escrevinhador

por Rodrigo Vianna

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26 de setembro de 2011, 13h24

A Era do Aquário e a Era dos Peixes (na rede)

Por Franklin Martins: Estamos vivendo hoje em dia uma revolução extraordinária na comunicação e não temos ainda a dimensão do que ela é. Todos sentimos que está mudando rapidamente, que atores que falavam sozinhos não falam mais sozinhos. A chegada de novos meios é um elemento progressista para a sociedade. Aprofunda a democracia, a entrega da informação e faz com que as pessoas possam se informar melhor, decidir melhor, controlar melhor seus destinos.

por Franklin Martins*, no DoLaDoDeLá
* Palestra proferida em junho desde ano na Universidade de Brasília (UnB)

A chegada de novos meios é um elemento progressista para a sociedade. Aprofunda a democracia, a entrega da informação e faz com que as pessoas possam se informar melhor, decidir melhor, controlar melhor seus destinos.

Estamos vivendo hoje em dia uma revolução extraordinária na comunicação e não temos ainda a dimensão do que ela é. Todos sentimos que está mudando rapidamente, que atores que falavam sozinhos não falam mais sozinhos. Atores que não falavam começam a falar. As coisas estão em ebulição. Estamos no meio de um caldeirão e ninguém sabe exatamente para onde vamos. É essa reflexão que eu queria fazer. Sem pretensão de dizer para onde vai exatamente, mas colocar algumas questões que julgo extremamente importantes.

Não acredito que a imprensa vai acabar. Cada vez que entrou um meio novo, uma mídia nova no mundo da comunicação ela provocou grandes mudanças. Quando chegou o rádio, muita gente achava que os jornais iam acabar. Porque era mais barato, de graça, chegava diretamente e mais rápido. No, entanto não acabou. Quando chegou a televisão muita gente achou que o radio e o jornal acabariam. A televisão, além de tudo, veicula imagem, é mais completa. Quando chegou a internet mais ou menos o mesmo fenômeno se repete, ou seja, muita gente diz o seguinte: jornais, rádios e televisão estão à caminho do cemitério.

Eu não compartilho dessa visão. A experiência mostra que, toda vez que chegou um meio novo, uma nova mídia, ao invés de liquidar o meio que havia antes, ela ampliou o mundo da comunicação e forçou uma reacomodação. Quando o rádio chegou, os jornais não deixaram de existir. O rádio atraiu pessoas que não estavam antes no mundo da comunicação. E muitos dos que começaram a ouvir rádio logo estavam lendo jornal. A televisão tampouco liquidou com quem ouvia rádio e lia jornal. Ela ampliou o mundo da comunicação. Um jornalista americano, não me lembro o nome, diz o seguinte: é como se fosse uma selva e chega uma fera nova. Ela não acaba com as outras, mas força uma nova reacomodação. Aquele ambiente que está ali vai ter que absorver uma coisa nova, e há uma nova reacomodação.

A experiência nos mostra isso, que as novas mídias jogam um papel de ampliação, de democratização, porque atraem mais gente para o mundo da comunicação, para o mundo da informação, para o mundo do entretenimento, para o mundo dos serviços. Elas socializam mais, fazem as pessoas terem uma participação maior na cidadania. A entrada de novos meios é um elemento progressista, porque amplia, democratiza. Foi assim com o rádio, foi assim com a televisão e está sendo assim de uma forma espetacular com a internet. O novo meio não é o exterminador que vem para acabar com os outros. Ele é um estimulador, que chega para lançar novos desafios para todo mundo e para ampliar o mundo da comunicação. Por isso, no geral, a chegada de novos meios é um elemento progressista para a sociedade.

Aprofunda a democracia, a entrega da informação e ela faz com que as pessoas possam se informar melhor, decidir melhor, controlar melhor seus destinos.

Tendo dito isso, estamos vivendo uma revolução sem precedentes na indústria da comunicação porque a internet não é um meio como todos os outros. Ela altera as bases sobre as quais estão organizados os sistemas de comunicação. Vou destacar três aspectos que eu julgo mais relevantes dentro desse processo e depois faço as considerações finais.

Era do aquário

O primeiro aspecto que queria destacar é que a internet não é apenas um novo meio que chega e, portanto, força uma nova ampliação e uma reacomodação. Ela vai além disso porque atinge a essência da concepção de comunicação vigente nos últimos séculos. Desde Gutemberg, é a maior revolução que estamos vivendo na imprensa e não sabemos aonde ela vai acabar. É a maior revolução justamente porque atinge o cerne do modelo sobre o qual se assentou a comunicação nos últimos séculos, ou seja, desde o século XVIII nos EUA e na Europa e desde o século XIX no Brasil. E em que consiste esse modelo? Consiste no seguinte: existe um grupo ativo de produtores da informação e existe uma massa passiva de consumidores. E a comunicação se dá em um sentindo só, dos produtores ativos para os consumidores passivos. Resumindo, é o seguinte: uns poucos falam, e todos, ou a maioria, ouvem, leem ou veem.

Esse modelo valeu para os jornais, para o rádio e as televisões. Valeu e vale, ou estava valendo até agora. Esse jornalismo eu chamo, de brincadeira, de jornalismo do aquário. Não a Era de Aquário do Hair¹ . É que os jornais são inteiramente controlados pelo aquário. O aquário é o comando da redação. Ele fica geralmente dentro de um aquário, uma sala envidraçada onde se tem a visão do conjunto da redação e a redação inteira vê o poder que está ali. É para ela se lembrar que tem alguém que manda, que comanda que, em última instância, é responsável por tudo. Então existe esse aquário, transparente visualmente e nem um pouco transparente no restante. E que mostra aos jornalistas quem manda na redação.

Esse aquário reina absoluto nas redações. Em momentos de maior efervescência, de maior dinamismo, não é tão absoluto assim, tem uma troca maior. Quem foi jornalista nas décadas de 1980, 1990 sabe o que é uma época de muita efervescência. Vimos um processo de redemocratização. Havia na sociedade uma demanda por um jornalismo bom, digno, correto, dependente dos fatos, ligado à inspiração democrática da sociedade e, de modo geral, os aquários foram sensíveis a isso, fizeram mudanças, conectaram, se sintonizaram com o sentimento democrático existente na sociedade, com aquele momento de abertura, de demanda, de aprofundamento de demanda democrática.

Tem outros momentos em que os aquários disseram: “Não. Vamos fazer o que se espera da gente, que é defender os interesses dos acionistas”. E, muitas vezes, deram capa de jornal para defender determinados interesses. A era do aquário significou mal jornalismo. Mas também bom jornalismo. O editor chefe, o secretário de redação, o editor responsável, aquele núcleo que responde a alguém e que, em alguns momentos, é o núcleo do próprio dono do jornal (nas épocas heróicas do jornalismo), reina absoluto na era do aquário.

Nota do Escrevinhador: No DoLaDoDeLá, está disponível o restante do texto – que aborda ainda o jornalismo em rede e de blogs; um novo modelo de negócios; e por que, indepedente do meio, o bom jornalismo continua seguindo as mesmas diretrizes.


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