua existência seria galgar os degraus que o façam retornar às suas origens divinas. Nós, humanos, não passaríamos de simulacros do Humano Primal, assim como o mundo dos nossos sentidos é um simulacro do Mundo das Formas. Através do autoconhecimento ou gnose poderíamos então retornar à Luz é à vida eterna possuída por Antropos, esse humano essencial.

A Teurgia surge no mundo helenístico como a primeira forma de alcançar isso através da manipulação da matéria onde, assim como o Demiurgo, podemos dar vida e alma a uma forma material e inferior. Se temos dentro de nós uma parte desse Anthropos, podemos retornar a ele exercendo as mesmas habilidades reservada aos deuses: imitatio dei por generatio animae, imitar Deus criando vida.

Retornando ao filme, por trás da ciberutopia de Flynn esconde-se essa motivação mística ou gnóstica: imitar Deus criando avatares ou entidades digitais, as tornado inteligentes e autônomas. No mundo digital, os usuários são vistos como “os criadores”, deuses ou demiurgos contra os quais CLU se rebela, assim como no mundo físico o homem se rebela contra seu deus.

O ateísmo de CLU corresponde ao ateísmo científico de Flynn em querer se equiparar a Deus. Ambos serão punidos pelo conservadorismo dos Estúdios Disney: morrem abraçados, destruindo todo o mundo digital e livrando a Terra de uma possível infecção ateísta digital.

E para quê imitar Deus a partir de processos alquímicos como a Teurgia? Para encontrar nesse Anthropos artificialmente criado a fagulha divina que nos faça reencontrar nossas origens na Plenitude. Mas em “Tron, O Legado” Flynn encontra apenas em CLU o seu próprio espelho: a busca pela perfeição trouxe apenas solipsismo: um mundo fechado, autocentrado que, na prática, resultou em tirania de um ego blindado.

Na segunda versão a ousadia de Kevin Flynn iniciada há 28 anos é punida pela sua pretensão alquímica. Temos a reedição do velho clichê hollywoodiano: o cientista louco destruído pela sua criatura. Quem desafia a ordem (no caso aqui, cósmica) deve ser punido. Sua experiência alquímica é ateia e perigosa.

O “casamento alquímico” em Tron

O processo final da alquimia é o chamado “casamento alquímico”. O processo alquímico clássico envolve a dissolução de elementos até o caos para, por meio desse estado, separar massas indiferenciadas em espírito e matéria, unindo essas oposições em uma espécie de casamento alquímico – do qual surge a pedra filosofal.
No filme, a experiência digital de Flynn resulta numa descoberta inesperada: os “algoritmos isomórficos” (ISOs), “uma inteligência superior a nossa. Surgiram como flores no deserto. Profundamente ingênuas. Inimaginavelmente sábias”, diz Flynn. Ele chegou ao ponto final da Alquimia: do caos surge Anthropos, o Homem Primal, puro, ainda não corrompido, a origem de toda a humanidade. No filme representado por Quorra, a mulher que é o último remanescente da espécie, a “pedra filosofal”.

É o momento de verdade da narrativa para, ao final, terminar no também velho clichê que permeia as produções dos estúdios Disney: o culto ao empresário empreendendor, a vitória do management e da corporação sobre qualquer pretensão mais transcendente ou metafísica.

Da mesma forma que em “Alice no País das Maravilhas” de Tim Burton, em “Tron: O Legado” o jovem Sam Flynn retorna ao mundo físico com Quorra e uma missão: agora, retomar o controle da ENCOM. Todo o sentido místico e até religioso da jornada pelo mundo digital é esvaziado. Tudo apenas serviu para Sam descobrir a si mesmo e deixar de ser um rebelde sem causa e deixar de sabotar a própria empresa. Ele se tornará o novo CEO da ENCOM e, tendo a sabedoria da Quorra a seu lado, direcionará todo o novo conhecimento ao mundo dos negócios.

A jornada de Sam Flynn e o reencontro com seu pai num outro mundo para nada mais transcendente ou espiritual serviu do que o herói ter encontrado a sua ”pedra filosofal” para o mundo dos negócios.

Ficha Técnica
  • Título: Tron: Legacy
  • Diretor: Joseph Kosinki
  • Roteiro: Edward Kitsis e Adam Horowitz
  • Elenco: Jeff Bridges, Garret Hedlund, Olivia Wilde
  • Produção: Walt Disney Studios Motion Pictures, LivePlanet
  • Distribuição: Walt Disney Studios Motion Picture
  • Ano: 2010
  • País: EUA



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Wilson Ferreira
Wilson Ferreirahttps://revistaforum.com.br/cinegnose
Mestre em Comunição Contemporânea (Análises em Imagem e Som). Jornalista e professor na Universidade Anhembi Morumbi nas áreas de Estudos da Semiótica e Linguagem Audiovisual. Pesquisador e escritor, co-autor do "Dicionário de Comunicação" pela editora Paulus, organizado pelo Prof. Dr. Ciro Marcondes Filho e autor dos livros "O Caos Semiótico" e "Cinegnose – a recorrência de elementos gnósticos na produção cinematográfica" pela Editora Livrus.