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10 de junho de 2011, 08h28

Pepe Escobar: A contrarrevolução não será televisionada

A contrarrevolução do frio dinheiro-vivo
Por: Pepe Escobar, Asia Times Online,  Tradução: Vila Vudu
10/6/2011

A contrarrevolução, parafraseando o falecido grande poeta do jazz soul Gil Scott-Heron, não será televisionada; avançará torrente abaixo, arrastada por dinheiro-vivo, cash, grana dura. Vejam o Egito. A Casa de Saud acaba de dar ao líder do Supremo Conselho Militar marechal-de-campo Tantawi US$4 bilhões em dinheiro-vivo – embora nem a Esfinge saiba informar que poder Tantawi, 75, ex-ministro da Defesa do tirano deposto Mubarak, realmente tem.

Washington estendeu ao Cairo o “perdão” de dívida de $1 bilhão e mais outro $1 bilhão para garantir empréstimos. Não é muito – comparado a tudo que Washington estende corriqueiramente a Israel, mas mesmo assim é um sinal. E depois o Fundo Monetário Internacional estendeu também outros $3 bilhões extras em empréstimos. O ‘novo’ Egito começará a negociar já preso a grilhões implacáveis.

Isso ajuda a entender como a passagem de Rafah – fronteira com Gaza – jamais chegou a ser realmente aberta. Há uma quota máxima de 400 gazenses que podem passar por dia; e no mínimo 5 mil gazenses fichados não passam de modo algum. Portanto, no fundo, permanece praticamente inalterado o quadro de gulag dos tempos de Mubarak.

A evidência de que o ‘novo’ Egito começará a negociar já bem preso a grilhões implacáveis também ajuda a entender por que o candidato potencial à presidente do Egito, o aparece-some/aparece-some Mohamed El-Baradei, está hoje empenhado em campanha midiática para seduzir os sauditas: canta loas ao rei Abdullah e se consome em contorcionismos para fingir que não viu o apoio frenético que os sauditas garantiram a Mubarak até o (e depois do) último momento.

Cash is king[1]

No Iêmen, a Casa de Saud – e quem mais seria? – está subornando tribos iemenitas com dinheiro-vivo, em nome da “estabilidade na região”. Apesar de estar confirmando a reputação de asilo de primeira classe para ditadores árabes em fuga, a Casa de Saud apoia oficialmente a saída do presidente Abdullah Saleh em nome de “menos sangue e menor imprevisibilidade”.

A Casa de Saud insiste – sem ironia – em que hospeda Saleh por “motivos humanitários”. Oficialmente, a Casa de Saud também odeia qualquer “vácuo de poder”. Apesar disso, o tal “vácuo” persiste, agora acrescido de medos de “crescente caos”. Washington, enquanto isso, examina freneticamente o horizonte em busca de algum membro da al-Qaeda na Península Arábica [ing. al-Qaeda in the Arabic Peninsula (AQAP) que possa aproveitar como “alvo” dronável, i.e. fuzilável por drones, os aviões-robôs tripulados à distância.

Se Saleh despachar-se de volta ao Iêmen, será por ordem expressa da Casa de Saud. O que há hoje no Iêmen é situação em que Ali, filho de Saleh, comanda a Guarda Republicana – de dentro do palácio presidencial; e seus quatro primos controlam unidades militares chaves. O atual presidente “em exercício”, o vice-presidente Abdu-Rabo Mansur Hadi, não passa de fantoche.

A Arábia Saudita parece por hora interessada em encobrir com mais vácuo o arranjo de poder que inventou, teoricamente antivácuo. Quanto ao amplo movimento popular de protesto dos iemenitas, só lhe resta a saída de forçar Hadi a ficar, constituir um governo de transição e, usando o poder do povo, tentar derrotar a contrarrevolução comandada pela família de Saleh. Se chegarem a esse ponto, a Casa de Saud interferirá brutalmente – e diretamente.

No Bahrain, a Casa de Saud apoia explicitamente a Organização Nacional de Direitos Humanos; como previsível e previsto, o presidente foi indicado ano passado pelo rei Hamad bin Isa al-Khalifa, o que significa que a organização existe para apoiar a dinastia reinante – embora não tão empenhadamente quanto apoiam os patrões sauditas. Todos os principais ativistas de organizações independentes de direitos humanos estão presos e serão julgados em tribunais militares.

