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Fórum Educação
13 de Maio de 2020, 17h39

No dia da abolição, Sérgio Camargo se prende ao reflexo do bolsonarismo extremista

"Um crachá de presidente não faz diferença na história do povo negro", crava o escritor Ale Santos

Jair Bolsonaro e Sergio Camargo Nascimento, da Fundação Palmares (Reprodução/Twitter)

*Por Ale Santos

O Governo Bolsonaro consegue reproduzir figuras fanáticas, descomprometidas com qualquer ciência e cheias de convicções estabelecidas por conflitos com grupos opositores, como o fantasma do comunismo. Não é de se espantar que o atual presidente da Fundação Cultural Palmares, Sérgio Camargo, não seja diferente do grupo que se instalou no Planalto. 

Ao longo do dia ele publicou no site da Fundação vários artigos duvidosos com a intenção de questionar e desconstruir a figura de Zumbi dos Palmares, assim como o conceito de “consciência negra”, que é celebrado no dia 20 de Novembro. 

O Artigo, intitulado, a Narrativa Mítica de Zumbi dos Palmares é escrito por Mayalu Felix, uma doutora em Linguística que é descrita como “cristã e se define uma roqueira liberal-conservadora.”. Uma verdadeira militante do Olavo, que já escreveu uma homenagem para o astrólogo com o título “Ao mestre com carinho

O texto sobre Zumbi é carregado de ataques ideológicos sem evidências e com muitas contradições. Chega a utilizar Olavo de Carvalho como referência, o mesmo autor que já reproduziu pensamentos racistas de autores dos séculos passados como “A verdade é que a contribuição cultural das religiões africanas ao mundo é perfeitamente dispensável, tão dispensável que mais da metade dos negros que há no mundo vive perfeitamente bem sem ela e jamais trocaria a língua árabe por um dialeto iorubá ou a ciência europeia pelas receitas de macumba do sr. Verger”

Em sua confusão, a autora passa o texto todo fazendo ilações e acusações ao “movimento negro”, uma insistência de figuras da direita de generalizar e colocar todas as variações de movimentos em uma simplificação boba.

Como o trecho:

‘Depois de degolado, Zumbi foi castrado e teve o pênis enfiado dentro da boca, uma forma antiga de humilhar os homossexuais. Mas disso o Movimento Negro faz silêncio sepulcral, pois é conveniente que o mito etnocultural do libertador dos negros seja viril, palavra que, como lembra Olavo de Carvalho no artigo Causas Sagradas, tem no latim a mesma origem de “virtude” e “varão”. – Mayalu Felix’

A utilização de Olavo de Carvalho para a defesa do ponto de vista atual da Fundação Palmares é emblemático. Precisamos lembrar que o maior predicado de Sérgio Camargo é ser conhecido como um feroz difamador de “negros esquerdistas” na internet, alguém que chegou a ter sua conta bloqueada por suas ofensas racistas a personalidades e artistas de quem ele discorda. Existem muitos outros nomes, inclusive à direita, que seriam capazes de estabelecer um trabalho com razoabilidade e intelecto, mas Bolsonaro o colocou no cargo para fazer o contrário e ele faz com propriedade: Continua mitando, até contra a Regina Duarte e segue a cartilha bolsolavista mais fanática, premiado com comentários do Eduardo Bolsonaro em suas redes sociais e compartilhado pelos perfis mais conhecidos do que seria o gabinete do ódio. 

Enquanto as polêmicas vão passando, a população negra não vê nada acontecer: A Fundação mudou de prédio, Sérgio tenta estabelecer um novo movimento isabelista, mas não faz nada que tenha um impacto social e real. Recentemente a CUFA (Central Única das Favelas) que também é um movimento negro e tem participação de rappers já arrecadou mais de 10 milhões de reais em um fundo social chamado Mães da Favela

Assim como outros membros do governo, Sérgio Camargo vive de narrativas e likes em redes sociais. Espero que as dele cresçam bastante, pois sem um trabalho expressivo que entregue algo de real (e eu duvido que ele consiga), vai descobrir que um crachá de presidente não faz diferença na história do povo negro e uma hora toda essa febre passa. Talvez ele nem se importe com isso, é cada vez mais notável que suas reais intenções não são estabelecer um outro movimento negro, mas só, ser mais uma extensão do movimento bolsonarista.

*Ale Santos é escritor


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