Potência Política

por Adriana Mendes

O que o brasileiro pensa?
12 de janeiro de 2020, 13h38

Sejamos o ponto de equilíbrio

Não deve ser tão difícil convencer as pessoas que ter veneno na comida é ruim, que desmatamento e queimada não é legal, que subemprego não é empreendedorismo e sobreviver para pagar contas não é vida

Pretendia escrever sobre outro tema, nesse primeiro texto do ano, mas sabemos que 2020 não começou muito positivo para os que ainda tem um pouco de noção da realidade política em que vivemos.

Durante a passagem de 2019 para 2020 estava no meio do cerrado, no coração do Brasil, em uma comunidade alternativa, idealizada por amigos que compraram um grande terreno e estão reflorestando uma área comprada de um latifundiário. Não ouvimos fogos de artifício, não demos abraços desejando “feliz ano novo”, acho que estávamos mais era comemorando o final de um ano que parecia infinito e insuportável. Já no dia primeiro de janeiro amanheci como uma reação alérgica ao camarão que comi na noite anterior. Depois passei dias com febre, dores no corpo e calafrios. E fiquei acompanhando as notícias do Brasil e do mundo: Austrália pegando fogo, presidente do Brasil falando que “jornalista é espécie em extinção” e que os livros didáticos “tem um amontoado de monte de coisas escritas, tem que suavizar isso daí”. Primeiro, sempre soube que jornalismo é uma profissão, portanto o jornalista é um profissional e não uma raça. Segundo, em um País com índices desesperadores de desemprego, seu “líder supremo” desejar a extinção de uma profissão diz muito sobre seu “trabalho de fomentação de emprego”. Isso tudo deprime e eu com febre e calafrios fiquei ainda com a imunidade mais baixa.

Então pensei que para esse ano, entre todas as metas que insistimos em ter para buscar um pouco de esperança, cuidar da saúde física é o fundamental. De que adianta ter razão e não ter voz, literalmente, para falar? Os tempos estão difíceis e para manter a saúde mental também precisemos manter a saúde do corpo. Precisamos estar fortes para aguentar todas as batalhas que estão por vir. É muito bom sair para beber com amigos, mas também é muito bom praticar esportes com eles. Se você, querido leitor, já foi atleta um dia, seja profissional ou ocasional, volte para as quadras, piscinas ou ginásios poliesportivos. Se você nunca praticou um esporte, saia para caminhar, depois correr, se alongar, procure um curso de yoga, Tai Chi Chuan, dança, encontre algo que te movimente e te faça querer continuar. Um cérebro bem oxigenado pensa melhor, reage mais rápido.

Mas também não podemos ficar só reagindo. Esse ano teremos eleições e serão fundamentais para vencer o fascismo que cresce diariamente. Precisamos ter estratégia e não ficar apenas nos defendendo dos ataques à imprensa, à democracia, aos nossos direitos, aos artistas, aos intelectuais. Eles são rápidos demais, querem desmontar a educação porque não interessa pessoas com senso crítico, querem nos censurar, destruir a civilidade. Foi muito triste o tanto de relações cortadas por motivos políticos nesse ano que passou. Por outro lado, como continuar ao lado de pessoas que concordam com o bizarro, o absurdo, que acreditam em fake news e chamam jornalistas de mentirosos? Como disse uma vez o grande Ernest Hemingway “quem está ao nosso lado da batalha importa mais do que a própria guerra”.

E essa guerra, caros, é híbrida, ela mistura política, guerra convencional (prestes a acontecer no Irã), ciberguerra e fake news, entre outras estratégias ainda tão novas quanto complexas. Não é fácil essa guerra, precisamos ser adaptáveis e estarmos muito bem preparados física e mentalmente. Não dá mais tempo de escrever “textão” (até porque eles não gostam muito de ler), se quisermos trazer aliados para nosso lado tem de ser olhos nos olhos. Não deve ser tão difícil convencer as pessoas que ter veneno na comida é ruim, que desmatamento e queimada não é legal, que subemprego não é empreendedorismo e sobreviver para pagar contas não é vida. Sejamos o ponto de equilíbrio que falta nesta nação.

 


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