Blog da Maria Frô

ativismo é por aqui

22 de fevereiro de 2015, 11h06

Estudante de medicina estuprada resiste: “Ninguém toca nos meus sonhos”

Toda mulher tem uma série de casos de agressão para relatar, claro que não estou falando apenas em estupros. As mulheres são assediadas em trens, metrôs, ônibus, nas ruas, na praia, em qualquer espaço público por estranhos, especialmente quando adolescentes e jovens.
Aos cinco anos eu fui assediada numa rodoviária. Minha mãe, sozinha, com três filhos pequenos, dois praticamente de colo, já que a diferença de idade de meu segundo irmão para minha terceira irmã é de 1 ano, 1 mês e 20 dias. Não podendo carregar os três, deixou-me sentada à espera do ônibus e pediu para um senhor me olhar. Foi até uma farmácia próxima para comprar remédio para o ouvido do meu irmão que gritava de dor. Quando chegou a polícia já estava no local, uma senhora presenciou a molestação e chamou a polícia.
Na adolescência a festa que eu mais gostava era o carnaval. Adorava o carnaval até chegar roxa em casa dos beliscões que levava. Certa vez num carnaval, um predador mesmo estando acompanhada de meu namorado passou a mão no meu traseiro. Outra, assim que me mudei para São Paulo, tive de entrar numa loja no centro, comprar um jeans para voltar pra casa, porque não aguentei o assédio no metrô e nas ruas por estar de shorts.
Esta é a realidade que meninas, jovens e mulheres até chegarem a velhice sofrem diariamente no Brasil. O estupro é piada pra ‘comediantes’como Rafinha Bastos. A barbárie contra mulheres violentadas e agredidas fisicamente e, às vezes mortas, é cometida na maioria das vezes por homens próximos: ex-companheiros, pais tios, amigos da família.
Mas usar do desequilíbrio mental pra justificar um estupro me parece uma justificativa oportunista.
Tive um ex-namorado que tentou se matar durante a faculdade. Chegou a subir no prédio para se atirar. Liguei para os parentes para buscá-lo, chamei ambulância, bombeiros, pedi socorro aos amigos. Era visível o seu desequilíbrio e eu tinha muito medo de ele se matar e aos 19 anos eu não conseguia lidar com aquilo sozinha.
Mas ele nunca me agrediu. Nunca. Seu desequilíbrio na época era tão grande que certa vez, numa festa, ele chegou a arrancar a porta do meu apartamento, não a arrombou, tirou as dobradiças e deixou o apartamento sem portas. A abertura e fechamento da porta com o entra e sai das pessoas que estavam na festa (a festa ocorria na parte coletiva do prédio, mas as pessoas iam ao apartamento pegar coisas para a festa) o incomodaram a ponto de ele tirar a porta.
Entendo perfeitamente porque esta estudante de medicina acabou sendo vítima de estupro daquele que ela tentou ajudar. Ela é tão jovem quanto eu era quando aquele meu ex-namorado tentou se matar. Não conseguimos lidar com isso. Por isso e ainda mais por ter se relacionado com ele, ela cedeu ir ao lago. Nada justifica a violência a que foi submetida por um macho ferido. Nada. Os danos deste estupro não cessam com o fim do ato, a violência prossegue na denúncia e no tratamento social que a vítima recebe como ela relata no seu dolorido depoimento:

A violência vir de alguém próximo é ainda pior. Estou sempre esperando que me magoem de novo. Sexo ainda é um problema. Lembro de tudo, aí sinto dor.”

A gravidade dos casos de estupro da medicina de Ribeirão é ainda maior, quando pensamos na possibilidade de os estupradores seguirem incólumes e se tornarem médicos. Direção, professores e alunos da USP-Ribeirão têm de encarar de frente este problema e as faculdades de medicina no geral precisam urgentemente rever seus currículos com o objetivo central de formarem médicos humanizados. Seus representantes nos CRM  e a profusão de absurdos que vimos durante a campanha sórdida dos médicos corporativistas contra o programa Mais Médicos, durante as eleições e na boataria reacionária durante o nascimento no SUS da filha prematura de um ex-ministro nos dão o retrato de como foram e estão sendo formados os médicos no Brasil. Assusta e indigna. E os poucos de origem pobre que chegam aos bancos das faculdades de medicina são tratados como lixo pela própria classe em formação.

