Blog da Maria Frô

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O que o brasileiro pensa?
03 de maio de 2014, 07h18

Preto Zezé: “Ao me afirmar Preto, crio um constrangimento pedagógico”

Em uma entrevista para Luiz Eduardo Soares, o presidente da Cufa, Preto Zezé, fala do racismo, da violência policial, do mito da democracia racial, reforçado pela política da mestiçagem que impõe desafios à luta dos negros no combate ao racismo no Brasil. No Brasil a luta não dá para ser feita como nos EUA, argumenta Preto Zezé, lá o contexto foi de segregação explícita, aqui vigora a mestiçagem, “precisamos transformar o estigma em carisma”.

É uma entrevista impactante, vai da experiência e trajetória pessoal ao aprendizado do movimento, passa pela análise das mudanças no Brasil na última década, pela críticas ao modo tradicional de fazer política burocratizada não apenas nos partidos, mas em instituições relevantes como sindicatos e movimentos mais tradicionais, chega no rolezinho e vai além.

Ao falar de Paulo,  o menino negro amarrado nu a um poste, com quem conversou, Preto mostra estratégias de superação que não leremos em nenhum lugar.

Ao falar de cotas, Preto Zezé lembra que o racismo brasileiro é tão sofisticado que alguns negros (com racismo introjetado) sente vergonha das cotas, acha que a culpa da opressão que ele vive é dele.

Ao comentar sobre o bairro pobre onde a Cufa atua em Fortaleza (Lagamar) que fica ao lado de um bairro rico, Aldeota, Preto expõe a barbárie da realidade de exclusão: meninos do Lagamar pescam peixes no canal onde passa as fezes da Aldeota. O presidente da Central Única das favelas aposta na inclusão econômica para abalar as placas tectônicas do país que não se reconhece um no outro: “Um Brasil tem de ser apresentado ao outro!” A sociedade brasileira (a visível) se apropriou do sentimento da Casa Grande, mas os negros estão fazendo esse Brasil ser rediscutido.

Vale a pena dedicar um tempo para ouvi-lo. Destaco mais alguns momentos.

Sobre o argumento da mistura, da mestiçagem:

 “Nós somos todos misturados, mas quando você vê o mapa dos homicídios como é que essas balas enxergaram os mais escurinhos, né?

Como é que os bancos das universidades são 0,0001% são de negros? Como é que enxergaram?

Se somos todos misturados, como é que esse processo conseguiu ser tão eficaz, que no meio dos misturadinhos pegaram justamente os escuros?”

Sobre a invisibilidade dos negros:

No Ceará, terra de Preto Zezé, o ex-governador Tarso Jereissati chegou a afirmar que não existiam negros no estado. Preto Zezé explica como é possível esta fala esquizofrênica. Esta invisibilidade é resultado do processo de estigmatização da pessoa negra 

 (O racismo) “tira a sua auto-estima, faz ela ter vergonha de si, para quê eu vou para um ambiente público como um shopping center, uma praça se eu já sei o que vai acontecer comigo e aí fisicamente eu passo a não aparecer nos espaços públicos, passo a ‘não existir’.” Mas também passo a não existir para as políticas públicas da educação, das universidades… Só fico visível pra uma parte do Estado, que é a polícia. O invisível, em resumo, é aquele que somente a polícia vê.”

Sobre a reafirmação da negritude na pedagogia de transformar estigma em carisma:

“Ao me afirmar Preto, crio um constrangimento pedagógico”

Preto Zezé ressignificou o uso do termo “Preto”,  que da associação ao racismo,  ao estigma se transformou em seu nome próprio.

Assista, é imperdível.


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