Clara Averbuck

O que o brasileiro pensa?
02 de abril de 2020, 00h52

A pandemia e a catarse das massas

Pessoas presas em casa. Sobrecarregadas. Batendo panela, xigando na janela. Que bom, a água bateu na bunda e a grande ficha, ela parece estar caindo. Pessoas presas, confinadas. Mas a catarse vem de outro lugar. De outras pessoas confinadas.

Vivemos uma pandemia. Milhares de pessoas estão morrendo pelo mundo. Possivelmente isso vai ocorrer aqui, talvez já esteja ocorrendo e piore caso as pessoas sigam as recomendações do excrementíssimo presidente da república.

As pessoas estão desesperadas, com medo de morrer, medo de perder o emprego, medo de passar fome, de perder a casa, de perder a vida. Nunca, na minha vida adulta, vi tanta gente desesperada.

Pessoas presas em casa. Sobrecarregadas. Batendo panela, xigando na janela. Que bom, a água bateu na bunda e a grande ficha, ela parece estar caindo. Pessoas presas, confinadas.

Mas a catarse vem de outro lugar. De outras pessoas confinadas.

Primeiro: não assisto BBB desde que não sou mais obrigada (era meu trabalho, eu juro), mas é inevitável admitir que as atitudes “lá dentro” refletem muito do “aqui fora”, que agora também está sendo dentro, diga-se de passagem. O que eu estou vendo: feministas burguesas, “fadas sensatas” (não tem fada, gente), homens machistas e um 01 homem negro sendo massacrado pelas patricinhas brancas como se fosse um monstro, bem como quer o senso comum racista. Entre outras mil coisas. Mas a reação, gente, a catarse, eu nunca vi isso. Acho que nem nunca vivi isso.

“É POSSÍVEL que o confinamento seja uma fonte extra de ânimos exaltados e até fonte de catarse daqueles afetos que ficam mais contidos no confinamento. De certa forma, as angústias acumuladas nesse período ganham vazão quando a pessoa tem a oportunidade de gritar fora Prior”, diz o psicanalista Marcos Donizetti. “Por outro lado, o fenômeno BR é mais complexo: essa polaridade dicotômica é prévia, e baseada em identificações (incluindo na militância) que pouco têm de racional. Percebe que tudo precisa ser plano e sem nuance (O Machista x A Racista x A fada) porque assim as pessoas projetam as próprias fantasias mais facilmente e de forma “total”, completa.

Eu lembro, quando cobria esse negócio, que as torcidas eram insanas. Mas era outra época, era o primeiro governo Dilma, discussões de raça e gênero estavam apenas começando. Hoje, realmente, é outra vibe. Uma loucura, eu diria. O Bolsonaro é presidente, sabe?

“Há toda uma vertente nisso que é a dos comportamentos grupais, do pertencimento. De um lado, certa aceitação e validação num grupo chega a ser mais importante do que a bandeira manifesta desse grupo, e isso vem contribuindo bastante para a polarização. De outro, quando estou subindo tags ou fazendo uma campanha contra um participante eu estou fazendo algo com um grupo, eu me sinto parte de algo. Vale para os movimentos políticos também”, completa Donizetti.

Eu poderia discorrer sobre mil coisas. Mas só consigo concluir que a instabilidade política, morar num país governado por um tarado da ditadura e estar uma galera enfiada dentro de casa com a cara oscilando entre a televisão e o black mirror do celular está deixando todo mundo bem fora da casinha. Quer dizer, fora da casinha é onde todos gostaríamos de estar, né?


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