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20 de maio de 2011, 10h04

Super pop, Folha Teen, Record e o circo homofóbico travestido de liberdade de expressão

Ontem assisti a um verdadeiro show de horror no programa Super Pop, uma caricatura de debate sobre homofobia. Entre os convidados, Bolsonaro, Agnaldo Timóteo, um ‘ex-gay’ pastor e a travesti Luiza Marilac. O ‘debate’ virou um circo com direito do defensor dos homossexuais dizer que é contra a parada gay e um casal de lésbicas ser convidado para o programa e, ao final, Luciana Gimenez jogar para platéia a decisão de um beijo entre as mulheres.

Pouco ou quase nada se discutiu em relação ao PLC122, à violência contra a comunidade LGBT provocada pela crescente homofobia e estimulada pelo debate caricato das tevês abertas.

Um pouco mais cedo, o Jornal da Record fez possivelmente a abordagem mais preconceituosa e tendenciosa contra os materiais pedagógicos anti-homofobia. Não havia um pingo de jornalismo na matéria.

É assustador como as tevês comerciais (concessões públicas) dão voz crescente à homofobia e aos homofóbicos, aos fundamentalistas, aos conservadores, aos preconceituosos que acham que vivemos num Estado Teocrático e absolutamente nada aconteçam com elas. Marco regulatório, já!

Ontem também li uma entrevista com Bolsonaro na Folha Teen, incrível como alguém que se arroga ‘defensor da família’ possa ter um vocabulário tão chulo.

Lembrando que este Caderno da Folha é destinado aos adolescentes é no mínimo contraditório ver a grande mídia condenar um material pedagógico cuidadoso que objetiva criar uma cultura de paz e anti-homofóbica,  dar amplo espaço para um deputado que se refere às mulheres, aos negros e aos homossexuais de maneira tão desrespeitosa.

A começar pelo título da matéria: ‘Salvei o Negão Celso, boiola, da morte’, lembra Bolsonaro. Além de ‘boiola’,  Bolsonaro’ usa ‘viadinho’ para definir os homossexuais: “Agora vocês falam de homofobia. Naquele tempo, era viadinho mesmo.”

Quando o assunto são as namoradas da época de adolescência do deputado que estimula a homofobia, o tratamento desrespeitoso prossegue: “Quando aparecia uma menina, era igual cadela no cio, aquele bando de cachorro atrás.” Ou ainda: “A grande preocupação era gonorreia, mas, se você pegava, era marcado pela galera como “machão”, “garanhão”. Ao se referir à própria mãe ele diz:  “Minha mãe, basicamente, era aquela chocadeira: um filho atrás do outro.”

Bolsonaro também defende a tortura praticada pelo Estado durante a Ditadura como ‘regra do jogo’: “Teve gente torturada, sim. Nós não negamos. Você só pode obter informações dessa maneira, é a regra do jogo.”

Como educadora luto para uma escola que respeite as diferenças, uma escola sem homofobia, racismo, sexismo ou qualquer outra expressão de preconceito, discriminação e violência. Como cidadã, vivendo em um Estado democrático não é possível acharmos que faz parte da ‘liberdade de expressão’ a defesa à tortura e o tratamento desrespeitoso dispensado às mulheres, homossexuais e negros como os expressos por Bolsonaro e seus adeptos.

Em um regime democrático no qual vigoram leis cidadãs, discursos homofóbicos, racistas, sexistas não podem ser tratados e aceitos como “opinião”, eles são demonstrações claras de preconceito e estimulam a violência.

Nossa sociedade precisa se preocupar mais com esta cultura da violência disseminada pela grande mídia que dá voz e vez a esses políticos caricatos e quase nunca espaço para um debate sério e responsável que possa contra argumentar contra  esta cultura do ódio e pela defesa das verdadeiras liberdades democráticas e garantia dos direitos humanos.

Se tratamos com o descaso que estamos tratando esta questão séria o ovo da serpente do autoritarismo, do fascismo vai sendo chocado a olhos vistos e resulta em pura expressão de ódio que já podemos ver em vários espaços sociais.

Fiquem com um estudo da Safernet que evidência com muita clareza o resultado da expressão do ódio vendido pela grande mídia irresponsável como ‘liberdade de expressão’.

SaferNet: Bolsonaro agravou violência de ataques no Twitter
Por: Ana Cláudia Barros, no Terra Magazine
18/05/2011

A máxima “a internet é um espelho fiel da sociedade” parece ainda mais cabível quando observadas as ondas de discriminação e ódio que têm emergido nos últimos meses no Twitter. Análise da evolução diária das denúncias no microblog, elaborada pela SaferNet e obtida com exclusividade por Terra Magazine, confirma o que já se suspeitava: eventos do “mundo real” impactam diretamente o ambiente virtual.

Nas cinco principais ondas de ataques e nas manifestações de menor proporção deflagradas no Twitter, no período que vai de novembro de 2010 a 16 maio deste ano, essa correlação fica evidente, conforme enfatiza o presidente da SaferNet Brasil – organização não-governamental que combate crimes contra direitos humanos na rede -, Thiago Tavares.

Ele chama a atenção para o “aumento significativo” da frequência e da violência dos ataques após a entrada em cena do deputado federal Jair Bolsonaro (PP-RJ).

– Com suas declarações polêmicas, o Bolsonaro acendeu o pavio e encorajou algumas ondas sucessivas de homofobia no Twitter e nas outras redes sociais no Brasil; Orkut principalmente – afirma, destacando a conexão entre realidade “online” e “offline”.

