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por Rodrigo Vianna

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12 de julho de 2011, 09h32

Mino Carta: A gestação do governo de Dilma

Estamos de volta a um clima político inquieto em que a mídia nativa se alia na mira do alvo único, a evocar os tempos do ataque a Lula e seu governo para culminar com o escândalo do chamado mensalão. A situação é parecida, mas não é igual. Em primeiro lugar, Dilma Rousseff não é o ex-operário que sentou no trono, embora tenha sido ungida por ele. E nos passos iniciais na Presidência, Dilma contou com a simpatia de boa parte da mídia, por mais medida que fosse e transparentemente voltada a afastar a criatura do criador.

A gestação do governo de Dilma
Por Mino Carta, da CartaCapital

Estamos de volta a um clima político inquieto em que a mídia nativa se alia na mira do alvo único, a evocar os tempos do ataque a Lula e seu governo para culminar com o escândalo do chamado mensalão. A situação é parecida, mas não é igual.

Em primeiro lugar, Dilma Rousseff não é o ex-operário que sentou no trono, embora tenha sido ungida por ele. E nos passos iniciais na Presidência, Dilma contou com a simpatia de boa parte da mídia, por mais medida que fosse e transparentemente voltada a afastar a criatura do criador.

Por outro lado, transparece com a necessária nitidez que tanto o Caso Palocci- quanto o do Ministério dos Transportes, recém-eclodido, não mancham a presidenta porque em ambos ela é, de certa forma, a parte ofendida. A boa-fé de Dilma é indiscutível. Resta o fato de que este governo faz água. CartaCapital vive o momento sem maiores surpresas: desde a posse não lhe reconhece a indispensável- solidez.

Antes das dúvidas suscitadas pela escalação de alguns ministros, existem problemas endêmicos, digamos assim, próprios da política verde-amarela, inerentes à questão central da governabilidade, a exigir alianças incômodas. O sacrifício obrigatório para harmonizar credos diversos sempre teve na história da República um preço muito elevado-. Agregue-se outra característica, daninha e insopitável: o partido do poder torna-se, automaticamente, tocado pela mão do destino, dono da casa-grande.

Partido do poder pelo poder, ideias e ideais, se os houve, vão para o espaço. Assim se porta hoje o PT, completamente- esquecido dos trabalhadores a bem da aplicação febril a favor dos seus próprios interesses, ou melhor, dos interesses dos graúdos do partido e dos petistas habilitados a chantagear os graúdos. Planta-se aí mais um problema para a presidenta, e nesta ótica há de ser encarado o desastrado desfecho do Caso Battisti.

Sobrevém no quadro a influência de Lula na composição do staff da campanha de Dilma e, ao cabo, do governo. Candidatos certos do ex-presidente, Antonio Palocci e Nelson Jobim. Quanto a José Eduardo Cardozo, é possível que sua indicação tenha saído do PT. Palocci, a esta altura, dispensa comentários, dele sabemos o bastante, inclusive das atitudes de primeiro-ministro assumidas na Casa Civil, com a provável responsabilidade de ter encaminhado a discutível fusão Pão de Açúcar-Carrefour.

Na Defesa, Jobim não perde a oportunidade de vestir a farda, na realidade do cotidiano e na metáfora. Parece, de fato, ser o mais denodado intérprete do eterno temor, ou da inextinguível desculpa, das eventuais reações de um exército ainda visto como de ocupação. Jobim é a versão fardada e oblíqua de Cassandra. E no outro dia vai à festa dos 80 anos de Fernando Henrique Cardoso, e diz das suas saudades da Presidência do aniversariante- e da tormentosa injunção do presente, que o obriga a conviver com um bando de parvos, seus colegas de governo.

O desafio à presidenta não precisa ser sublinhado. Resta a pergunta óbvia: por que o general Jobim não se demite? Cabe outra: por que a presidenta não o demite? E se o olhar se dirige para o ministro Cardozo, partidário ardoroso da negativa à extradição de Battisti, o que desperta as dúvidas maiores de CartaCapital é sua relação com Daniel Dantas, um dos senhores credenciados a cometer estripulias impunes no País, enquanto é condenado por cortes estrangeiras. Sempre vale recordar que Cardozo, ainda deputado petista, foi promotor de um jantar do banqueiro orelhudo na casa de Heráclito Fortes destinado ao encontro entre Dantas e o então ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos, bem como o acompanhou à Itália na tentativa, malograda, de enfrentar em campo alheio a Telecom italiana.

A saída de Palocci foi um passo importante, há outros, contudo, a serem dados, como prova a situação atual. E me ocorre de súbito a carta de Dilma a Fernando- Henrique octogenário. No meu entendimento, obra-prima de ironia, e esta não é crítica subdolosa, e sim inspirada por uma análise sem paixão. Não há naquelas linhas uma única em que Dilma acredite.

“Acadêmico inovador, político habilidoso, ministro–arquiteto de um plano duradouro de saída- da hiper-inflação, presidente que contribuiu decisivamente para a consolidação da estabilidade econômica.” Leio no sub-texto: o acadêmico que se exilou sem precisar, o político que toparia ser até ministro de Fernando Collor não fosse a ameaça de Mário Covas de romper com o PSDB, o usurpador do plano batizado por Itamar Franco, o presidente que quebrou o País três vezes.

O toque final, de todo modo, está na frase-chave: “O espírito do jovem que lutou pelos seus ideais, que perduram até os dias de hoje”. Não poderia haver mais ironia na definição de quem recomendou o esquecimento do seu passado para assumir o papel de líder da direita nativa. Dilma esbaldou-se, creio eu, na exploração da monumental vaidade do aniversariante, e com sutileza suficiente para que o próprio não percebesse e, certamente, muitos de sua corte. A ironia nem sempre é bem entendida nas nossas plagas. Raymundo Faoro me aconselhava: “Não exagere em ironia, pensarão que você fala sério”. Eu respondia: “É isso mesmo que busco”.

Permito-me supor que Dilma tivesse também outro objetivo ao escrever a carta, semear a confusão na área tucana e alvejar, talvez mortalmente, José Serra. CartaCapital nunca duvidou que a presidenta saiba atuar com acuidade no jogo da política, muito além das previsões e das esperanças da mídia, e com a devida firmeza no comando. São estas as razões da escolha de Carta-Capital por sua candidatura um ano atrás. É da nossa convicção de que ela saberá superar o momento tenso até inaugurar o seu governo, indiscutivelmente seu, a contar inclusive, como observa um caro amigo e excelente especialista em política, com o vento de cauda que, a despeito da crise mundial, empurra o Brasil por obra da própria natureza.
Aproveito para acentuar o quanto apreciamos o escudo feminino que a presidenta forma à sua volta. Agrada-me dizer que, neste governo, preferimos as damas aos cavalheiros.


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