Potência Política

por Adriana Mendes

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15 de março de 2020, 07h28

Marielle para sempre presente

Quem mandou matar Marielle não sabia que existem muitas Marielles no Brasil e que não será possível calar a voz de todas

Marielle Francco

Na manhã de março de 2018, passando um café forte, ainda bem cedo, como de costume, chega uma mensagem do amigo, escritor e jornalista carioca, Tom Farias: “Mataram a Marielle”. De que Marielle ele estaria falando? Para não parecer desinformada, fui atrás dos sites de notícias. Era a Marielle Franco, aquela vereadora do Rio de Janeiro, negra e periférica do PSOL. Então lembrei de uma conversa que tive com alguns amigos deste partido, que estavam pensando em lançá-la como deputada nas eleições de 2018 ou mesmo como vice-governadora.

Eu sabia que ela existia por ter amigos próximos ligados ao partido dela e por acompanhar mulheres na política, mas foi só a partir de sua execução e do motorista Anderson Gomes que conheci a dimensão de Marielle. Só após seu covarde assassinato fui atrás de seus projetos de Lei, suas lutas, fui saber como denunciava os milicianos do Rio de Janeiro e protegia os PMs ameaçados e famílias de PMs assassinados. Foi a partir de sua execução que conheci outras mulheres que conheciam e se inspiravam em Marielle. E naquele ano eleitoral tão fora da curva, muitas mulheres negras se candidatam e tantas outras se elegeram. E tenho comigo que foi justamente pelo assassinato de Marielle que tantas mulheres se jogaram na política, sem medo.

No ano passado tive a oportunidade de entrevistar as deputadas federais Talíria Petrone, Áurea Carolina, Fernanda Melchiona e Sâmia Bonfim. Todas carregavam consigo um pouco de Marielle, principalmente a deputada Talíria, amiga  pessoal da “Mari”. Neste dia, no seu gabinete em Brasília, Talíria recebeu ameaça de morte. A entrevista, que não duraria menos do que uma hora, foi cancelada, mas ela ainda gravou um vídeo curto, chamando mais mulheres para a política, falando da importância de nos vermos representadas nos Congressos, Assembleias e Câmaras.

Quem mandou matar Marielle não imaginava todas as sementes que ela havia plantado, seja com suas palavras de indignação pela condição da mulher no Brasil (principalmente as negras, periféricas, LGBTs) ou na forma do seu sorriso lindo e olhar esperançoso.

Quem mandou matar Marielle não sabia que existem muitas Marielles no Brasil e que não será possível calar a voz de todas. Não sabia que ela resistiria, apesar de morta, em muros de escolas, em camisetas, em documentários, em palestras, em homenagens e manifestações populares. Que existem mulheres e homens brancos e não periféricos que também querem justiça para Marielle e Anderson.

A execução ter acontecido pouco depois do dia 8 de março, também foi algo que aumentou a força e o período das manifestações pelo Dia da Mulher. Desde o ano passado, o #14M entrou no calendário das manifestações populares e ampliou a voz da mulher. Hoje estavam previstos atos em todos os cantos do País, mas por conta da pandemia do COVID-19, foram canceladas. Por isso, recomendo que passemos esse dia lendo, escrevendo, nos informando, pesquisando e refletindo sobre crimes políticos, lutas raciais, feminismo, líderes negros, igualdade social.

“Quem mandou matar Marielle e por quê?” são perguntas que jamais calarão. Ela vive e sempre viverá nos corações e mentes das pessoas que sonham e lutam por um mundo mais justo, de oportunidades iguais para todos. Não vamos chorar a morte de Marielle. Vamos nos inspirar em Marielle. Vamos fazer Marielle sempre presente.


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