“Quando aconteceu, cheguei a pensar em trancar a faculdade e ir embora. Mas ele não vai tomar mais nada de mim. Ninguém toca nos meus sonhos. Não vou sair da faculdade. Não peço que ninguém acredite em mim, mas que sejam neutros. A Justiça vai julgar o caso. (…)

Eu já tinha me decepcionado com alguns colegas. Para entrar numa faculdade de medicina a pessoa pode até ser inteligente, mas não quer dizer que tenha bom coração e caráter. Muitas vezes, os mais preparados para o vestibular são os que tiveram oportunidades e dinheiro. E a prepotência vem junto.

Eles não têm noção do que acontece longe dos seus bercinhos de ouro. Eu e o B. fazemos parte da turma pobre da faculdade. E somos poucos. Uma turma que quer fazer medicina da família, cuidar de gente. A maioria quer cuidar de ganhar dinheiro.

Tenho medo de quando eles estiveram no consultório. Como vão atender gays, lésbicas, mulheres negras e vítimas de violência sexual? Vão falar: ‘Ah, não foi assim?’ Vão dar risada na cara da paciente? Vão desconsiderar o que relatam?

Apesar de tudo, não me arrependo de ter denunciado. Se eu pudesse falar com todas as vítimas de violência sexual, eu diria: ‘Vocês têm que ir até o fim’. Muitas desistem, temendo enfrentar delegados, escrivães, peritos, exames, amigos e família. Sei o quanto as vítimas se sentem desamparadas.

Tenho medo que T. volte à universidade, das ameaças, de acontecer de novo. Como conviver com uma pessoa dessa? Espero que ele nunca se forme. Como um médico é um estuprador? Não pode. Temo por todas as mulheres que estão perto dele.”

Estudando com o Inimigo

por Eliane Trindade, Folha

Estudante da USP denuncia ex-namorado por estupro no campus

22/02/2015

Aluna do segundo ano da Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto, G., 19 anos, denunciou um colega de turma, T., 21, seu ex-namorado, por estupro.

Já houve uma audiência do processo na 2ª Vara Criminal da cidade e a universidade abriu sindicância para investigar o fato ocorrido em 8 de agosto do ano passado dentro do campus.

A seguir, a estudante, que não pode dar detalhes do caso que corre em segredo de Justiça, fala do estigma de ter denunciado violência sexual na universidade.

Estudante da Faculdade de Medicina da USP que foi estuprada por um colega de sala, seu ex-namorado
Estudante da Faculdade de Medicina da USP que foi estuprada por um colega de sala, seu ex-namorado

Depoimento…

“Todos os meus colegas sabem que denunciei por estupro meu ex-namorado, que também é aluno do segundo ano de medicina na USP de Ribeirão. O serviço de psicologia da universidade foi falar com a classe, mas relataram como se fosse assédio.

Foi mais grave. Eu me ausentei por uma semana e T. se internou na unidade de psiquiatria do Hospital da Clínicas, onde foi preso em flagrante no mesmo dia em que me violentou na trilha que leva ao lago, dentro do campus.

Nós namoramos por quatro meses. Logo depois, comecei a namorar um outro colega de turma, com quem estou até hoje. Quando contei que estava com outra pessoa, ele voltou a me importunar. Tinha ido ao psiquiatra, ameaçava se matar.

Todo mundo ficou preocupado. Ele quis conversar. Marquei na USP naquela sexta, 8 de agosto do ano passado. Ele insistiu para irmos para o lago e termos privacidade. Entramos na trilha e ele só perguntava: “Quem é?” Contei que estava com B., também nosso colega de turma. Ele surtou. Bateu no chão, chutou árvore.

DESPEDIDA

Um lado meu dizia: ‘Vai embora, ele tá louco’. O outro me fez ficar, com medo de ele se matar. Ele se acalmou, sentou ao meu lado, ficou chorando e me xingava. Foi quando falou que queria transar. A despedida.

