Blog da Maria Frô

ativismo é por aqui

08 de agosto de 2010, 19h16

Diga-me o que você acha do Lula e eu te direi quem és.

Vi o vídeo do Lula e Cabral e o garoto do Rio que cobra de Cabral o fato de a piscina estar fechada para a comunidade em finais de semana, vi também a grosseria de Cabral ao se dirigir ao menino articuladíssimo em suas críticas, falando do caveirão em sua porta.

Não me espanta nada o uso partidário que estão fazendo do vídeo, estamos em época de campanha e há dezenas de vídeos que mostram ex-presidentes e atuais candidatos dando mancadas ao vivo e a cores em frente a todas as câmeras.

Claro que o uso das mancadas pela grande mídia depende do partido e do candidato. Por exemplo, nas eleições de 2006 a mídia foi parceira do delegado Bruno (e a culpa foi posta nas costas largas da faxineira) em montar uma pilha de dinheiro para esculhambar o PT e levar a eleição para o segundo turno. Na atual campanha eleitoral a mídia faz o jogo do completa e justifica, como fizeram com FHC e agora tentam fazer com o candidato José Serra. Como bem mostrou Azenha o jogo é: o candidato oficial da mídia dá mancada federal, eles rapidamente buscam limpar a barra do sujeito.

Não vou perder meu tempo citando exemplos, é só abrir qualquer jornal para ver a imprensa justificando o fato de Serra não apresentar programa de governo definitivo e blá-blá-blá etc. Já fato idêntico na campanha de Dilma vira: “PT apresenta programa ‘guerrilheiro’ com PNDH3 e a ‘censura’ de volta ao Brasil”.

Lembro-me agora de um dos clássicos entre mancadas federais. O ex-presidente FHC chamou aposentados de ‘vagabundos’: “vagabundos, que se locupletam de um país de pobres e miseráveis”.

Voltando ao vídeo que em poucos dias já tem mais de 90 mil visitas e que foi massivo na timeline do twitter entre os cabo-eleitorais digitais, políticos, apoiadores e eleitores demo-tucanos e imprensa oficial tucana (Veja, Folha, Globo, Noblablá, Duende Verde, animador da Juventude do Dem…). Todos indignados fizeram um verdadeiro flood do vídeo, acompanhado de expressiva indignação e seu pouco velado preconceito em relação ao presidente Lula. Curioso, não vi os mesmos ataques a Cabral que mereceu o puxão de orelha dado pelo próprio presidente, pois mostrou que é um governador do Rio de Janeiro sem educação, desrespeitoso e sem noção.

Os indignados da campanha adversária (a indignação deles é sempre seletiva) e seus representantes oficiais na mídia: Veja, Globo, Duende Verde e agora Fantasminha Camarada daquele programa sem graça de ‘thumor’ que anima a juventude do DEM bradam ferozmente contra coisas ditas no vídeo, mas que estranhamente são as mesmas que eles e seus leitores expressam constantemente em suas mensagens sobre os jovens negros das periferias brasileiras.

Eu estou cansada de ler absurdos ditos por esses mesmos indignados de última hora. De um modo geral, seus ataques estão cheios de conteúdo racista e preconceitos de classe e de outra ordem. CQC prima por piadas preconceituosas. Enfim, estão chamando Lula de preconceituoso por dizer com todas as letras que tênis no Brasil é ‘esporte de burguês’.

Ah! Sim, descobri por meio desses indignados que tênis não é esporte burguês no Brasil. Que aqui está cheio de quadras públicas de tênis, raquetes especiais e bolinhas são oferecidas gratuitamente para os jovens da periferia aprenderem o esporte e virarem exímios jogadores de tênis, e que, inclusive, o Brasil tem expressivos nomes de tenistas brasileiros negros, saídos das periferias, que nos orgulham em torneios internacionais deste esporte.

Realidade paralela é o mundo dos indignados. Faça-me um favor, burguesia arrivista e sem noção, olhem para o seu próprio país e deixem de ser imbecis como Cabral.

