Blog da Maria Frô

ativismo é por aqui

09 de outubro de 2012, 11h14

Marco Aurélio Weissheimer: Questões pertinentes à esquerda de POA e aos demais governos progressistas

Excelente o texto de Marco Aurelio sobre a privatização do espaço público e o vazio político de candidaturas de esquerda que foram incapazes de pautar esta discussão. A esquerda precisa retomar sua identidade, a juventude brasileira (ao menos aquela que não está entorpecida pelo consumismo não está feliz com o cerceamento de sua expressão. Ela reage sempre a privatização das ruas e a tentativa de disciplinar sua liberdade de expressão, seu tempo, lazer. 

O que ocorre em Porto Alegre, hoje, está longe de ser fato isolado, em São Paulo, o crescimento da candidatura de Haddad dá-se exatamente por propor um enfrentamento à privatização do espaço público, à redução do que significa cultura e, principalmente, por abrir bem os ouvidos e os olhos ao clamor de boa parcela da população que reage à cidade proibida criada por Kassab.

Que governos progressistas fiquem atentos a isso. A juventude faz política de uma maneira nova, é bom que se aprenda a entender seus códigos.

Por: Marco Aurélio Weissheimer, via Correio do Brasil

Na reta final da campanha eleitoral, Porto Alegre vive uma situação paradoxal. Se, por um lado, as pesquisas dão amplo favoritismo ao atual prefeito José Fortunati (PDT), nas ruas eclodiu um movimento social formado basicamente de jovens protestando contra a privatização de espaços públicos e culturais da cidade e também contra o crescente cerceamento de espaços e tempos de lazer.

Protesto no Largo Glênio Peres terminou em repressão policial

Na quinta-feira à noite, quando Fortunati passeava tranquilamente pelo debate da RBS, cujo formato permitiu que ele fosse questionado uma única vez pela deputada federal Manuela D’Ávila (PCdoB) e nenhuma vez pelo deputado estadual Adão Villaverde (PT), as duas principais candidaturas da oposição, o protesto que iniciara no final da tarde em frente à prefeitura terminou em choque com a polícia no Largo Glenio Peres, na área agora sob a responsabilidade da Coca-Cola, onde estava instalado um boneco inflável do Tatu-Bola, mascote da Copa de 2014.

Para quem não vive em Porto Alegre, as referências podem ser confusas. A prefeitura de Porto Alegre repassou para a Coca-Cola a tarefa de “cuidar” do Largo Glênio Peres, uma das áreas mais tradicionais do centro da capital e espaço histórico de manifestações sociais, culturais e políticos. Em troca de algumas “obras” no Largo, como um insólito conjunto de chafarizes, cujo maior feito até agora foi alagar o comício de encerramento do candidato Villaverde, a Coca Cola está explorando publicitariamente o Largo.

A iniciativa não é isolada. Outros espaços públicos da cidade estão sendo repassados pela gestão Fortunati para a iniciativa privada, como é o caso do Auditório Araújo Viana, agora sob os cuidados da produtora Opus. O ufanismo empreendedorista embalado pelas “obras da Copa” justifica a invasão privada de espaços públicos na cidade.

Na terça-feira desta semana, uma inacreditável manchete do jornal Zero Hora afirmava em tom de denúncia: “Norma que restringe altura dos prédios impede a capital de crescer na Zona Norte”. Como bem observou Cristóvão Feil, no Diário Gauche, o grupo RBS perdeu todo o pudor, reivindicando diretamente os interesses da livre especulação imobiliária selvagem em Porto Alegre. RBS que tem um braço no setor imobiliário chamado Maiojama.

Nos últimos anos, boa parte dos chamados formadores de opinião dos veículos do Grupo RBS cumpre o papel de defender com denodo os interesses comerciais e econômicos estratégicos de seus patrões, silenciando sobre os atropelos de normas urbanísticas ou ambientais ou defendendo abertamente tais interesses. Não foi nada surpreendente, portanto, que surgidas as primeiras notícias sobre o confronto no largoGlênio Peres, jornalistas da RBS já denunciassem os “vândalos” que estavam destruindo o boneco do Tatu Bola. Alguns deles se apressaram a associar ao episódio à destruição do relógio dos 500 Anos, durante o governo Olívio.

Mas voltemos ao paradoxo da reta final dessa eleição. Uma das razões possíveis pelas quais Fortunati transitou com relativa tranquilidade pela campanha eleitoral foi a não tematização dos assuntos citados acima pelas principais candidaturas da oposição. O vazio, na política, sempre cobra seu preço. Vazio, neste caso, causado por escolhas feitas pelos principais partidos de oposição. Escolhas, aliás, que não se limitam ao processo eleitoral. A crescente privatização de espaços públicos em Porto Alegre passeia também com relativa tranquilidade pela Câmara de Vereadores, com algumas honrosas exceções no PT e no PSOL, insuficientes porém para gerar um debate público na cidade.

Diante da fragilidade política dos partidos, as ruas começam a canalizar a insatisfação que vem se acumulando há alguns meses. Aí está o paradoxo. Fortunati poderá ser eleito neste domingo com uma fraca oposição partidária, mas já com uma forte oposição social nas ruas.

Cabe um registro ainda sobre a ação da Brigada Militar no episódio. Os vídeos que circularam durante todo o dia pela rede são suficientes para expor a violência desmedida por parte dos brigadianos. Mesmo diante de eventuais excessos por parte de alguns manifestantes, não há nenhuma justificação para as cenas que se vê, incluindo agressões contra quem estava filmando o episódio (o que, aliás, não é a primeira vez que acontece). Erra o governo do Estado ao não proferir nenhuma palavra crítica à ação da Brigada que, infelizmente, parece sempre pronta a demonstrações de força equivocadas, contra quem deveria proteger. Nos últimos anos, entre outras coisas, matou um sindicalista e um sem-terra aqui no Rio Grande do Sul em função dessa truculência. As fotos de quinta à noite mostram uma barreira de viaturas e policiais para defender o Tatu-Bola dos “vândalos”.

De fato, Porto Alegre vem sendo alvo de uma onda de vandalismo. Os espaços públicos da cidade estão sendo privatizados. A especulação imobiliária avança sobre áreas públicas e de preservação ambiental. A população mais pobre está sendo empurrada cada vez mais para a periferia. A criminalização das áreas frequentadas pela juventude é crescente. O maior grupo midiático da cidade defende abertamente a subordinação do interesse público aos interesses comerciais do setor imobiliário. E as chamadas forças de segurança estão aí para defender essa agenda e seus agentes públicos e privados. Mas as ruas começam a opor resistência aos vândalos e ela pode estar só começando.

Marco Aurélio Weissheimer é editor-chefe da Carta Maior (correio eletrônico: gamarra@hotmail.com)

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