escrevinhador

por Rodrigo Vianna

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13 de janeiro de 2011, 09h57

General quer passar por cima da história

por Paulo Ribeiro da Cunha: Passados alguns anos do processo de transição democrática, o Brasil caminha para uma maior oxigenação política, pavimentando pontes de diálogo com os militares, e estes, se submetendo ao Estado de Direito e ao controle do Poder Civil. Porém, ainda temos agravos a superar, a despeito de vários esforços.

Há que se envergonhar sim, general!

por Paulo Ribeiro da Cunha, no Diário de Marília

Passados alguns anos do processo de transição democrática, o Brasil caminha para uma maior oxigenação política, pavimentando pontes de diálogo com os militares, e estes, se submetendo ao Estado de Direito e ao controle do Poder Civil. Porém, ainda temos agravos a superar, a despeito de vários esforços. Em seu discurso de posse, a Presidenta Dilma demonstrou um posicionamento firme ao repudiar o revanchismo, embora igualmente valorizasse a atitude de resistência daqueles jovens que foram à luta contra a ditadura militar. Como ela, milhares foram presos, torturados, e há ainda muitos desaparecidos.

Demonstração maior de grandeza é desnecessária, até porque, a presidente avalizou com esse pronunciamento, a Conciliação, o Pacto da Transição, expresso mais uma vez na recente sentença do STF que absolveu os torturadores. Não deve ter sido fácil, até porque em muitos países da América Latina foi um pressuposto de recusa inegociável nas transições democráticas. Em alguns deles, os torturadores foram para o banco dos réus responder por seus crimes; e no Chile, o exército pediu desculpas à nação, valorizando a instituição e suas tradições, dissociando-a das ações de uns poucos. No Brasil, tivemos essa semana a péssima conduta de um militar, sugestiva de um retrocesso político, e que causou enormes constrangimentos à Sociedade Civil. Refiro-me as palavras do general José Elito Siqueira sobre os desaparecidos, ao afirmar que eles são parte da história da nação, e que nós não temos que nós envergonhar ou nos vangloriar’. Sobre isso, temos algumas considerações.

Primeiro, embora o general seja portador de uma folha de serviços respeitável (consta inclusive que esteve no Araguaia), não havendo nada que desabone sua folha de serviços e ou o associe aos desaparecidos; leia-se, é um profissional íntegro; isso independe de julgamentos de valor no cumprimento de uma missão.

Cabe lembrar ao mesmo que o respeito com o adversário e ao inimigo em combate é um pressuposto de honra e conduta. Assim deve ser apreendida a resistência dos jovens do Araguaia (entre outros), muitos deles tendo pago um preço alto na luta, suas vidas. Segundo, embora o general tenha conjugado no plural, nós, teria sido bem melhor que o fizesse no singular, eu. Suas atribuições não o autorizam a emitir juízos de valor em nome de milhares de membros das Forças Armadas, e nem mesmo do exército; vale dizer, como instituição foi maculada pela ação nefasta de alguns de seus membros, contradizendo uma rica história de tradições republicanas, inclusive democráticas.

Terceiro, não há que se vangloriar, mas há que se envergonhar sim, até porque, os mortos do Araguaia estão desaparecidos como tantos outros. São questões em aberto, que demandam o resgate da verdade. Há ainda um aspecto que devemos chamar atenção. A doutrina militar brasileira opera com o conceito de “aniquilamento”, que advém de Clausewitz, conceituado estrategista e famoso pela frase: a guerra é a política por outros meios.

Militarmente o conceito significa romper a vontade do inimigo de continuar na guerra, retirando dele a capacidade de agir e reagir de modo organizado, sendo o prelúdio do colapso; porém sua operacionalização pelo exército na Guerrilha do Araguaia resultou no aniquilamento do oponente como expressão de eliminação física total. Vários deles já estavam aniquilados enquanto combatentes quando presos; outros, e isso é mais grave, ao final da campanha do Araguaia se entregaram atendendo aos apelos dos militares à rendição. Sabe-se que muitos daqueles capturados em combate, bem como aqueles que se entregaram foram executados. Qual a razão? Estes, entre outros, onde estão? Não é algo de se envergonhar? Evidente que sim, não somente porque aqueles jovens mereceriam uma segunda chance; mas também por acreditarem numa promessa dos militares na busca de sua remissão.

Nesse sentido, posicionamentos como esse não soma em nada à reflexão da história, ou mesmo à construção de um diálogo entre a Sociedade Civil e os Militares; aliás, também injusta como assertiva ao exército como instituição. Em relação a essa última, sua história não é linear, houve uma história de levantes, rebeliões e lutas, com resultados conciliadores; mas houve lutas de confronto, quiçá, nobreza, em que os militares se postaram em várias ocasiões ao lado das causas nacionais e progressistas bem como ao lado do povo. Mas quanto aos desaparecidos, há muito que se envergonhar, quiçá se desculpar. Isto sim, seria um gesto de grandeza.

Paulo Ribeiro da Cunha é Doutor em Ciências Sociais e Professor de Teoria Política da FFC/Unesp. prcunha@marilia.unesp.br


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