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02 de julho de 2011, 15h39

Counterpunch: Líbia prepara-se para a invasão da OTAN

E nunca me esquecerei que Obama, prêmio Nobel da Paz foi também o primeiro afro-estadunidense a declarar guerra a um país africano e o fez do meu país….

Só a blogosfera de esquerda problematizou o fato de que o ditador Gaddafi foi apoiado durante todo o seu governo pelos mesmos países que agora o invadem. Só a blogosfera de esquerda problematizou o fato que tal invasão redesenha a mesma estratégia da invasão do Iraque: “é o petróleo, estúpido”. Por último só a blogosfera de esquerda problematizou que em pouquíssimo tempo as tais guerras cirúrgicas dos EUA/OTAN teriam resistência dos líbios.

Quem duvida, veja este vídeo, postado pelo @humamad: 1 milhão de pessoas lotam as ruas de Trípoli contra a OTAN

Green Square (Tripoli, Libya) – 1st July 2011 from Libya News on Vimeo.

Contagem regressiva: A Líbia prepara-se para a invasão da OTAN

Por: Franklin Lamb, Counterpunch (ed. fim de semana), Tradução: Vila Vudu

01 a 03/7/2011

Trípoli, Líbia – Às 10h do dia 28/6/2011, o ministro da Saúde da Líbia mostrou-me pessoalmente suas estatísticas intituladas “Número atualizado de vítimas civis dos bombardeios da OTAN contra a Líbia” (19/3-27/6/2011).

Antes de o ministério divulgar os números, o que será feito hoje à tarde, comparei aqueles dados com os da Sociedade Líbia Crescente Vermelho, com grupos de trabalhadores da Defesa Civil nas áreas bombardeadas e com pesquisadores da Universidade Nassar, de Trípoli. Os números estão corretos.

E as Forças Armadas, até 1/7/2011, não divulgaram números oficiais de soldados líbios mortos.

Em resumo, o ministério da Saúde da Líbia computou, nos primeiros 100 dias dos ataques da OTAN contra populações civis na Líbia, um total de 6.121 mortos e feridos. Desagregando-se aqueles números, tem-se: 3.093 homens feridos e 668 mortos; 260 mulheres mortas e 1.318 feridas. 141 crianças mortas e 641 feridas.

655 feridos graves continuam hospitalizados e 4.397 estão sendo tratados em casa e em ambulatórios.

A OTAN tem dito que casas, apartamentos, escolas, lojas, fábricas, plantações e armazéns onde se estocam sacos de farinha são alvos militares legítimos – alegações nas quais ninguém com quem falei na Líbia acredita – e a OTAN ainda não apresentou uma única prova de que os 15 civis, a maioria crianças com mães e tias, que foram estraçalhadas por 8 foguetes da OTAN na vizinhança de Salman, semana passada, fossem alvos militares legítimos.

Em Trípoli, 3.200 grupos de cidadãos, que nada têm a ver com as Forças Armadas da Líbia, preparam-se ativamente para a possibilidade de a cidade ser invadida por soldados da OTAN ou por gente que está sendo armada e comandada pela OTAN. Estima-se aqui que a invasão da região chamada Grande Trípoli, a parte mais cosmopolita da cidade, acontecerá nas próximas semanas, ou meses.

Nas duas últimas noites, visitei algumas dessas áreas e continuarei por aqui. Bem ao contrário do que BBC, CNN e CBS têm noticiado, os arredores de Trípoli durante as noites de temperatura amena dessa época do ano não são áreas “tensas”, nem “perigosas para estrangeiros” nem estão ocupadas por soldados ou milícias armadas. Os líbios recebem com simpatia cidadãos americanos e outros. Muitos logo tratam de explicar o seu ponto de vista, praticamente dizendo, todos, que se trata muito mais de proteger-se e às suas famílias, suas casas, seus negócios, dos perigos de uma invasão estrangeira, do que de defender Gaddafi. Muitos apóiam Gaddafi – um nome e uma autoridade que conheceram com o leite de mamadeira. Mas dizem que lutarão até a morte para defender, antes, a revolução dos líbios e a independência dos líbios.

Nas conversas, vê-se que são muito bem informados sobre as razões da OTAN e sobre por que aqueles específicos países definiram Gaddafi e seu governo como seus alvos preferenciais, sem qualquer preocupação com o número de civis mortos. Como me disse um daqueles homens, em Trípoli: “O problema é o petróleo e a reorganização da África e do Oriente Médio”.

Sentar e conversar com grupos de vizinhos que vigiam os quarteirões e bairros é meio muito interessante de conhecer de perto o povo líbio, e descobrir como veem os eventos que se desenrolam no país deles.

É com certeza mais interessante e mais útil que permanecer nos bares dos hotéis onde se reúnem os jornalistas ocidentais que, de fato, trocam entre eles suas respectivas ideias feitas e pautas editoriais prontas, enquanto pontificam sobre “do que realmente se trata”, como me disse um deles, dia desses. Não consegui entender sequer o que teria a ver o que ele me dizia, com o que eu via nas ruas.

