o colunista

por Cleber Lourenço

08 de junho de 2019, 08h34

Bolsonaro, Neymar e o reflexo do Brasil

Cleber Lourenço: “O caso Neymar é nada além do que um reflexo do que este país vive: uma ânsia em jogar pessoas para o linchamento em praça pública”

Neymar se livra de multa milionária após acusações de sonegação de impostos (Foto: Reprodução/Twitter)

É, mais uma vez estou aqui para pontuar o governo desgovernado, a política e colocar em pratos limpos aquilo que pode ter passado despercebido.

Muita gente não deve ter percebido, mas o que o caso Neymar tem de relação com Jair Bolsonaro? Tudo! É o famoso “jogar para a torcida” e o desprezo pelas instituições.

Tal como o governo, Neymar pouco se importou em levar as “provas” para a polícia, advogado ou quem quer que seja. Foi rápido, jogou tudo na internet para milhões de seguidores, afinal de contas o que é mais importante? O julgamento dos tribunais ou da caixa de comentários? O que é melhor? A ordem legal ou a euforia da “galera”?

Acha um exagero? Basta ver como esse governo se comportou também. Ao invés de trabalhar para fazer maioria no Congresso e aprovar suas reformas, preferiu rachar a própria base aliada, incendiar o núcleo de apoiadores e jogar para a torcida, no caso às ruas, o direito de legislar sobre uma proposta do Executivo.

E o show de horrores continua com o ex-advogado da possível vítima de estupro rompendo com sua cliente e ainda expondo diálogos privados que teve com ela para o Jornal Nacional. É quando tudo isso se torna ainda mais grave. Afinal de contas, se nem ela teve o sigilo respeitado, o que dirá cada um de nós quando precisarmos de defesa?!

Essa é a primeira vez que eu vejo um advogado entregando seu cliente, em aparente afronta ao art. 26 do código de ética. Se isso, por si só, não é um absurdo, então não sei realmente com o que devo ficar impressionado.

Até o momento a OAB se mantém em silêncio sobre o assunto, e não faz nada contra o “advogado” que atropelou o código de ética no caso. Estará acenando para a delinquência institucional que esse país vive e é promovida pelo Palácio do Planalto.

Afinal de contas, pra que justiça, pra que Congresso, pra que juízes, pra que ordem se podemos jogar tudo para a torcida e pagar para ver, né?

Tudo isso enquanto a Globo revela nome de fonte (no caso, o ex-advogado) de representante da suposta vítima de Neymar, ao vivo. Quem se atreve a dar entrevista ou declaração a uma emissora que promete sigilo e ao vivo quebra o acordo?

O caso Neymar é nada além do que um reflexo do que este país vive: uma ânsia em jogar pessoas para o linchamento em praça pública, tal qual como Caesar perguntando ao público se deveria ou não jogar o escravo aos leões. Ainda para os religiosos fica a observação: foi com este mesmo ímpeto de “jogar pra galera” que Jesus foi executado.

Pelo visto o desprezo pelas instituições chegou também na esfera civil. Onde vamos parar com essa delinquência institucional que tomou de assalto este país?

Poderia discorrer sobre este assunto em muitas linhas, mas hoje é sábado, sábado de manhã e acho que todos precisam descansar.

*Este artigo não reflete, necessariamente, a opinião da Revista Fórum.

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