o colunista

por Cleber Lourenço

20 de agosto de 2019, 14h53

Bala na cabeça de sequestrador e Granada na cabeça dos cidadãos

Ao sair do helicóptero aos pulinhos típicos de um unicórnio feliz, Witzel não só se prestou a um papel que não lhe cabe como desrespeitou as vítimas do sequestrador de maneira unânime

Wilson Witzel (Foto: Flickr/ Governo do Rio)

Wilson Witzel não decepciona. Após atiradores do Batalhão de Operações Especiais (BOPE) executarem o sequestrador do ônibus na ponte Rio-Niterói, o governador do Rio de Janeiro não perdeu tempo e com uma demonstração vergonhosa de má fé acabou pegando carona na tragédia do dia para sua eventual campanha para reeleição ou até mesmo para a presidência da República.

Ao sair do helicóptero aos pulinhos típicos de um unicórnio feliz, Witzel não só se prestou a um papel que não lhe cabe como desrespeitou as vítimas do sequestrador de maneira unânime.

Duvido que o governador estivesse preocupado com a segurança das vítimas, afinal de contas semana passada mesmo tratou com desfaçatez a morte de diversos jovens executados sumariamente por policiais militares. Chegou ao cúmulo de dizer que os moradores deveriam evitar pontos de ônibus durante operações policiais, operações estas que passam longe das zonas dominadas por milicianos, o verdadeiro inimigo do trabalhador honesto no Rio de Janeiro.

O governador não estava comemorando as vidas salvas, mas sim a morte de um bandido rendido.

Não, não estou aqui para fazer a Advocacia de um criminoso, mas sim a defesa do devido processo legal, do estado democrático de direito e a civilidade, todos em extinção nesse país.

O bandido deveria ter sido detido, julgado e condenado por seus atos ponto final. Ele já não oferecia risco a ninguém, ainda mais com uma arma de brinquedo.

Faço um desafio aqui: se governador Wilson Witzel é tão “humanista” e preocupado com a segurança dos cidadãos quero que me diga o que fará em relação aos jovens assassinados por PMs e com os policiais que foram filmados lançando granadas do alto de um helicóptero em zona urbana.

Mesmo que fosse inevitável a morte do sequestrador (algo que eu jamais seria contra caso fosse uma última medida extrema, o que não foi o caso hoje) a comemoração do governador permaneceria tão desprezível quanto foi. Ele não percebeu que é chefe de estado, um governador e não membro de uma torcida organizada. Witzel sobre do mesmo mal que seu companheiro de barbaridades, Jair Bolsonaro, pessoas pequenas demais para cargos de muita importância.

Não vejo essa força toda contra os milicianos que chegam a tomar conjuntos habitacionais inteiros e até mesmo condomínios de militares!

Reafirmo: o desfecho da operação não seria tão lamentável se não fosse a deplorável intenção eleitoral do governador em ir ao local fazer campanha escancarada, um gritante sinal de desrespeito com as vítimas que ainda acabavam de sair daquela situação.

Wilson Witzel, se comporte à altura do cargo que ocupa! 2022 ainda não chegou! Não use tragédias como palanque.

O Brasil acorda mais doentio do que quando foi dormir.

 


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