Quilombo

por Dennis de Oliveira

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05 de abril de 2011, 06h38

Kassab, o aspirante a coronel

O prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, foi ao Roda Viva da TV Cultura no dia 4 de abril. Falou dos problemas da cidade, da fundação do seu novo partido, o PSD, e tentou se aproveitar da condição de nova estrela do xadrez político nacional. Ascensão meteórica do ex-secretário das Administrações Regionais da gestão de Celso Pitta e envolvido com a chamada “máfia dos fiscais” que corroeu a base do então prefeito, abandonado até mesmo pelo seu padrinho Paulo Maluf.

O novo formato do programa Roda Viva não agrada muito, pois assemelha-se ao “Canal Livre”, com um jeito mais intimista e longe da idéia de um “jogo da verdade”  como era antes. Além disto, dois entrevistadores fixos do programa, a apresentadora Marília Gabriela e o jornalista Augusto Nunes, cansam em determinado momento. Marília Gabriela esquece a condição de “mediadora” e tenta fazer do programa uma repetição do seu programa no SBT.

Já Augusto Nunes é uma figura ímpar. Demonstra que a sua doença anti-petista parece cada vez pior, e mesmo que o entrevistado nada tenha a ver com as suas ojerizas, tenta fazer das suas perguntas um espaço para a manifestação da sua opinião “a la revista Veja”.

Exemplos: perguntou a Kassab sobre o mensalão – “os petistas insistem em dizer que não existiu o mensalão, o que eu acho um absurdo, mas o senhor acha que os culpados devem ser punidos?” – ou outra como esta – “o senhor não acha um exagero ter 37 ministros, a máquina não está inchada?” ao que diante da resposta negativa de Kassab, emendou com esta – “o senhor se lembraria dos ramais dos seus 37 ministros se os tivesse?” – e o prefeito disse que sim, desmontando de vez o perguntador que terminou com esta, já com o seu áudio indo para o off“eu não lembraria”.

O prefeito foi apertado pelos outros entrevistadores, Paulo Moreira Leite (também da equipe fixa do Roda Viva), Mônica Bérgamo (Folha de S. Paulo) e Bruno Paes Manso (O Estado de S. Paulo), principalmente o primeiro que cobrou promessas de campanha, como a tarifa zero de ônibus e o último que cobrou uma coerência ideológica do novo partido, o PSD.

O que ficou nítido é a postura oportunista e demagógica de Kassab neste novo cenário político. Tenta demonstrar uma preocupação mais progressista ao insistir com a sua preocupação em relação à área social, o que qualquer pessoa que viva em São Paulo sabe que é falso. Há um claro sucateamento da área educacional com a interrupção do projeto dos CEUs e de toda a estrutura da educação pública, a falta de vagas em creches, a terceirização dos equipamentos de saúde remontando o modelo do antigo PAS de Maluf, mas agora envernizado com a transferência para instituições com certo renome, como fundações ligadas a universidades e a Igreja e o esvaziamento dos aparelhos culturais.

O mais grave de tudo isto é a clara opção da subordinação da gestão municipal aos interesses dos especuladores imobiliários, demonstrada com as constantes revisões do Plano Diretor do município que vem acelerando o crescimento desordenado do município. Em termos de política habitacional emergencial, a prefeitura tem como programa apenas o famigerado “auxílio-aluguel” de R$300,00 por seis meses para moradores removidos de favelas, desabrigados e sem teto. Instrumentos legais como o Estatuto da Cidade em vigor são ignorados como formas de executar uma política urbana de caráter social.

Mas Kassab aproveita inteligentemente uma situação política criada com a ausência de uma consciência cidadã dos paulistanos. As eleições municipais na capital se transformaram quase e tão somente em uma peça de xadrez para a política nacional. Ser prefeito da capital é quase que apenas um cargo administrativo sedutor por manipular um orçamento vultuoso. São Paulo deixou de ser um espaço de referência política muito por responsabilidade da mídia hegemônica que, na sua preocupação em blindar a aliança demotucana, praticamente deixou de cobrir a política da cidade e do estado.

Com isto, o prefeito aproveita para criar um novo partido que não diz muito a que veio – o jornalista Bruno Paes Manso perguntou insistentemente a bandeira da agremiação e o prefeito tergiversou – flerta com todas as forças políticas, elogiando Dilma, Serra e até Alckmin; criticou todos os governos anteriores por não terem investido no metrô (o que inclui tucanos, peemedebistas e malufistas), acena com a esquerda afirmando que o “PC do B colabora com a nossa administração e que foi convidado para integrar o secretariado” (principalmente pelo fato do partido comandar o Ministério dos Esportes e estar na cúpula da organização da Copa do Mundo de 2014 que a cidade de São Paulo reivindica ser sede da abertura), defende as cotas desde que “como mecanismos pontuais”, os direitos dos homossexuais e diz ser contrário a discriminalização do aborto (mas defende penas mais brandas) e que tem “dificuldade” em aceitar a legalização das drogas como defende o “grande ex-presidente Fernando Henrique Cardoso”.

O conservadorismo de Kassab só transpareceu na sua  posição quanto à reforma política: é a favor do voto distrital, contra as coligações nas eleições proporcionais e a favor da cláusula de barreira, o que não deixa de ser interessante, pois é uma medida que contraria justamente um partido novo, pequeno, como o que acabou de criar. Fica claro que não há grandes pretensões do partido novo.

Kassab aspira ser um cacique regional. Não tem pretensões nacionais, pelo menos por ora. O seu oportunismo e sua demagogia aproximam-no muito mais de um político que quer dizer ao Brasil: estou à venda, o meu capital político é a máquina administrativa da maior cidade do país. Vendo que teria dificuldades de fazer isto dentro do seu antigo partido, criou uma pseudo-agremiação nova onde até o ex-candidato a vice da chapa oposicionista, o polêmico e destemperado deputado Índio da Costa entrou. Achar que Kassab rompeu com o DEM por uma divergência ideológica é pura fantasia de alguns apressados. Kassab aspira ser um novo coronel da política, uma figura que em tempos atrás acostumamos a associar a cenários políticos dos rincões mais atrasados do país. A decadência do debate político paulistano está levando a criação de figuras como Kassab.


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