Cinegnose

por Wilson Ferreira

23 de julho de 2015, 11h38

“Uma Aventura Lego” faz evangelho gnóstico pop

Por trás da inocência de uma animação infantil podem estar antigas mitologias que ainda repercutem em nossos corações e mentes. “Uma Aventura Lego” (“The Lego Movie”, 2014) já foi interpretado como uma grande comercial de 100 minutos do brinquedo Lego ou uma sátira metalinguística da cultura pop atual que faz uma mistura maluca de “Matrix”, “Toy Story” e “Os Simpsons”. Mas na verdade é um evento religioso: um evangelho gnóstico pop onde é apresentada uma crítica mordaz às noções de Verdade, Deus e Salvação. Um tirano controla todos os mundos Lego passando-se como o único construtor daquele universo. Mas a resistência secreta formada pelos “mestres construtores” sabe que “o cara lá de cima” enviará um Salvador: Emmet, um operário comum com a cabeça tão vazia que, somente ele com seu “silêncio” interior, poderá ouvir a voz da Verdade.

Com as férias escolares esse humilde blogueiro tem a oportunidade de acompanhar os filhos ao cinema e exposições assistindo a uma série de curtas e animações, como os leitores devem já ter percebido nas últimas postagens do Cinegnose. E assistindo a esse conjunto de audiovisuais não dá para passar despercebido como cada vez mais produções atuais voltadas, a princípio, para o público infanto-juvenil  são baseadas em argumentos filosóficos e/ou místicos.

Uma Aventura Lego (The Lego Movie, 2014) é mais um exemplo desse mix de entretenimento com viés gnóstico que, de início, parece ao espectador como alguma coisa entre o non-sense e o surreal. A melhor primeira impressão que a animação pode passar foi dada por Susan Wlosczyna no site de crítica de cinema Roger Ebert. com:  “imagine Toy Story feito por Mel Brooks depois de comer cogumelos mágicos enquanto lia 1984 de George Orwell”.

Essa surreal animação digital em 3D pode ser interpretada inicialmente de duas formas: ou é um gigantesco comercial  de 100 minutos dos blocos de montar Lego, ou então uma brincadeira metalinguística da atual cena pop cultural da qual o brinquedo Lego faz parte, assim como grandes ícones como super-heróis, Coca-Cola, filmes de faroeste, Starwars etc.

Mas há algo mais: Uma Aventura Lego faz uma sátira subversiva sobre a alienação resultante do conformismo e a submissão a rígidos papeis sociais, exaltando o poder da imaginação e da individualidade. Mas uma animação de 100 minutos não consegue ser bem sucedida apenas com boas gags, perseguições de carros e naves espaciais em estilo slapstick e alusões constantes a ícones da cultura pop.

Longas, curtas e animações devem também explorar antigas simbologias e mitologias para terem algo a dizer aos nossos corações e mentes.  E no caso de Uma Aventura Lego, além da sátira sociológica o filme está carregando de relevantes temas gnósticos, mas principalmente a cosmologia gnóstica e a gnose.

Seguindo a comparação com Toy Story sugerida acima, podemos dizer que se na animação da Pixar os brinquedos já possuem o conhecimento da sua condição de terem um dono, em Uma Aventura Lego acompanhamos o lento despertar da autoconsciência dos bonecos legos: o despertar da gnose que levará à descoberta da existência “do cara lá de cima”, a quem constantemente se referem os personagens.

O Filme

Um velho profeta sábio chamado Vitruvius (Morgan Freeman) é derrotado por um vilão com interesses corporativos chamo Sr. Negócios (Will Ferrell), que lhe toma a super-arma do mal chamada Kragle (na verdade um tubo de cola). O vilão planeja literalmente colar todas as peças para que a espontaneidade e a individualidade não estraguem a sua criação, os diversos mundos construído com blocos Lego – Cidadópolis, Velho Oeste, Zelândia Média, Terra dos Vikings, Piratas, Cavaleiros etc. Mas antes da derrota Vitruvius anuncia uma profecia: um dia aparecerá o “Especial”, aquele que libertará todos os mundos Lego da tirania.

E o Salvador Especial é Emmet, um boneco operário comum da construção civil que tem nos manuais de instruções as regras claras que deve seguir para que tudo funcione perfeitamente: os carros estacionem ao mesmo tempo, todos se cumprimentem com um sorriso no rosto, um mesmo episódio de série de TV seja repetido diariamente e continue tendo graça e assim por diante.

Emmet não sabe que é o Especial, mas no final de mais um dia igual a todos conhecerá Megaestilo (Elizabeth Banks), militante dos “mestres construtores” que fazem resistência ao tirano – eles querem o direito de construir livremente. Emmet fica sabendo a profecia e começa a acreditar que, afinal, apesar de limitado deve ter algum poder especial.

Em uma mistura maluca de Matrix, Toy Story e Os Simpsons, o ritmo é intenso com lutas e perseguições onde impressiona o cuidado com os detalhes – até as ondas, fumaças e nuvens são feitos em tijolinhos Lego. A técnica é animação em 3D que simula stop motion.

Na medida em que o filme avança, acumulam-se alusões de que não estamos diante de uma animação qualquer: o profeta sábio e cego; os diversos mundos onde um não sabe a existência do outro, separados por cenários com instruções estritas de não poderem ser ultrapassados; a questão sobre quem é “o cara lá de cima” que teria escolhido Emmet para ser o Salvador; o treinamento de Emmet para esvaziar sua mente (no caso dele seria mais fácil por ser praticamente um Homer Simpson) para, dentro de si, encontrar uma conexão com “o cara lá de cima”; o Sr. Negócios que supostamente teria criado tudo, mas é questionado pelos mestres construtores que acreditam que há “o cara lá de cima” superior a ele.

Lego Gnóstico? Aviso: spoilers à frente

Grosso modo, o Gnosticismo foi um conjunto de seitas e escolas iniciáticas do início da Era Cristã que se opuseram ao Cristianismo ortodoxo ao defenderem que a Salvação já estava presente no interior de cada um de nós, revelada através da gnose. Ao invés de acreditarem que o mundo foi uma construção perfeita e que nós humanos estragamos tudo por meio do livre-abrítrio (optamos pelo pecado), os gnósticos se recusavam a acreditar que o mundo era perfeito. O cosmos foi criado por um deus menor que se passa como fosse um deus verdadeiro – no Evangelho Apócrifo de Judas ele é mencionado como “Saklas”, o “tolo”. Depois de construir todo o cosmos, Saklas reivindicou ser o único e verdadeiro Deus.

Em Uma Aventura Lego, a grande revelação é que há um “cara lá de cima” (o pai e o filho – Will Ferrell e Jadon Sand – que brincam com os mundos Lego), para além do Sr. Negócios. O demiurgo construiu um mundo imperfeito onde a fim de manter a ordem nega que todos exerçam sua verdadeira criatividade. Ele é o deus contra quem lutam os “mestres construtores” (os gnósticos?) que sabem que a criatividade reprimida é a gnose que os reconectará ao “cara lá de cima”, o verdadeiro Deus.

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