sábado, 19 set 2020
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o sorriso do banguelo

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estou farto de faces selfies, do riso sélfico e dos dentes brancos dessa gente vaidosa sempre a fazer caretas como se esboçasse sorrisos.

como se um esgar de boca fosse sinal de felicidade.

aliás, desconfio de todos que tentam exibir sinais artificiais de felicidade.

o monge é feliz em seu silêncio, são felizes os santos contidos que curam as infelicidades alheias.

olha, vê, escuta: vivemos em tempos trevosos.

assassinam-se mulheres, estupram-se crianças, roubam-se os sonhos da juventude…

e o selfish sorri vaidoso como se nada fosse com ele.

viaja não para conhecer as pessoas que vivem no mundo, não para interagir com as alegrias e tristezas que fazem de nós outros pessoas humanas.

o selfish viaja para sacar fotografias de igrejas, prédios, torres, castelos e até de muros e muralhas.

outrora essa gente vaidosa recorria aos feiticeiros de aldeia em busca de uma mentira que lhes desse conforto.

muitos passaram a acreditar em vidas passadas para compensar suas medíocres vidas presentes.

os feiticeiros de aldeia, jogando búzios, cartas, olhando para o fundo de uma bacia d’água ou para a superfície de uma bola de cristal tinham sempre o texto certo para esses infelizes sorridentes:

tivera uma vida brilhante, foste um príncipe virtuoso e muito amado, e era dado a ser generoso com os humildes.

diziam para uns.

para outras diziam ainda:

viveste como uma rainha, pétalas vermelhas caíam pelo caminho sempre que tu passavas arrastando um vestido longo de uma seda tão pura que lhe dava ares angelicais.

e os vaidosos saíam pela aldeia contando a boa nova: sabias? numa vida passada tive um reino aos meus pés.

eu fui o costureiro que cingiu a túnica que cristo usava, devolve o outro.

os tempos mudaram, as aldeias cresceram, viraram cidades, as cidades viraram metrópoles, se conurbaram e surgiram novos feiticeiros.

uns, no púlpito, a prometer uma vida maravilhosa no futuro, após a morte.

outros, a pedir ofertas e orações para se conquistar, na vida presente, a tão sonhada felicidade das coisas, dos objetos, das tralhas fúteis.

e há, ainda, os que recorrem a placêbicos aplicativos: veja que cidade mais se parece com você. aí você clica e aparece a suíça, a dinamarca, a suécia…

nunca sai gabão, ceilão ou afeganistão.

veja que celebridade mais se parece com você: aí surgem modelos magérrimas, homens musculosos, casais tomando champanhe num iate…

chega.

estou farto das pessoas que se envergonham de suas lágrimas, de seus finais de semana solitários, da fossa existencial, da comida na mesa que não está tão bonita mas está saborosamente rica, da falta de grana para fechar o mês, da falta de amor e de abraços sinceros.

mesmo que freud tenha dito que é uma característica imanente do homem social a eterna luta para se livrar da dor e do mal estar que a civilização lhe causa, é covardia achar que você é feliz tentando enganar os outros com uma pseudo e sélfica felicidade.

para mim há uma só verdade:

não há nada mais sincero que o riso largo de um banguelo.

palavras sapienciais.

Lelê Teles
Lelê Teles
Formado pela Universidade de Brasília, Lelê Teles é jornalista, roteirista e publicitário. É roteirista do programa Estação Periferia (TV Brasil) e da série De Quebrada em Quebrada (Prodav 09). Sua novela, Lagoas, foi premiada na Primeira Bienal de Cultura da UNE. Discípulo do Mestre Cafuna, prega o cafunismo, que é um lenitivo para a midiotia e cura para os midiotas.