Eu disse: ‘Você tá louco?’ Ele me puxou pelo cabelo e tentou me beijar. Tentei correr, ele me segurou e falou no meu ouvido: ‘Eu ainda não terminei’. Abaixou minha calça. Senti o tecido da calcinha penetrando também. No momento, você ainda acha que a pessoa vai parar.

Quando mais eu dizia não, com mais força ele me penetrava. Eu dizia que tava me machucando e ele fazia: ‘Xihhh [mandando calar a boca]’ e me penetrava com mais força. Não foi sexo consensual como ele alega. Depois que ejaculou, ele me largou e eu caí na terra.

Para voltar para a faculdade, no meio da trilha, ele ainda tentou me segurar. Gritei para ele não tocar mais em mim. ‘Você tem ideia do que fez lá atrás? Você me estuprou!’ Ele rebateu: ‘Você queria. Tava molhada’. Estava usando uma pomada para candidíase que teria funcionado como lubrificante.

Ele começou a chorar e a dizer: ‘O que foi que eu fiz?’ Achei que tinha caído a ficha, mas de repente ele deu risada e disse que ninguém ia acreditar em mim. E ameaçou contar para o meu namorado e dizer que eu tinha gostado.

Gritei que ia denunciá-lo. Mas percebi que poderia colocar minha vida em risco. Ainda sozinha com ele, falei: ‘Vamos esquecer isso’.

NA PSIQUIATRIA

Mais tranquilo, ele contou que ia para a UE [Unidade de Emergência, do Hospital das Clínicas] para não fazer algo contra a própria vida. Quando cheguei na faculdade, mandei uma mensagem para um amigo dele dizendo que T. tava muito doente.

Fui para a casa do meu namorado, que me viu toda suja de terra e foi comigo à delegacia da mulher. Lá foi insuportável. Você acha que vai ser acolhida, mas não. Comecei a ser estuprada às 4h30, o ato durou uns cinco minutos, mas só parei de ser violentada quando voltei para casa à noite.

Do balcão, a escrivã perguntou o que me aconteceu, enquanto eu estava lá de pé, tremendo. Pedi uma cadeira. Ela arranjou um lugar para eu sentar, mas sempre com má vontade. Até que a delegada apareceu. Relatei o que tinha acontecido e ela mandou eu voltar outro dia para fazer uma representação e abrir o processo. Quando saí, elas fecharam a delegacia.

Nessa altura, minha mãe já tinha feito um escarcéu. Ligou para a faculdade. Dr. Carlotti [Carlos Carlotti Jr., diretor da Medicina da USP Ribeirão], foi me encontrar na delegacia. Ele me levou para fazer o corpo de delito.

No hospital, fiquei esperando o perito por quase três horas. E quando apareceu, ele foi um grosso. Ficava repetindo: ‘Ah’, ‘tá’. ‘Hum’. ‘Sei.

Na maca, quando foi fazer o exame, também foi um bruto, machucando ainda mais as minhas partes íntimas. Eu falava: ‘Tá doendo, tô ardida’. Ele dizia: ‘Tá tudo normal. Não tem muito material’. Já havia se passado cinco horas. O ginecologista que acompanhou o exame anotou o atraso no prontuário.

Meu cunhado, que é policial, já tinha mobilizado a delegacia de plantão para que prendessem o T. em flagrante. Fui para lá dar um novo depoimento. Tinha tomado calmante, estava grogue. Não conseguia ficar sentada.

O LEGAL E A CDF

Só então fui pra casa. Passei uma semana em Caraguatatuba com minha mãe. Quando voltei para Ribeirão, T. ainda estava preso no hospital, onde ficou algemado à cama até a soltura dias depois. No prontuário, está escrito depressão leve, mas o psiquiatra havia dito que ele estava no estágio cinco de suicídio, o mais alto.

O caso dividiu a turma. Ninguém veio falar nada comigo. Até que um dos amigos do T., começou a espalhar dados do processo entre os colegas e a dizer que eu menti. Para piorar, T. é o popular, enquanto eu sou mais reclusa. Ele vai às festas, bebe, fica quase pelado. Eu estava focada em estudar. Começou um papo na turma: ele é legal, ela ninguém conhece.

