Clara Averbuck

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10 de fevereiro de 2020, 18h31

Oscar: A roupa também pode ser política

As mulheres que imprimiram discursos e ideais em suas vestimentas

Reprodução

O Oscar de 2020 foi uma cerimônia com algumas surpresas. Não vou dizer “cheia de surpresas” porque lá estava a nata de sempre, poucas mulheres e poucas pessoas negras, como disse Chris Rock, mas deu pra sentir uma sensível mudança. Já tem muita coisa pra criticar e muita gente com mais estofo que eu pra isso, então, vou focar em algo que me chamou atenção:

Como as mulheres estão usando a moda para se expressarem muito além do glamour dos vestidos exclusivos.

Janelle Monàe, que cantou o número de abertura junto com Billy Porter, um muso à parte, chegou com um vestido cravejado de pedras que demorou mais de 600 horas para ser bordado. No palco, vestiu calça e camisa e celebrou ser uma mulher negra e queer na abertura do Oscar.

Já a nossa Petra Costa, que levou ao mundo a nossa situação insalubre e fez espumar os bolsonaristas (e alguns não-bolsonaristas, diga-se de passagem), usou um vestido vermelho. Vermelho Petezão. Ou vermelho Netflix? É claríssimo que a escola não foi aleatória em época de “nossa bandeira jamais será vermelha” e outros delírios. A equipe de Democracia em Vertigem não levou a estatueta, mas levou a mensagem que foi, sim, ouvida. A presença da liderança indígena Sonia Guajajara e os bonés do MST fizeram até esquentar os corações amargos de Brasil. A estatueta foi para outra mulher, Julia Reichert, que dirigiu o documentário “Indústria Americana” junto com Steven Bognar e… citou uma frase do Manifesto Comunista em seu discurso.

“Os trabalhadores têm cada vez mais dificuldade hoje em dia, e acreditamos que as coisas vão melhorar quando os trabalhadores do mundo se unirem”, disse a americana, em referência à frase “trabalhadores do mundo, uni-vos”, presente na obra de Karl Marx e Friederich Engels.

Teve também a classudíssima atriz e produtora Natalie Portman, com um vestido lindíssimo que levava bordado o sobrenome das mulheres que não foram indicadas ao Oscar: Scarfaria (Hustlers) Wang (The Farewell) Gerwig (Little Women) Diop (Atlantics) Heller (A Beautiful Day in the Neighborhood) Matsoukas (Queen & Slim) Har’el (Honey Boy) Sciamma (Portrait of a Lady on Fire). Achei lindo, significativo, provocador e incômodo. Algumas pessoas acham que Natalie poderia não ter ido à premiação em protesto, mas a presença fala mais alto que a ausência. Se ela tivesse ficado em casa, talvez a discussão não tivesse, literalmente, tomado corpo.

E, pra não me estender mais, chegamos à maravilhosa Jane Fonda. A atriz sempre foi ativista, foi, nos anos 70, próxima dos Panteras Negras, tem fotos com Angela Davis em reuniões e manifestações e nunca deixou de usar sua voz e status para defender as causas que lhe são queridas. Fonda foi presa algumas vezes nos últimos tempos protestando por questões ambientais. Levou junto a colega do seriado “Grace and Frankie”, Lily Tomlin, e outras celebridades hollywoodianas, como o próprio Joaquim Phoenix, ganhador do Oscar de melhor ator. Pois essa maravilhosa, além de usar o mesmo vestido que usou na mesma premiação em 2014, levou consigo, para entregar o Oscar de melhor filme, o casaco vermelho com o qual foi fotografada em diversas das suas prisões (foi chamado nas redes de “casaquinho de ser presa”).

Como eu disse, nenhuma grande quebra, além, é claro, de um filme coreano ser o grande vencedor da noite, coisa que discutiremos mais tarde com Pablo Villaça, crítico de cinema. Mas uma mudança de discurso e de intenções que seria impensável há alguns anos.

Que venham mais pessoas que podem dar a cara a tapa usando seus privilégios. E que venham logo, ou não vai mais ter mundo pra contar a história.


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