E, como ladrão que se esgueira na calada da noite, quem escapuliu até Washington e foi recebido pelo presidente Barack Obama dos EUA na 3ª-feira passada? Ele mesmo, o príncipe coroado Salman al-Khalifa do Bahrain.

Não houve conferência de imprensa. Nada de fotos. Foi como se a conversa se tivesse autodestruído em cinco segundos – mas houve uma reunião entre um drone-peso-pesado e Prêmio Nobel da Paz, e o rei de uma satrapia militar norte-americana no Golfo Persa que há tempos se dedica empenhadamente a tentar derrubar o próprio povo. Não importa o volume da retórica, nada altera essa conta: Washington apoia irrestritamente qualquer repressão, por violenta que seja, no Golfo Persa – para gáudio e delícia extrema da Casa de Saud.

Ele não é meu irmão. Ele é um fardo[2]

E há também a questão da Fraternidade Muçulmana – crucial no contexto da contrarrevolução cuidadosamente orquestrada por EUA/Arábia Saudita.

A Fraternidade Muçulmana está sendo instrumentalizada pela Casa de Saud de cabo a rabo, da Síria ao Egito. No Egito, a velha-guarda reacionária da Fraternidade está trabalhando em íntimo acordo com o Conselho Militar; prevêem-se “recompensas” por bom comportamento, vindas dos dois lados, de Washington e de Riad.

Visivelmente nada disso se pode traduzir como apoio a El-Baradei – que só é prestigiado por jovens sem partido, liberais, alguns raros esquerdistas e uma coleção de islâmicos progressistas que desertaram da Fraternidade Muçulmana “tradicional”.

Quanto aos ainda mais reacionários salafitas, estão organizando grupos de Facebook, em ofensiva de Relações Públicas, para tentar melhorar um pouco a própria terrível imagem e, na medida do possível, diluírem-se em “outras correntes intelectuais e políticas”.

A mídia saudita, ao mesmo tempo, está ocupada em sua própria campanha de Relações Públicas, exaltando os méritos do reino e denunciando “a corrupção da família reinante e seus acólitos” em repúblicas árabes selecionadas: na Síria e na Líbia. Conforme a plataforma oficial do Clube Contrarrevolucionário do Golfo, também conhecido como Conselho de Cooperação do Golfo [ing. Gulf Cooperation Council (GCC)], todas as monarquias árabes são virtuosas como as virgens do paraíso.

À medida que a contrarrevolução do frio dinheiro-vivo avança, o futuro da grande revolta árabe de 2011 vai-se tornando mais e mais sombrio. Tudo dependerá de o espírito da praça Tahrir conseguir manter sob pressão o Conselho Militar egípcio. E de as forças progressistas, no Egito, no Iêmen e noutros pontos descobrirem meios para contrabalançar o violento impacto, que nunca esmorece, da riqueza do petróleo da Casa de Saud.
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[1] Muito interessante, sobre “dinheiro-vivo é rei”, entrevista com o bilionário Warren Buffet, aqui. A expressão “Cash is king” é título de uma coluna da revista Forbes, como se vê, por exemplo, aqui em 2008 e, significativamente alterado para “Cash the king is dead” [o rei dinheiro-vivo morreu] aqui, de 2011, em tempos de inflação crescente nos EUA [NTs].
[2] No orig., He is heavy, he’s no brother, o avesso do significado de verso famoso (He Ain’t Heavy, He’s My Brother [ele não é um fardo, ele é meu irmão]), título de uma balada de 1966, cuja história está contada aqui. A balada pode ser ouvida na gravação original aqui. Quem quiser ler a letra, encontra a tradução aqui; como trilha sonora de Rambo III, está aqui. E tem sido tocada muito frequentemente nos EUA, em funerais de soldados mortos no Iraque, no Afeganistão, no Paquistão… [NTs].

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Veja também:  Moro e Bolsonaro permitem que FBI cace suposto membro da Al-Qaeda no Brasil

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