quinta-feira, 22 out 2020
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MP segue com a ideia bolsonarista de poder moderador

Não é segredo que desde 2013 o MP segue determinado em se colocar acima de todas as outras instituições, servindo não só como poder moderador, como também como regulador de todas as decisões em todas as instâncias do país

Compliance?
Perde Moro, ganha (em partes) o país. O ex-juiz e ex-ministro voou perto demais do sol e assim como Ícaro, teve suas asas queimadas.

Foram inúmeras as colunas em que apontei o extremismo desenfreado de Moro, um ativo militante da extrema-direita. Com a “moderação” do presidente Jair Bolsonaro, resta apenas a imprensa ao lado do ex-juiz que agora pensa em ir embora do país, inviabilizado politicamente e com dificuldades para conseguir um emprego como advogado.

Disse que trabalhará com “compliance”. Parece que vai tentar virar consultor. Quem garante que Moro não vazará para a imprensa o que der na telha? Moro não é confiável e a iniciativa privada sabe disso.

O poder moderador
Em meu Twitter estou apontando frequentemente o desejo do Ministério Público em se tornar uma espécie de poder moderador. A tese foi aventada por alguns juristas e entusiastas bolsonaristas que no início do ano julgavam que era papel das Forças Armadas fazer o “meio de campo” e o controle externo das instituições da República.

Na época recordo-me de alguns “progressistas” eufóricos para dizer: “eu falei que ele ia dar golpe!” A tese não prosperou, pelo menos entre o bolsonarismo.

Não é segredo que desde 2013 o MP segue determinado em se colocar acima de todas as outras instituições, servindo não só como poder moderador, como também como regulador de todas as decisões em todas as instâncias do país.

A reportagem publicada ontem pelo The Intercept deixou claro isso, ainda em 2018, quando Moro abandonou a carreira de juiz e assim, iniciou o processo para a sua sucessão. O processo sofreu interferência direta de Deltan Dallagnol e da turma da lava jato que queria escolher de maneira cirurgia quem iria herdar a lava jato.

Com isso o MP arbitrou e controlou um processo do poder judiciário, algo que não lhe compete. A presunção é tão absurda que fica estridente que a percepção dos procuradores era de que qualquer um fora de suas bençãos não será bom o suficiente para assumir a lava jato.

A mesma presunção que promoveu a interferência direta no processo eleitoral de 2018 e que faz o MP questionar de maneira truculenta e jocosa decisões do STF e até mesmo da PGR.

Todos esperavam um golpe do Bolsonaro e da turma da farda com apoio dos policiais. Isso não aconteceu.

O que aconteceu de verdade? O Ministério Público desviou a atenção da população com a destreza de um Harry Houdini e agora tenta se colocar como um poder acima dos poderes.

O episódio envolvendo o André do RAP atende unicamente aos anseios do MP em duas frentes: reavivar os pedidos pela inconstitucional prisão em segunda instância acompanhada pela obsessão em prender Lula e colocar o MP como tutor da sociedade e da República.

Se o MP está tão indignado com a fuga do criminoso, por qual motivo não pediu a renovação da prisão preventiva do mesmo? Um “esquecimento” no mínimo conveniente e estopim de todo esse debate.

Comigo não morreu
Bolsonaro treme de terror e medo com a possibilidade de precisar comentar a libertação do traficante. Com a aposentadoria de Celso de Mello pode ser que Marco Aurélio herde a relatoria do processo de Moro contra Bolsonaro.

Um garantista na mesma linha de Celso de Mello que não morria de amores pelo presidente e tinha certa ojeriza por ele.

Estranhamento
Me causa certo estranhamento e preocupação a simpatia que ditos “progressistas” nutrem pelos precursores da lava jato conhecidos como Banestado e Satiagraha, o segundo usou exatamente do mesmo expediente lavajatista para bagunçar o país e detonar as instituições com uma dobradinha com a imprensa e vazamentos convenientes.

Tudo isso em um momento onde o país se vê próximo de acabar com o descalabro da cruzada perversa contra a República.

Já ouviram falar do termo quinta-coluna?

E mais, por qual motivo o PCdoB aceitou lá no passado a filiação de Protógenes Queiroz em suas fileiras, diferente de Moro, este era um delegado da PF. Muda-se apenas o cargo, o método era o mesmo.

Cleber Lourenço
Cleber Lourenço
Não acho que o debate politico e o jornalismo precisem distribuir informação de forma fria e distante dos leitores, notícias são somente úteis no contexto do cotidiano e é nisso que acredito. E-mail: [email protected]