Quanto a Lula, ainda bem que o presidente se preocupa com ‘prejuízo político’, quem dera outros governassem com esta preocupação. Os governantes de São Paulo quando nos enchem de porrada  e nos dão banho de spray de pimenta não estão nem aí e até encontram apoio dos Duendes Verdes e animadores da juventude do DEM  pra dizer que na USP só tem ‘vagabundo’, ou no restante da mídia grande pra dizer que professor atrapalha o trânsito da Paulista.

Fiquem com Emir Sader, a minha paciência tem limite.

O escândalo Lula

Por: Emir Sader, na Agência Carta Maior

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Quem olhasse para o Brasil através da imprensa, não conseguiria entender a popularidade do Lula. Foi o que constatou o ex-presidente português Mario Soares, que a essa dicotomia soma a projeção internacional extraordinária do Lula e do Brasil no governo atual e não conseguia entender como a imprensa brasileira não reflete, nem essa imagem internacional, nem o formidável e inédito apoio interno do Lula.

Acontece que Lula não se subordinou ao que as elites tradicionais acreditavam reservar para ele: que fosse eternamente um opositor denuncista, sem capacidade de agregar, de fazer alianças, se construir uma força hegemônica no país. Ficaria ali, isolado, rejeitado, até mesmo como prova da existência de uma oposição – incapaz de deixar de sê-lo.

Quando Lula contornou isso, constituiu um arco de alianças majoritário e triunfou, lhe reservavam o fracasso: ataque especulativo, fuga de capitais, onda de reivindicações, descontrole inflacionário, que levasse a população a suplicar pela volta dos tucanos-pefelistas, enterrando definitivamente a esquerda no Brasil por vinte anos.

Lula contornou esse problema. Aí o medo era de que permanecesse muito tempo, se consolidasse. Reservaram-lhe então o papel de “presidente corrupto”, vitima de campanhas orquestradas pela mídia privada – como em 1964 -, a partir de movimentos como o “Cansei”. Ou o derrubariam por impeachment ou supunham que ele pudesse capitular, não se candidatando de novo, ou que fosse, sangrado pela oposição, ser derrotado nas eleições de 2006. Tinham lhe reservado o destino do presidente solitário no poder, isolado do povo, rejeitado pelos “formadores de opinião”, vitima de mais um desses movimentos que escolhem cores para exibir repudio a governos antidemocráticos e antipopulares.

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Lula superou esses obstáculos, conquistou popularidade que nenhum governante tinha conseguido, o povo o apóia. Mas nenhum espaço da mídia expressa esse sentimento popular – o mais difundido no país. O povo não ouve discursos do Lula na televisão, nem no rádio, nem os pode ler nos jornais. Lula não pode falar ao povo, sem a intermediação da mídia privada, que escolhe o que deseja fazer chegar à população. Nunca publica um discurso integral do presidente da republica mais popular que o Brasil já teve. Ao contrário, se opõem frenética e sistematicamente a ele, conquistando e expressando os 3% da população que o rejeita, contra os 82% que o apóiam.

Talvez nada reflita melhor a distância e a contraposição entre os dois países que convivem, um ao lado do outro. Revela como, apesar da moderação do seu governo, sua imagem, sua trajetória, o que ele representa para o povo brasileiro, é algo inassimilável para as elites tradicionais. Essa mesma elite que tinha uma imensa e variada equipe de apologetas de Collor e de FHC, não tolera o fracasso deles e o sucesso nacional e internacional, político e de massas, de um imigrante nordestino, que perdeu um dedo na máquina, como torneiro mecânico, dirigente sindical e um Partido dos Trabalhadores, que não aceitou a capitulação ou a derrota.

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Lula é o melhor fenômeno para entender o que é o Brasil hoje, em todas as posições da estrutura social, em todas as dimensões da nossa história. Quase se pode dizer: diga-me o que você acha do Lula e eu te direi quem és.


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