– Se forem cruzados os dados da planilha com as notícias veiculadas na imprensa, é possível perceber ligação com fatos, como disputas no Congresso, violência a homossexuais na Avenida Paulista, chuvas no Nordeste, metrô em Higienópolis.

Sobre as ondas menores, acrescenta:

– Elas têm se apresentado constantes ao longo de 2011. Em sua maioria, foram detonadas pela polarização do debate em torno dos direitos dos homossexuais.

De acordo com Tavares, a incidência das manifestações de discriminação começou a se acirrar a partir do final do segundo semestre de 2010. Sobre os motivos deste crescimento, argumenta:

– Dois fatores são importantes e, em conjunto, ajudam a entender esses números. O Twitter se expandiu muito no Brasil do segundo semestre pra cá. Hoje, tem em torno de 15 milhões de usuários (no mundo, são cerca de 180 milhões). O aumento expressivo na base de usuários também influenciou no número de casos – diz, prosseguindo com a explicação:

– Outro fator importante foi a violência no debate eleitoral. Essa agressividade que permeou a campanha dos candidatos foi transposta para os eleitores. O clima de animosidade criou um ambiente propício para essas manifestações exacerbadas de ódio.

Evolução das denúncias de manifestações de ódio no Twitter em 2010(Fonte:SaferNet)


Evolução das denúncias de manifestações de ódio no Twitter em 2011 (Fonte:SaferNet)

De janeiro a dezembro de 2010, 2.372 tweets(mensagens postadas no microblog) com teor discriminatório foram encaminhados à Central Nacional de Denúncias de Crimes Cibernéticos, criada pela SaferNet e operada em parceria com os ministérios públicos federal e estaduais e a Polícia Federal.

Ao todo, foram contabilizados 23.589 denunciantes. Só de janeiro a 16 de maio de 2011, 1.181 tweets com as mesmas características foram reportados à SaferNet, quase a metade do acumulado no ano passado inteiro. Até a mencionada data, 8.942 pessoas se dispuseram a delatar os casos de discriminação. Todas as denúncias são anônimas.

“Detonadores”

O presidente da SaferNet explica que as ondas de preconceito no Twitter Brasil são desencadeadas pelo que chama de “perfis detonadores”, usuários que “assumem a dianteira e inauguram uma sequência de ódio, uma gritaria generalizada”.

A primeira grande onda aconteceu entre 1º e 4 de novembro do ano passado, logo após o anúncio do resultado das eleições presidenciais. Conforme a SaferNet, o perfil da estudante de Direito Mayara Petruso, apontada na época como pivô da polêmica em razão do comentário de que queria afogar os nordestinos, foi, de fato, o estopim das manifestações de preconceito. Neste período de quatro dias, 4.002 pessoas acionaram a ONG para denunciar.

Tavares comenta que foi necessário um “tratamento de choque” para estancar o tumulto na rede.

– Preparamos um relatório com 1.037 contas do Twitter, mandamos a lista para o Ministério Público e comunicamos à imprensa. Foi imediato. Cessou rapidamente.

– Se você comparar essa onda com as demais, vai perceber que as outras ondas duram, no máximo, 48, 72 horas estourando. A onda contra os nordestinos após as eleições, por sua vez, iria perdurar por mais de uma semana. Ela já durava cinco dias. Era uma atividade enorme. As mensagens estavam cada vez mais agressivas. Isso nos surpreendeu. Era uma onda absolutamente sem controle. Por isso decidimos adotar uma ação enérgica.

O segundo “tsunami” virtual foi registrado entre 17 e 19 do mesmo mês, após o lançamento, às vésperas do Dia Nacional da Consciência Negra, da campanha no Twitter “#HomofobiaNão”. Em contraposição ao movimento, grupos conservadores criaram o perfil e a hashtag “#HomofobiaSim”, o que impulsionou uma sequência de manifestações de repúdio aos homossexuais. Ao todo, 8.574 denunciaram.

Já a terceira onda, observada entre 29 e 30 também de novembro, teve como mote o neonazismo. Os alvos? Negros e gays. Os dois perfis apontados como os responsáveis pela propagação do ódio (@anjooslava e @anjonazistaheil) já não estão mais ativos, mas os comentários racistas e homofóbicos podem ser vistos via buscador Topsy, que mostra quem foram os autores da divulgação de determinado tweet e exibe as mensagens mais repassadas pelos usuários.

Entre os recados deixados pelos perfis, ataques frontais como: “Eu odeio homossexuais, desejo que todos eles tenham uma morte sofrida e dolorosa, meu sonho é um dia ver a humanidade livre dessa raça!”; “Meu avô foi brutalmente assassinado por um negro. Como eu vou defender esses lixos?”; “Rejeite o lixo multicultural! Despreze a escória homossexual!!! Não irei me acovardar, e sim massacrar”; “Esse país é um lixo, eles querem te obrigar a amar negros, homossexuais. Se for pra viver nesse lixo a minha vida toda, prefiro a morte”.

A quarta grande onda, ocorrida em 28 e 29 de dezembro, também foi alavancada pela aversão aos gays, lésbicas, transexuais e bissexuais. Segundo a SaferNet, os perfis detonadores foram @contraGays e @estuproSim, este último cancelado.

A série de ataques mais recente aconteceu em 12 deste mês, após a eliminação do Flamengo na Copa do Brasil pelo Ceará. Em um único dia, 5.150 internautas, indignados com o teor das mensagens de preconceito contra nordestinos, recorreram à SaferNet.

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