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07 de julho de 2014, 17h16

Vagão feminino: Guilhotina ou aspirina?

Guilhotina ou aspirina?

Por Yuossef Igor
07/07/2014

metrô

Aprovada a criação de uma vagões exclusivos para mulheres, resta uma pergunta e alguns apontamentos, é o oprimido a principal razão para o livre exercício do opressor?

Acredito que se ainda não alcançamos o limite da barbárie patriarcal, estamos bem próximos e não estou falando do Oriente Médio apenas, mas principalmente do mundo ocidental e cristão, instituímos a culpa, culpabilizamos as vítimas e deixamos à margem as medidas coerentes, o problema é da mulher – é o que se pode entreouvir em cada:

”Essa é para casar, essa é para transar”
”Fulana parece um homem”
”Mas o que ela queria saindo vestida assim e sozinha?”

Esquecemos o óbvio, descartamos o necessário e urgente. Vagão feminino não resolverá os milhares de estupros que acontecem todos os dias, não calará a sanha de alguns monstros paridos por nossa cultura latina e machista, que ainda entende a mulher como propriedade, a baba dos homens adultos infantilizados pela sociedade de consumo e cuidadora da prole – crescei e multiplicai-vos, parece que é isso nao é?

Mas então que fazer?

Educação bastaria?

Policiamento ostensivo e um sistema eficiente de prevenção e repressão a crimes contra a mulher?

Nascemos errados, fomos criados de maneira equivocada e opressora, a cultura da culpa e a política do medo nos batizou como bestas da floresta, mas ainda piores, nos predamos de maneira doentia e faz parte do prazer de alguns a prática disso, a negação d@ outr@.

E desde Eva, os mais velhos nos ensinaram que a dor é culpa delas, que a sua suposta fragilidade é o motivo de nossa dominação. Todos os domingos ouvimos na missa, culto, reunião que dentro delas reside o pecado original e por sua causa provamos aquilo que nos condenou a ser o que somos, assim elas são apenas nossas mães, nossas namoradas, nossas mulheres, como se houvesse o diabo de uma lógica paramentada e supostamente divina para se legitimar o apartheid impostos a elas desde o principio da humanidade.

“A mulher é o ‘negro’ do mundo” (Woman is the nigger* of the world), o objeto com feições humanas, aquilo que acreditamos que devemos cuidar e defender, nunca ouvi-las ou cogitar levar em consideração o que dizem, sentem ou pensam.

Em 1954 nos estados do sul dos EUA, haviam bancos reservados para negros nos ônibus, na África do Sul alguns lugares eram vetados a determinados grupos étnicos, hoje até o mais conservador ao pensar nisso sente vergonha da humanidade. A criação de vagões reservados para mulheres é o triunfo da lógica absurda que os nossos tempos gestaram, do retorno ao obscurantismo capaz de criar a ideia de que existem seres humanos de 2º classe.

Vagão feminino como política para coibir os abusos sofridos por nossas companheiras, é tão absurdo quanto recomendar a guilhotina como analgésico, pois segrega a vítima e empodera o opressor, nos divide. Quando o correto seria combater o machismo nosso de cada dia. E como combater? Segregando, separando, tornando a fronteira entre homens e mulheres ainda mais profundas?

Qual o próximo passo, leis sobre o que vestir ou a instituição de lugares nas cidades e no trabalho apenas para elas?

Vagão feminino não combate o machismo, apenas o reafirma.

Camarada Zé

Nota do Maria Frô: Tanto o autor do texto como a blogueira conhecem a carga pejorativa que o termo *nigger carrega e conhecem o contexto da frase polêmica de Yoko Ono. Ela permanece no texto com a referência dada por Lennon à época, citando James Connolly: “o trabalhador do sexo feminino é o escravo do escravo”, sabemos que mesmo entre as mulheres, as trabalhadoras negras estão na base da pirâmide social e sofrem opressão de todos.

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