escrevinhador

por Rodrigo Vianna

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08 de outubro de 2014, 10h30

A nova direita avançou. E quer muito mais

A nova direita não se contenta mais em viver na obscuridade das caixas de comentários da internet. Nas manifestações de junho, se assanharam a sair de casa. Esse encontro do agronegócio, do setor fundamentalista das igrejas pentecostais e dos coxinhas de classe média alta ainda não tem partido e ainda não encontrou seu presidente.

Por Miguel Stédile, especial para Escrevinhador

A nova direita brasileira foi dormir tranquila no último domingo. Elegeu o congresso mais conservador dos últimos cinquenta anos, segundo o Diap (Departamento Intersindical De Assessoria Parlamentar). Assim, impôs derrotas significativas ao petismo e à esquerda. Mas ainda é pouco e não é suficiente. A nova direita ainda procura seu legítimo representante.
As diferenças entre a velha e a nova direita são sutis, mas não irrelevantes. Ideologicamente, são idênticas. Desejam uma economia ultra-liberalizada, um alinhamento inconteste da política externa aos Estados Unidos. Além disso, tem um estranho fetiche por homens armados de farda, sejam da ROTA ou das Forças Armadas, e um horror a pobre, mesmo que muitos deles também o sejam, mas não se vejam assim.

A velha direita nos anos 80 e 90 tinha um problema: precisava aparentar o que não era. Ainda que a transição lenta e gradual de Golbery tenha sido bem sucedida para o projeto deles, ideologicamente a ditadura empresarial-militar e seus ramos fora derrotada. Era preciso se distanciar do berço e se apresentar como algo novo. Daí o surgimento do Partido da Frente Liberal, do Partido Liberal e de Collor e do PRN.

A contradição das contradições foi que o PSDB se tornou um problema para a direita. Nascido, supostamente, como opção de “centro-esquerda” ao PMDB, os tucanos chegaram ao poder em 1994, em uma aliança com o PFL. Essa coligação, que no primeiro momento parecia constrangedora, virou algo carnal.

Só que o PSDB se tornou o legítimo “partido neoliberal” no Brasil, incorporou sem melindres o discurso dos aliados e, na prática, foi ocupando o seu lugar no espectro político, como o “partido da direita”. O resultado tem sido o raquitismo do PFL, convertidos em DEM e desidratado pelos dissidências. nos últimos anos. Por isso, não tem sequer a vice-presidência na chapa de Aécio Neves e, na eleição, foi reduzido a 22 deputados e nenhum governador.

O problema da nova direita é que o PSDB é conservador na política e na economia. Mas a turma de Higienópolis, estudada em Sorbonne, fica constrangida em ter que dar as mãos aos evangélicos – os cristãos fundamentalistas da Opus Dei, tudo bem – em criticar o aborto, a descriminalização das drogas e outros temas morais.

A grande diferença entre a velha direita, que era discreta em pronunciar seu nome, e a nova direita, que se orgulha de ser o que é: eles são conservadores na política, na economia e na moral. E até agora não tem ninguém que os represente na corrida presidencial. Não com 100% de convicção.

O primeiro a perceber isso foi José Serra na campanha eleitoral de 2010, quando tratou de abraçar e beijar todo santinho que aparecesse na sua frente. Muito mais bem sucedido foi o pastor Marco Feliciano, que entendeu que quanto mais apanhava nas redes sociais com seus pronunciamentos homofóbicos, mais ganhava o apoio discreto da nova direita.

Em 2010, foi eleito com 212 mil votos. Neste ano, Feliciano fez mais de 398 mil. Levy Fidelyx descobriu a mesma coisa por acaso. Durante toda a campanha, seu programa eleitoral se limitava ao Aerotrem e manter a legenda de aluguel na vitrine. Perguntado sobre a questão LGBT, abriu a caixa-preta.

A reação às suas posições levou que ocupasse o lugar que até então fora do Pastor Everaldo nas eleições e tratou de orbitar nos temas LGBT e descriminalização das drogas no último debate. Com isso, obteve 446.878 votos. Na eleição anterior, ficou com apenas 57.960 eleitores.

O primeiro problema é que a nova direita não se contenta mais em viver na obscuridade das caixas de comentários da internet. Nas manifestações de junho, se assanharam a sair de casa e pegar a onda daqueles que – exatamente ao contrário – pregavam mais Estado e mais direitos.
A nova direita – esse encontro do agronegócio, do setor fundamentalista das igrejas pentecostais e dos coxinhas de classe média alta – ainda não tem partido e ainda não encontrou seu presidente.

É certo que não confiavam em Marina – essa petista arrependida, mas ainda um dia petista – e que simpatizam com Aécio. No entanto, a nova direita quer mais. Esse sentimento se expressão na eleição de parlamentares, onde é mais fácil encontrar candidatos locais  sem o ônus da governabilidade, que não temem em se expor.

A prova disso são as expressivas votações de Feliciano em São Paulo, Bolsonaro no Rio e Luiz Carlos Heinze – aquele que diz que quilombolas, gays, sem terras e “tudo o que não presta” estão no governo – no Rio Grande do Sul.

A esquerda tem a sua grande parcela de culpa. Em especial, as que estão em governos. Quando a esquerda deixa de dar sua opinião de forma contundente sobre os temas que são caros para a direita, como direitos civis e humanos,  deixa de ocupar espaço para barrar ou ganhar para seu projeto. Os melindres das coalizões cobram seu preço.

Cabe lembrar que ainda não é a ante-sala do fascismo. O fascismo não é só o discurso ultra-conservador, mas é a adesão das massas a esse projeto. E de qualquer forma, o assunto é sério demais para deixar como está. Ou seja, o antídoto para a direita que não tem vergonha do que é, é uma esquerda que lembre e pratique o que já foi.


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