No final da tarde da 6ª-feira, 1/7/2011, espera-se que entre 500 mil e um milhão de cidadãos líbios reúnam-se na Praça Verde, no centro de Trípoli, para manifestar sua disposição de resistir aos ataques cada dia mais intensos da OTAN contra os civis. A maioria dos jornalistas ocidentais que estão em Trípoli não aparecerão por lá, em parte porque temem ser atacados, em parte porque já receberam ordens de suas editorias para “não legitimar, com sua presença, as manifestações”. Que fim terá levado o jornalismo do Oriente Médio?

As cidades líbias, quarteirões, bairros, preparam-se para a invasão por solo e para o combate direto contra os soldados de ocupação, com plano que bem poderia ter sido concebido por um general Giap do Vietnã ou Lin Peio, chinês, especialistas em defesa popular massiva. O plano foi organizado de casa em casa, rua a rua e prevê defesa armada.

Nem todos os defensores, que já há semanas trabalham na segurança dos bairros são militares, mas os mais velhos fizeram um ano de serviço militar obrigatório, ao sair do ginásio. Foram convocados e estão sendo instruídos e treinados todos os homens e mulheres capazes, entre 18 e 65 anos – mas há mais jovens e mais velhos, cuja colaboração não é rejeitada.

Estão organizados em esquadrões de cinco, reunidos logo depois do treinamento e instruções. Funciona assim: todos os maiores de 18 anos devem apresentar-se à “Tenda” da rua onde moram, onde todos se conhecem. A pessoa alista-se, recebe um fuzil AK-47, M-16 ou outro tipo de arma leve e instruções de como operar a arma.

Conforme o nível de habilidade, ele ou ela recebe um crachá de identidade, com a especificação da arma que pode usar. Os que não conheçam armas, ou precisem de treinamento mais detalhado são encaminhados para área específicas, onde há instalações para treino, colchonete para dormir, banheiros e cantina.

O treinamento básico para os que não conheçam armas, homens e mulheres, é de 45 dias. Depois, são alistados por quatro meses. Cada novo soldado aceito recebe a arma (quase sempre um “Klash” AK-47 e 120 cintas de munição). Cada indivíduo deixa o campo de treinamento por uma semana, para ‘verificação’: podem discutir o treinamento e devem mostrar que não desperdiçaram munição (cada bala custa 1 dólar). Os aprovados nessa primeira fase passam à seguinte.

A primeira fase da ação é a segurança do próprio quarteirão, em turnos de oito horas (mulheres durante o dia, quando as crianças estão na escola; os homens, nos turnos da noite). Muitos homens têm trabalho regular e explicam que se apresentaram para um turno extra de trabalho, como voluntários, pelo país. Os alistados são admirados e ajudados pelos vizinhos.

Assumi o compromisso de não falar do armamento já disponibilizado para essas brigadas, e de só falar de rifles, granadas, lança-foguetes (rocket propelled grenades, RPGs), mas, sim, estão armados.

Além de preparar a defesa armada de suas casas e famílias e vizinhos, essas brigadas voluntárias de defesa civil armada explicaram o que lhes cabe fazer. Quando uma área for bombardeada, têm de providenciar o resgate imediato dos moradores dos prédios atacados, encaminhá-los para os serviços médicos organizados em cada área, com especial atenção às crianças extraviadas, relacionar os reparos onde sejam possíveis, encaminhar as famílias para abrigos próximos e mais várias tarefas típicas de brigadas de defesa civil.

Cada ponto de controle em cada cidade passa a ser centro de controle de segurança para a comunidade vizinha. Os carros são revistados, mas em geral só o porta-malas. Na maioria dos casos, os motoristas e os brigadistas conhecem-se bem. Pelo posto em que fiquei, acompanhando o trabalho, passam muitos universitários, que também são da região. Vez ou outra, um dos carros pára e entrega uma bandeja de frutas ou uma vasilha de sopa etc. para os brigadistas. A atmosfera em geral é de solidariedade geral.

Os foguetes da OTAN têm visado muito diretamente esses postos de controle coordenados pela população, 50 dos quais estão localizados ao longo da estrada que acompanha a fronteira com a Tunísia até Trípoli. Por isso os postos funcionam sem iluminação à noite. Os que fazem o turno da noite recebem pequenas lanternas, com poderoso feixe de luz (ganhei uma delas, de presente, e, sim, funcionam muito bem).

Aqui onde estou, a maioria dos brigadistas são voluntários civis. Em outras regiões, mais para o leste, policiais regulares, homens e mulheres, já se uniram às brigadas da defesa civil; além dos que organizaram unidades clandestinas só de policiais.

Além de todos os demais problemas que já enfrenta, a OTAN encontrará resistência popular empenhadíssima, se decidir invadir a Líbia também por terra.

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