Muita gente passou a assumir uma postura hostil em relação a mim. Parecia que eu e o meu namorado tínhamos lepra. Aumentaram os olhares tortos quando a medicina de Ribeirão ficou na berlinda.

Meu caso foi levado à CPI da Assembleia Legislativa de SP. É como se eu denegrisse a imagem da faculdade. Não importa o fato de eu ter sido vítima de uma violência. A mensagem é que eu deveria ficar quieta para não manchar a imagem da medicina.

MACHISMO

Tem muito de ‘Clube do Bolinha’ e de a sociedade ser machista. Não só os meninos. Me impressionou ver garotas com o mesmo discurso. Na CPI, quando leram meu depoimento, uma garota se levantou: ‘Eu não acredito em nada disso, porque ela namora outro’. O que isso tem a ver? Autoriza a violência?

É mais fácil julgar. No ano passado, escreveram no nosso grupo do WhatsApp: ‘Tem uma ovelha negra entre nós’. Sou a ovelha negra. Ele, não.

Não vou desistir. Entendo que para se sentirem seguros meus colegas prefiram acreditar que nada aconteceu. Se fosse com a mãe ou a irmã deles, iam pensar diferente.

T. está afastado da faculdade. Mesmo assim não consigo ir à USP sozinha. É difícil lidar com o medo. Acho que vai acontecer de novo. Suspeito de todos os homens.

A violência vir de alguém próximo é ainda pior. Estou sempre esperando que me magoem de novo. Sexo ainda é um problema. Lembro de tudo, aí sinto dor.

Espero que ele seja condenado, mesmo sabendo que é uma pena de prisão [de seis a dez anos]. Tem gente que diz: ‘Ah, não foi tão grave assim!’ Como? Tenho vontade de gritar: não foi só o meu corpo que ele violou, mas toda a confiança que eu tinha nele.

Quando aconteceu, cheguei a pensar em trancar a faculdade e ir embora. Mas ele não vai tomar mais nada de mim. Ninguém toca nos meus sonhos. Não vou sair da faculdade. Não peço que ninguém acredite em mim, mas que sejam neutros. A Justiça vai julgar o caso.

POBRES X RICOS

Eu já tinha me decepcionado com alguns colegas. Para entrar numa faculdade de medicina a pessoa pode até ser inteligente, mas não quer dizer que tenha bom coração e caráter. Muitas vezes, os mais preparados para o vestibular são os que tiveram oportunidades e dinheiro. E a prepotência vem junto.

Eles não têm noção do que acontece longe dos seus bercinhos de ouro. Eu e o B. fazemos parte da turma pobre da faculdade. E somos poucos. Uma turma que quer fazer medicina da família, cuidar de gente. A maioria quer cuidar de ganhar dinheiro.

Tenho medo de quando eles estiveram no consultório. Como vão atender gays, lésbicas, mulheres negras e vítimas de violência sexual? Vão falar: ‘Ah, não foi assim?’ Vão dar risada na cara da paciente? Vão desconsiderar o que relatam?

Apesar de tudo, não me arrependo de ter denunciado. Se eu pudesse falar com todas as vítimas de violência sexual, eu diria: ‘Vocês têm que ir até o fim’. Muitas desistem, temendo enfrentar delegados, escrivães, peritos, exames, amigos e família. Sei o quanto as vítimas se sentem desamparadas.

Tenho medo que T. volte à universidade, das ameaças, de acontecer de novo. Como conviver com uma pessoa dessa? Espero que ele nunca se forme. Como um médico é um estuprador? Não pode. Temo por todas as mulheres que estão perto dele.”


rede socialEliane Trindade é editora do Prêmio Empreendedor Social. Foi repórter da coluna ‘Mônica Bergamo’ e editora da ‘Revista da Folha’. É autora do livro-reportagem ‘As Meninas da Esquina’ e venceu o prêmio Ayrton Senna de Jornalismo com a reportagem ‘O que Eles Vão Ser Quando Crescer’. Neste espaço, mostra personagens e fatos dos dois extremos da pirâmide social, espalhando também nas redes sociais. Escreve às terças, a cada duas semanas.


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