o colunista

por Cleber Lourenço

16 de maio de 2019, 11h57

Alunos nas ruas e dinheiro no bolso

Cleber Lourenço, em seu artigo de estreia na Fórum, diz: “Este governo pode ter uma série de defeitos, mas devo bater palmas para a habilidade que possui em desviar a atenção do público, com uma mestria só vista antes em Harry Houdini”

Foto: Reprodução

É pessoal, hoje é a minha estreia neste site. Infelizmente ou felizmente assuntos não faltaram para que eu pudesse escrever. Entre tantos temas e atropelos sofri com uma crise de indecisão. Por fim decidi falar sobre o assunto do momento.

Manifestações e gente na rua, teremos um retorno de 2013? Difícil afirmar. Mas quando milhões de brasileiros lutam pela ciência, pela educação e por um novo amanhã, há quem esteja enchendo os bolsos com a confusão toda. Esqueça o sofrível ministro da Educação. Foco no Ministério da Economia!

Fundos de investimento criados no passado pelo superministro lucraram com educação a distância em operações que são alvo de investigação da PF e do MPF. Paulo Guedes, inclusive, foi quem sugeriu a escabrosa ideia de “vouchers” no Chile, uma vez que deu aula lá durante o governo Pinochet.

Ou “vouchers” seriam uma espécie de “vale-faculdade“ e diferente das bolsas de estudo como o PROUNI teriam um valor máximo já fixado. Sendo assim, faria estudantes mais pobres serem obrigados a frequentar faculdades de qualidade inferior, enquanto a educação privada enche os bolsos e a qualidade no ensino não muda.

Deu errado no Chile e deu errado nos EUA. A ação é uma forma de maquiar a deficiência pública em oferecer ensino de qualidade, enfiando todo jovem em qualquer curso. Basicamente, o governo se reserva o direto de tolher as aspirações e sonhos de jovens de baixa renda.

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Na verdade, faltam exemplos que tiveram êxito. Apenas países com economias debilitadas adotaram o modelo de “vouchers”, seja na saúde ou na educação: Bangladesh, Índia (Ásia), Moçambique, Nigéria, Senegal, Tanzânia, Uganda e Zambia (África). Infelizmente é um hábito desde governo, o apego ao que há de pior em práticas econômicas parece ser uma diretriz. Quer outro exemplo, basta ver o modelo de capitalização da Previdência. Não deu certo no Chile, já pensam, inclusive, em como rever isso.

Mas voltando para a educação. Em fevereiro, uma empresa fundada por Paulo Guedes anunciou que pretendia levantar US$ 500 milhões em “private equity”. O novo fundo seria o terceiro da empresa e teria como alvo empresas dos setores de consumo, educação e saúde.

Veja, educação e saúde! Setores onde o governo estuda a implantação do desastroso sistema de “vouchers”. E mais: Guedes renunciou ao seu cargo de presidente da empresa no ano passado e vendeu sua participação. Mesmo assim, os planos do governo vão de forma frontal aos interesses de seu antigo negócio.

Além disso, em sua carreira na iniciativa privada o ministro atuou com investimentos no setor de educação privada e de educação a distância. Apenas o Fundo de Investimento em Participações (FIP) BR Educacional, negócio também capitaneado pelo ministro Paulo Guedes, levantou R$ 400 milhões.

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O fundo é alvo de uma investigação do MPF, que afirmou: “O aporte de recursos nesse fundo foi feito às cegas, como que num voto de confiança na equipe de Paulo Guedes”.

Ainda em 2013, quando Bolsonaro não passava de nada além de ídolo para adolescentes amantes do neonazismo e conservadorismo, o fundo remanejou seus investimentos adquirindo outra empresa, a Gaec Educação, dessa vez com um ágio de 1.118% sempre, de acordo com informações da Previc.

Parte do fundo milionário foi reinvestida em oito empresas de educação. Entre elas estão a “Ser Educação”, que tem uma rede de universidades com 150 mil alunos; a “NRE”, com focos em cursos de medicina e 8 mil alunos; e a “Q Mágico”, que vende soluções para ensino digital e ensino a distância.

Se não bastasse isso, enquanto o corte de 30% na educação preocupa estudantes e cientistas em todo o país, há quem comemore a situação toda e ainda dê gargalhadas com o país que está na iminência de uma convulsão social. Sim, as empresas de educação privada tiveram alta das suas ações na bolsa.

O ponto mais baixo da Kroton foi 9,25, no último dia 7. Esta semana ela subiu dois pontos e está sendo vendida a 9,95. Também na semana passada, a Estácio atingiu seu ponto mais baixo, sendo vendida a 26,48 e, agora, começou a semana avaliada em 28,46. Outro conglomerado educacional, a “Ser”, que estava valendo 22,46, hoje vale valendo 24,09.

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Que coisa né? Mas as coincidências (estas que são rotina no governo) não param por aí! Além disso, a irmã de Paulo Guedes ainda é uma empresária no ramo da educação, e também líder da Associação das Universidades Particulares (Anup), que entrou em rota de colisão com o “Sistema S”.

Perturbador né? Aaaah se fosse o PT! Moro já teria grampeando o presidente, ministro e mandado tudo para o Jornal Nacional!

Seria esse o motivo de tantos malucos no Ministério da Educação? Desvio de atenção? Pois não é normal tamanho primor em escolher o suprassumo da incompetência, uma gente grosseira, sem técnica e que só promove gritaria.

Este governo pode ter uma série de defeitos, mas devo bater palmas para a habilidade que possui em desviar a atenção do público, com uma mestria só vista antes em Harry Houdini.

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*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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